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Saúde de Trump volta a levantar dúvidas após visita não planejada a centro médico

Casa Branca afirma que presidente cumpriu 1ª etapa de exame anual, nove meses após último teste médico

Washington | The Washington Post

A visita inesperada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a um médico durante o fim de semana permaneceu cercada de segredo nesta segunda-feira (18), enquanto ele se afastava da vista do público e a Casa Branca evitava perguntas sobre a saúde do mandatário.

Trump, 73, fez uma visita não programada ao Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, em Bethesda, no sábado (16), dizendo mais tarde no Twitter que havia iniciado a "primeira fase" de seu exame físico anual e que os resultados foram "muito bons".

É incomum um presidente fazer um exame médico em vários estágios com meses de intervalo, e as circunstâncias que cercam a visita de Trump renovaram as perguntas sobre seu estado de saúde e a manipulação de suas informações médicas pela Casa Branca, segundo vários especialistas.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento na Casa Branca, em Washington
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento na Casa Branca, em Washington - Brendan Smialowski - 15.nov.19/AFP

A Casa Branca não disse na segunda-feira (18) se Trump pretende divulgar registros de sua visita ao hospital ou descrever por quais testes ele passou.

Em um comunicado no sábado, a secretária de imprensa da Casa Branca, Stephanie Grisham, disse que Trump fez um "exame rápido e testes de laboratório" e que "permanece saudável e enérgico, sem queixas".

Grisham também disse que Trump aproveitou um "fim de semana livre" em Washington para "começar partes de seu exame físico anual de rotina".

A Casa Branca não respondeu a pedidos de mais informações na segunda-feira.

Duas pessoas que interagiram com Trump no final da semana passada disseram que ele parecia rouco e com sinais de um resfriado, mas nada que parecesse sério.

A voz de Trump esteve ocasionalmente fraca e rouca durante uma entrevista coletiva na quarta-feira (13) com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Mas Trump também falou por mais de uma hora na quinta-feira em um comício político, o mais recente de uma série de eventos de campanha, o que a Casa Branca apontou como sinais de sua energia e vigor.

Na segunda-feira (18), o presidente permaneceu fora da vista do público, realizando reuniões a portas fechadas.

Ele se encontrou com o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, na residência da Casa Branca, e não no Salão Oval, de acordo com uma autoridade da Casa Branca familiarizada com o assunto, que pediu anonimato porque não estava autorizada a falar publicamente.

Um resfriado comum normalmente não seria suficiente para solicitar uma visita ao hospital Walter Reed, já que a Casa Branca possui equipamentos e instalações adequados para tratar a maioria das doenças leves e realizar testes de rotina.

Exames mais abrangentes podem ser realizados no Walter Reed.

O Gabinete Médico da Casa Branca tem a capacidade de executar muitos procedimentos médicos no local, incluindo a maioria dos procedimentos que podem ser feitos em ambulatório, disse Jennifer Peña, médica que atendeu o vice-presidente Mike Pence até maio de 2018.

"A pergunta mais informativa a ser feita sobre a situação atual é: 'O que está disponível no Walter Reed que não existe na unidade médica da Ala Oeste?'", disse John Sotos, cardiologista que estudou os registros de saúde de presidentes anteriores.

Vários especialistas médicos questionaram por que Trump iniciaria seu exame anual em novembro, apenas nove meses após seu último exame, e só o concluiria em 2020.

Deixar um intervalo de meses entre o início e a conclusão do exame é incomum e potencialmente contraproducente, disse Sotos, que serviu como médico da Guarda Aérea Nacional.

"Quando eles completarem o exame físico daqui a seis meses, as informações que receberão no sábado estarão velhas", disse ele. "Nunca vi isso com os presidentes no passado recente."

Há outras razões pelas quais a visita de Trump ao Walter Reed foi incomum.

Durante os exames médicos anteriores de Trump, a Casa Branca anunciou a visita com antecedência, e o presidente viajou no helicóptero presidencial, Marine One.

