De abaya, não me senti oprimida, apenas fantasiada

Repórter escreve sobre o uso da túnica durante cobertura da viagem de Bolsonaro à Arábia Saudita

Raquel Landim
Riad

Quando chegou pela primeira vez ao hotel em que se hospedou em Riad, capital da Arábia Saudita, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) aproximou-se rindo do grupo de jornalistas, formado em sua maioria por mulheres, que o acompanhava em seu tour pela Ásia.

"Que maravilha! Vocês estão mais bonitas assim, sabiam?", brincou o presidente, referindo-se às abayas (longas túnicas negras) e aos hiyabs (véus) que as jornalistas vestiam. 

E, enquanto já começavam as perguntas sobre suas expectativas para a viagem, o presidente continuou: "Quando a beleza é muito grande, ofusca os olhos da gente. Assim vocês ficam mais bonitas."

A lógica de Bolsonaro não se afasta muito do que diz a sharia, lei islâmica que regula a vida na Arábia Saudita e obriga as mulheres a vestir a abaya para esconder as formas e manter o recato. A túnica cobre todo o corpo exceto mãos, pés e rosto. Nos países da Ásia Central, como o Afeganistão, a abaya é conhecida como burca.

Jair Bolsonaro é entrevistado por jornalistas de abaya na chegada ao hotel em Riad, na Arábia Saudita, na última segunda-feira (28) - Divulgação Presidência da República

Fui aconselhada pelo ministério das Relações Exteriores a levar uma túnica para a viagem à Arábia Saudita. Achei estranho, porque já visitei a turismo ou trabalho outros países muçulmanos —Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Dubai, Catar e Kuwait —e nunca havia me deparado com essa exigência.

Uma semana antes da visita de Bolsonaro, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman —uma figura controversa que vem promovendo uma abertura gradual do reino, mas também é conhecido pelo desrespeito aos direitos humanos— aboliu a exigência das abayas para estrangeiras.

Só que eu já havia comprado o acessório e coloquei na mochila de mão. Ainda no portão de embarque do voo para Riad, dei graças a Deus pela prudência. Havia circulado de jeans e camiseta pelo aeroporto de Dubai, onde fiz conexão, mas naquele portão parecia um ET. Corri para o banheiro e coloquei a abaya.

Durante os quatro dias em que estive no país, vi pouquíssimas estrangeiras sem a túnica, e entre as locais não havia exceção possível. Até 2016, a polícia religiosa na Arábia Saudita tinha o poder de punir, deter e interrogar quem infringisse a sharia, principalmente as mulheres. Suas atribuições foram reduzidas, mas a própria sociedade continua bastante conservadora.

A única coisa que variava entre as muçulmanas era o uso do véu. Ao invés do hiyab, muitas sauditas, principalmente as casadas, utilizavam o niqab, que só deixa os olhos de fora. Não o retiravam sequer para comer: com uma mão levantavam o pano e com a outra levavam o garfo a boca.

Durante a viagem pela Ásia, Bolsonaro fez questão de evitar a comida dos países por onde passou e, em Riad, foi até uma churrascaria dirigida por brasileiros. No restaurante, conheci três brasileiras, casadas com jogadores de futebol que foram tentar a sorte nos times do país.

Elas me contaram que, no início, estranharam a abaya, mas que acabaram se acostumando e paradoxalmente acham "libertador", porque não têm mais que se preocupar todos os dias com que roupa vão vestir.

Há muitos sinais, no entanto, que as sauditas não deixam a vaidade de lado apesar das exigências da religião. Dá para perceber a maquiagem pesada, as unhas compridas e pintadas, as joias e as bolsas de grife. 

Tirei algumas fotos com a abaya e postei nas redes sociais. Uma amiga me perguntou se eu tinha me sentido oprimida com a túnica. Tive que pensar um pouco antes de responder. Não, eu não me senti oprimida, apenas fantasiada, porque, afinal, não serei mais obrigada a usá-la.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.