Descrição de chapéu The Washington Post

Procuradores argentinos pedem prisão por abuso sexual de bispo próximo a papa Francisco

Gustavo Zanchetta é questionado por fazer selfies nu e por condutas inapropriadas com seminaristas

Roma | The Washington Post

Promotores argentinos fizeram um pedido internacional de prisão do bispo católico Gustavo Zanchetta, que trabalhou estreitamente com o papa Francisco, acusando-o de abuso sexual e dizendo que ele deixou de responder a emails e telefonemas na Cidade do Vaticano.

“O pedido de prisão foi emitido quando o acusado deixou de responder a repetidos telefonemas ou emails feitos ao número de telefone e endereço de e-mail que ele próprio compartilhou voluntariamente” com as autoridades, segundo comunicado de uma procuradoria provincial argentina.

O papa Francisco, durante visita à Tailândia - Ann Wang - 22.nov.2019/Reuters

A tentativa de trazer Zanchetta de volta à Argentina cria um potencial conflito com o Vaticano.

Ela aumenta a pressão sobre o papa para cooperar com o procedimento de justiça criminal, depois de especialistas externos terem instado a Igreja para cooperar mais com as autoridades civis. E coloca em questão o julgamento do papa.

A imprensa italiana informou que Zanchetta, 55, é acusado de cometer abuso sexual de dois seminaristas adultos.

Não foi possível obter uma resposta imediata do bispo. Um porta-voz do Vaticano que está viajando com o papa na Tailândia não respondeu imediatamente a um pedido de comentários.

De acordo com um comunicado do Vaticano emitido neste ano, o bispo estava de licença de seu trabalho no escritório de gestão financeira do Vaticano. Francisco já reconheceu anteriormente que Zanchetta enfrentava um julgamento canônico no Vaticano por comportamento sexual inapropriado.

Zanchetta e o papa Francisco se conhecem desde que trabalharam juntos na Conferência Episcopal da Argentina. Zanchetta foi um dos primeiros indicados pelo papa quando, em 2013, foi nomeado bispo de Orán, cidade do norte da Argentina próxima à fronteira da Bolívia.

Zanchetta renunciou a esse cargo repentinamente em 2017 e pouco depois foi indicado para um cargo sênior recém-criado no Vaticano.

Investigações da agência de notícias Associated Press e do jornal argentino El Tribuno, de Salta, indicaram que até então o Vaticano já havia recebido numerosas queixas relativas ao bispo: de que ele fizera selfies nu, tinha sido acusado de conduta inapropriada com seminaristas e cometera má administração financeira.

Em 2015, segundo a AP, funcionários na diocese de Zanchetta soaram o alarme sobre as aparentes selfies.

Francisco convocou Zanchetta a Roma e perguntou ao bispo sobre o que acontecera. Zanchetta disse que seu telefona fora atacado por hackers.

“Ele se defendeu bem”, recordou o papa em entrevista à rede mexicana Televisa em maio de 2019.

Uma queixa subsequente apresentada por vários funcionários diocesanos foi encaminhada ao Vaticano em 2017 e incluiu uma lista maior de acusações, incluindo abuso sexual que Zanchetta teria cometido no seminário, segundo a AP.

Semanas mais tarde, em julho de 2017, o papa Francisco teve novo encontro com Zanchetta, que dessa vez renunciou ao cargo de bispo de Orán. No entanto, em dezembro desse ano Zanchetta já tinha um cargo novo no Vaticano.

Em comunicado emitido neste ano, o Vaticano disse que desconhecia as acusações de abuso sexual envolvendo Zanchetta no momento de sua renúncia.

“O motivo de sua renúncia está ligado às suas dificuldades nos relacionamentos com o clero diocesano e com relacionamentos muito tensos com padres diocesanos”, disse o Vaticano. “Quando ele renunciou, havia sido acusado de autoritarismo, mas não havia acusações de abuso sexual.”

Zanchetta é o mais recente em uma longa linha de cardeais e bispos acusados de abuso sexual. Seus casos criam um quadro perturbador da dificuldade da igreja em lidar rapidamente com clérigos seniores acusados de delitos.

Tradução de Clara Allain

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