Manifestantes marcham até La Paz levando corpos de mortos em refinaria

Autópsia confirma que todas as oito mortes de apoiadores de Evo foram causadas por armas de fogo

La Paz | AFP

Milhares de pessoas marcharam nesta quinta (21) de El Alto a La Paz, cidades bolivianas separadas por poucos quilômetros, com os caixões de cinco dos oito mortos de um confronto entre manifestantes e militares em uma refinaria de El Alto.

Na terça (19), a polícia e as forças militares bolivianas usaram helicópteros e blindados para desbloquear a saída da refinaria, que tinha sido fechada com pilhas de pneus em chamas por apoiadores do ex-presidente Evo Morales. Pelo menos 30 pessoas ficaram feridas.

Os manifestantes ocupavam o local havia alguns dias e impediam a saída dos caminhões-tanques que deveriam levar combustível para La Paz, que foi afetada por uma grave crise de abastecimento.

Na chegada à capital, os manifestantes foram rechaçados com bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia.

Eles fugiram para as ruas ao redor da praça São Francisco. E o Exército dissolveu o protesto quando o povo, a maioria indígenas da etnia aimará, quis colocar os caixões sobre um tanque militar.

Não há informações sobre feridos nesse enfrentamento, mas o grupo acusa as Forças Armadas de atirar contra eles na ação para liberar o centro de distribuição de combustível. 

A autópsia realizada nos oito corpos mostra que todas as mortes foram causadas por projéteis de armas de fogo —a presidente autoproclamada, Jeanine Añez, porém, nega a responsabilidade de sua administração.

"Eles nos encheram de balas. Isso é sede de sangue", disse à AFP Rufino Copa, agricultora de 42 anos que participa dos protestos contra Añez, senadora da oposição que assumiu o poder em substituição a Evo Morales, depois de sua renúncia.

"Queremos justiça, não queremos que essa senhora seja presidente", disse uma indígena com seu bebê de oito meses nas costas, que pediu que seu nome não fosse divulgado por temer perseguição.

Do México, onde está asilado, o ex-presidente usou uma rede social para rebater a acusação de que teria incentivado os protestos. 

Na quarta (20), o ministro do Interior do governo interino, Arturo Murillo, apresentou um áudio atribuído a Evo em que um homem instrui um líder cocaleiro a fechar os acessos às cidades e interromper o abastecimento de alimentos.

"Que não entre comida nas cidades, vamos bloquear, cerco de verdade", diz um trecho da gravação. 

Evo acusou o governo autoproclamado de criar uma montagem para prejudicá-lo. "Apelar à manipulação judicial para encarcerar líderes anti-imperialistas, de esquerda e progressistas, é algo que fizeram com Lula, Cristina [Kirchner] e [Rafael] Correa", escreveu.

Cristina, ex-presidente da Argentina e atual vice-presidente eleita, responde a processos de corrupção, assim como o ex-presidente do Equador Rafael Correa. 

Na quarta (20), Añez enviou ao Congresso um projeto de lei para convocar eleições gerais, um mês depois da realização do pleito que marcou o início de manifestações violentas que já deixaram 32 mortos no país.

O Congresso debate nesta quinta e sexta (22) o projeto. Ainda não há data marcada para o novo pleito. Antes disso, novos membros para o Supremo Tribunal Eleitoral devem ser anunciados. 

A agência de notícias Reuters teve acesso a uma minuta de um projeto de lei do MAS que prevê eleições para o dia 12 de janeiro. A ministra de comunicações, Roxana Lizarraga, afirmou que realizar o pleito antes de 20 de janeiro é viável.

Uma autoridade do partido de Evo e de seu vice, Álvaro García Linera, anunciou nesta quinta que os dois não concorrerão à reeleição. 

"Vamos participar das eleições e vamos fazer isso com jovens candidatos, especialmente para presidente e vice-presidente", disse Henry Cabrera, membro sênior do MAS e vice-presidente da Câmara dos Deputados. "Não vamos reciclar candidatos".

Os Estados Unidos apoiaram nesta quinta o governo interino da Bolívia na organização de eleições "livres, justas e inclusivas", segundo o secretário de Estado, Mike Pompeo, e pediram a todos os bolivianos e à comunidade internacional que apoiem uma transição pacífica no país.

No dia 12, Añez se declarou líder do país a partir de uma interpretação controversa da Constituição, ocupando um vácuo de poder provocado pelas renúncias conjuntas de Evo, do vice-presidente e dos chefes do Senado e da Câmara.

O agora ex-presidente deixou o cargo em 10 de novembro, sob pressão de manifestantes, grupos civis e Forças Armadas, o que gerou denúncias de um golpe de Estado.

Outro fator que contribuiu para a queda foi uma auditoria internacional realizada pela OEA (Organização dos Estados Americanos), que afirma ter encontrado sérias irregularidades na contagem dos votos do pleito, o que colocou em dúvida a vitória declarada de Evo.

Desde então, um governo interino conduzido pela ex-senadora conservadora tem atuado para reprimir os protestos muitas vezes violentos e abalado a política interna e externa do país, com mudanças bruscas em relação à gestão de Evo, primeiro presidente indígena da Bolívia.

Erramos: o texto foi alterado

As cidades de ​El Alto e La Paz são bolivianas, e não colombianas, como anteriormente publicado. O texto foi corrigido.

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