No sábado, a visita de Trump não foi anunciada com antecedência e o presidente usou uma carreata equipada com ambulância.

"Essa é uma das coisas incomuns em toda a situação", disse Peña. "Não apenas o modo de transporte, mas também, tradicionalmente, os exames médicos são anunciados e colocados na agenda pública. É por isso que não se encaixa bem no perfil."

Embora existam outras explicações plausíveis para a decisão de dispensar o helicóptero, a Casa Branca não comunicou adequadamente as circunstâncias em torno da visita de Trump, disse Jonathan Wackrow, ex-agente do Serviço Secreto.

Presidentes anteriores também enfrentaram escrutínio por falta de transparência sobre sua saúde.

O presidente Grover Cleveland realizou secretamente uma cirurgia em um iate em Nova York para remover um tumor da boca, e Franklin Delano Roosevelt, que foi diagnosticado com poliomielite, ocultou do público grande parte dos impactos da doença.

O presidente John F. Kennedy manteve em segredo a doença de Addison até depois de sua posse.

O senador Bernie Sanders (independente, de Vermont) enfrentou críticas no início deste ano, depois que sua campanha demorou vários dias para relatar que ele havia sofrido um ataque cardíaco, inicialmente descrevendo sua condição como "um infarto do miocárdio".

Durante sua campanha em 2016, Trump repetidamente mencionou a saúde de sua oponente democrata, Hillary Clinton, descrevendo-a como fisicamente despreparada para a tarefa de ser presidente.

Quando Hillary desmaiou após um evento memorial em setembro de 2016, os aliados de Trump deram ênfase ao vídeo que a mostrava caindo.

A campanha de Hillary acabou revelando que a candidata havia sofrido uma pneumonia.

Na segunda-feira, a campanha de Trump recuou contra a especulação de que havia algo errado com a saúde do presidente, classificando a cobertura noticiosa da visita ao hospital como "histeria".

"ÚLTIMA NOTÍCIA: Divulgada uma imagem de raio-x da visita do presidente @realDonaldTrump ao Walter Reed", publicou a campanha no Twitter, com uma imagem de uma radiografia de um homem de capa com o logotipo do Super-Homem no peito. "Certamente a @CNN pode parar com a histeria agora!"

Falando à Fox News no sábado, Grisham disse que a visita de Trump ao hospital Walter Reed havia sido "rotineira" e descartou "rumores" de que havia uma explicação mais preocupante para a viagem de improviso.

"Ele está tão saudável quanto possível", disse ela. "Ele tem mais energia do que qualquer um na Casa Branca. Esse homem trabalha das 6h até muito, muito tarde da noite, vocês sabem. Ele vai muito bem."

Trump fez seu primeiro exame médico anual como presidente no Walter Reed em janeiro de 2018. O segundo foi em fevereiro de 2019. Os médicos de Trump saudaram sua saúde como "excelente" e "muito boa" após esses exames.

Sotos disse que vê com desconfiança esses relatórios "cor-de-rosa", em parte devido a perguntas sobre a altura e o peso citados no primeiro relatório, que colocaram Trump apenas um quilo abaixo de estar oficialmente obeso.

Tanto a altura relatada de 1,80m como o peso de 108kg desde a primeira visita sofreram escrutínio de observadores externos.

"Há informações muito boas de que o presidente não ficou à vontade sobre algo tão simples e inócuo quanto sua altura", disse Sotos. "Acho muito difícil ter certeza de que as informações divulgadas são de alta qualidade."

Peña disse que as vantagens de ir ao Walter Reed incluem o fato de ser o hospital do presidente e de haver uma instalação exclusiva para cuidar dele.

Além disso, por ser uma base militar, é mais segura e as autoridades são mais capazes de manter a privacidade do que em um hospital aberto ao público.

Trump elogiou os médicos em um tuíte no sábado, acrescentando que ele visitou um militar ferido durante sua estada lá. "Estes são realmente alguns dos melhores médicos do mundo", escreveu.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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