Museu expõe fotos de carioca que foi pivô de guerra entre revistas dos EUA e do Brasil

Imagens de menino de 12 anos como face da pobreza publicadas na Life são tema de mostra

Los Angeles

Nas colinas bucólicas de Los Angeles, num dos museus mais importantes dos EUA, os morros apinhados de favelas do Rio surgem em destaque numa exposição fotográfica. São imagens que conectam os dois países desde os anos 1960, quando um fotógrafo americano resolveu “brincar de Deus” e mudar para sempre a vida de um menino brasileiro doente, deflagrando situação com contornos de crise diplomática.

O garoto mirrado tem hoje 70 anos e se chama Flávio da Silva. Ele veio para a abertura da exposição no Getty Museum, em cartaz até o fim de novembro. Foi sua primeira ida aos EUA desde os anos 1960, quando foi levado ao país para um tratamento de dois anos, graças à ajuda de doações de americanos e do fotógrafo Gordon Parks (1912-2006).

“Foi muito comovente quando Flávio se viu jovem nas paredes do museu”, disse o diretor-executivo da Gordon Parks Foundation, Peter W. Kunhardt Jr. “Ele nos contou de como Gordon era uma figura paterna e que sem ele provavelmente não estaria vivo hoje.”

Parks foi o primeiro fotógrafo negro da revista americana Life e dedicou boa parte da vida a registrar injustiças sociais nos EUA, sendo ele mesmo vítima da segregação racial. Também trabalhou para a Vogue e fotografou famosos, além de ser o primeiro afro-americano a dirigir um filme de Hollywood, “Shaft” (1971).

A revista Life escolheu Parks para ir ao Rio como parte da série de reportagens “Crise na América Latina”, em 1961. Ao ver Flávio, então com 12 anos, levando uma caixa d’água na cabeça e cuidando dos irmãos menores, decidiu transformá-lo no foco do ensaio.

Parks passou semanas ao seu lado na comunidade de Catacumba, na zona sul, e chegou a levá-lo à praia de Copacabana. A favela seria destruída pelo governo nos anos 1970, e imagens da desocupação fazem parte da exposição.

Quando as fotos de Silva foram publicadas na Life, a chamada da capa alertava para o espírito político da empreitada editorial: “Pobreza chocante gera comunistas”. Os EUA viviam a Guerra Fria, e seu presidente havia acabado de lançar uma iniciativa para promover a democracia na região, ou seja, evitar o comunismo.

Nas imagens em preto e branco, o menino aparece sempre de roupas esfarrapadas. Ele compartilha a cama com familiares, limpa o barraco, faz comida e brinca nas ruas de terra. Também aparece bastante adoentado por conta das crises severas de asma.

No museu, há fotos coloridas de Silva em Denver, arrumadinho, sorridente, jogando beisebol e fazendo amigos. Parks registrou a mudança e foi capa da Life com o título: “A compaixão dos americanos traz nova vida a Flávio”.

A primeira reportagem causou comoção nos EUA e levantou cerca de US$ 30 mil (hoje R$ 1 milhão) em doações. Já no Brasil, a reação foi diferente, ferindo os brios nacionalistas. 

A revista O Cruzeiro saiu em campanha para mostrar que miséria não era exclusividade do Brasil e enviou o fotógrafo Henri Ballot (1921-1997) a Nova York para contar uma história similar. Ballot registrou a vida de um menino que vivia em péssimas condições numa região próxima a Wall Street.

Parks tentou adotar Silva, assim como os Gonçalves, família com quem o então garoto passava os fins de semana em Denver. “Mas sabia que seu pai nunca deixaria. Ele percebeu o quanto Flávio era importante financeiramente”, diz o fotógrafo num vídeo da exposição.

Em seu livro “Flávio” (1978), Parks reconhece que “talvez estivesse brincando de Deus” ao tentar mudar o destino da família brasileira. Em 1999, fez sua última visita ao amigo no Rio, que morava ainda na mesma casa de Guadalupe, agora caindo aos pedaços.

“Ficou claro para mim que, moldando vidas humanas, dinheiro apenas não é suficiente”, escreveu.

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