Descrição de chapéu The Washington Post

Líderes chineses tentam evitar que surto de coronavírus vire 'momento Tchernóbil'

Governo busca proteger imagem de Xi Jinping como líder infalível e culpa autoridades locais

Gerry Shih
Pequim | The Washington Post

Enquanto a guerra comercial com os Estados Unidos se acelerava, em janeiro de 2019, o dirigente da China, ​Xi Jinping, reuniu-se com as principais autoridades do Partido Comunista para alertar sobre o surgimento inesperado de "acontecimentos do cisne negro" que poderiam desestabilizar o regime.

O termo se refere a um conceito criado pelo escritor libanês Nassim Taleb e que serve para descrever eventos inesperados que podem ter grande repercussão. 

Um ano depois, surgiu um outro desafio inesperado —não nos corredores de Washington.

Enquanto a China enfrenta uma epidemia de coronavírus com implicações potencialmente extensas para a saúde pública global e a economia doméstica, o Partido Comunista se esforça para administrar com calma o risco político, diante da população revoltada com a reação inicial confusa das autoridades à doença.

O dirigente chinês Xi Jinping, durante celebração do Ano Novo Lunar, em Pequim - Yao Dawei - 23.jan.20/Xinhua

"Esse é o tipo de momento de 'cisne negro', em que a legitimidade fundamental do partido é ameaçada", diz Kerry Brown, professor do King's College London e primeiro-secretário da Embaixada Britânica em Pequim durante a última grande epidemia da China, a da síndrome respiratória aguda grave (Sars), em 2002.

"É neste momento que o partido deve mostrar o mérito de seu sistema altamente controlado e coordenado e seu lado do contrato social", afirma ele. Em vez disso, "as pessoas parecem estar ficando cada vez mais nervosas".

Nos últimos dias, os principais líderes chineses adotaram uma espécie de abordagem bifurcada: permitir que os cidadãos critiquem as falhas das autoridades locais de Wuhan —que inicialmente encobriram e ignoraram o coronavírus—, enquanto armavam barreiras de proteção em torno de Xi, o dirigente que cultiva a imagem de um amado "Líder do Povo".

"A percepção pública será moldada pela máquina de propaganda, e essa máquina está acelerada no momento para proteger a reputação de Xi", diz Steve Tsang, diretor do Instituto da China na Universidade SOAS de Londres. "Eles precisam manter o mito de que ele não erra."

Depois que Xi se encontrou com o chefe da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, na terça-feira (28), a mídia estatal chinesa inicialmente exibiu um vídeo em que o dirigente dizia a Tedros que "dirigiu pessoalmente" a resposta ao surto.

Mais tarde, porém, as agências estatais o citaram dizendo que seu governo estava "dirigindo coletivamente" a resposta.

Xi apareceu uma vez na televisão, no dia do Ano Novo Lunar, ordenando decisivamente a formação de uma equipe de reação a epidemias. Mas ele não se nomeou chefe dessa comissão.

As autoridades chinesas podem temer uma catástrofe política se o vírus continuar se espalhando para grandes cidades como Pequim e Xangai, diz Victor Shih, especialista em economia política chinesa na Universidade da Califórnia, em San Diego.

"Se Xi estava totalmente confiante em uma vitória contra a doença, por que não se colocou no comando e colheu todas as glórias?", questiona.

A confiança popular em Xi, que vende seu estilo homem-forte como mais eficaz que as administrações descentralizadas de seus antecessores, poderá evaporar se a situação piorar drasticamente, acrescenta.

Enquanto quase 55 milhões de pessoas se adaptam a uma quarentena indefinida no centro da China e as companhias aéreas internacionais começam a cancelar voos para o país, as frustrações aumentam.

No Twitter, serviço que só é acessível na China com um software especial, os chineses compartilharam amplamente o vídeo de uma mulher de Wuhan perguntando com irritação como o partido poderia "construir uma sociedade moderadamente próspera se não restasse ninguém".

Outros foram ao Douban, equivalente chinês ao IMDB, onde deixaram resenhas codificadas sobre a série "Chernobyl", da HBO. Muitos vincularam a inaptidão oficial da China nos dias atuais aos últimos anos da União Soviética e sugeriram que o vírus de Wuhan era uma espécie de "momento Tchernóbil".

"Existem muitas semelhanças", escreveu o espectador "jianghai jiyusheng". "Haverá um filme daqui a alguns anos sobre a pneumonia de Wuhan?"

A explosão nuclear em Tchernóbil, em 1986, é amplamente considerada um fator que apressou o colapso da União Soviética alguns anos depois.

Na terça-feira, as autoridades chinesas se cansaram. Os censores não retiraram completamente os comentários sobre Tchernóbil, mas tornaram a página invisível para quem não estivesse logado com uma conta.

Apesar de todas as frustrações do público com seu governo, dizem observadores políticos, muitos parecem estar apoiando a alta liderança.

Na quarta-feira, uma agência estatal chamada The Paper (o jornal) divulgou uma pesquisa de opinião em todo o país que mostrou os chineses reprovando amplamente o desempenho recente das autoridades de Wuhan e Hubei, mas mantendo um alto nível de confiança nos dirigentes centrais em Pequim.

Dali Yang, especialista em política e governança da China na Universidade de Chicago, disse que o governo parecia feliz em deixar a culpa recair nas autoridades inferiores, desde que a população não questione a legitimidade básica do partido ou sua cultura burocrática.

E as autoridades pareciam até permitir um raro grau de dissidência e debate sobre a transparência do governo, disse ele. "Culpar os habitantes locais é uma estratégia consagrada pelo tempo", afirma Yang.

De fato, a internet chinesa nesta semana está cheia de usuários que zombam do chefe do partido em Wuhan, o epicentro viral, por tropeçar nas palavras ao explicar como produzir máscaras protetoras.

E depois que os cidadãos condenaram amplamente as autoridades de Wuhan por deter e silenciar médicos que informaram sobre o novo vírus, há quatro semanas, o mais alto tribunal da China interveio e repreendeu a polícia local por calar denunciantes.

"Os rumores param quando as informações são públicas", disse o Supremo Tribunal Popular, geralmente conservador, na terça-feira, nas redes sociais, dizendo às autoridades de Wuhan que eles devem aprender uma "lição profunda".

Em entrevista na televisão estatal nesta semana, o prefeito de Wuhan, Zhou Xianwang, ofereceu seu cargo, dizendo que está disposto a aceitar a queda se isso abrandar a ira popular.

Depois que a crise acabar, o Partido Comunista provavelmente demitirá várias autoridades locais, dependendo do quanto as coisas se agravem, disse Tsang, professor do SOAS.

"Eles concluirão que o problema não era a demasiada concentração de poder, mas na verdade a pouca concentração de poder" no topo, diz ele.

"Alguns funcionários serão responsabilizados. E nenhum deles será Xi Jinping."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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