Em maior onda de violência em décadas na capital, mortos chegam a 27 na Índia

Cerca de 200 ficam feridos em confrontos entre muçulmanos e hindus em Nova Déli

Nova Déli e São Paulo | AFP e Reuters

Um conflito religioso entre a maioria hindu e a minoria muçulmana em Nova Déli entrou nesta quarta (26) em seu quarto dia, deixando um rastro de destruição na capital da Índia e ao menos 27 mortos, segundo os serviços de saúde locais.

Duas mesquitas foram queimadas na cidade e cerca de 200 pessoas ficaram feridas, na maior onda de violência religiosa a atingir a capital em mais de três décadas.

A continuação do conflito fez o premiê Narendra Modi, um nacionalista hindu, pedir calma aos dois lados.

"A paz e a harmonia são fundamentais para nosso espírito. Faço um apelo a meus irmãos e irmãs de Déli para que mantenham a paz e a fraternidade a todo momento", afirmou ele em uma mensagem divulgada numa rede social. 

"É importante que exista calma e que a normalidade seja restabelecida o mais rapidamente possível", acrescentou o primeiro-ministro, que é acusado por seus críticos de favorecer os hindus (que formam cerca de 80% da população) em seu governo e discriminar os muçulmanos (14%). 

Em resposta, o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, afirmou que, "quando uma ideologia racista baseada no ódio toma o poder, isto leva a um banho de sangue", em referência ao nacionalismo hindu simbolizado por Modi.

Com maioria muçulmana, o Paquistão tem uma rivalidade histórica com a vizinha Índia desde que os dois se tornaram independentes do Reino Unido. E essa oposição é, em grande parte, estimulada pelas desavenças religiosas. 

Presidente do Partido do Congresso, a principal sigla de oposição na Índia, Sonia Gandhi (nenhuma relação com Mahatma Gandhi) pediu a demissão do ministro do Interior, Amit Shah —a pasta é a responsável pela segurança da capital.  

O confronto se concentra na região noroeste da cidade e acabou ofuscando a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chegou na Índia na segunda (24) e foi embora no dia seguinte.

O conflito tem como pano de fundo uma polêmica nova lei de cidadania apoiada pelo próprio Modi. 

A norma, aprovada pelo Parlamento em dezembro, determina que hindus e cristãos vindos de países vizinhos que se estabeleceram na Índia antes de 2015 poderão pleitear cidadania por enfrentarem perseguição nos seus lugares de origem.

A regra, porém, não vale para muçulmanos, o que despertou críticas contra o governo. Desde a aprovação, eles têm ido às ruas de várias cidades do país para protestar.

O estopim para a violência teria sido a declaração de um político local, Kapil Mishra, do BJP (Partido do Povo Indiano, a sigla de Modi), que no domingo (23) anunciou que a partir desta terça (após o fim da visita de Trump) iria reunir grupos de hindus para atacar muçulmanos contrários à lei que estivessem participando de protestos. 

Com isso, no próprio domingo muçulmanos e hindus começaram a arremessar pedras uns nos outros, de acordo com o jornal americano The New York Times. 

Desde então, bairros da periferia de Nova Déli onde moram muçulmanos se transformaram em um campo de batalha. Há relatos de casas, carros, lojas e um mercado incendiados, além de duas mesquitas. 

Segundo a agência Reuters, grupos com centenas de hindus armados com pedras, porretes e armas de fogo têm ido até esses bairros para atacar muçulmanos —que afirmam que a polícia não tem impedido a ação.    

O New York Times afirmou ainda que a situação melhorou um pouco nesta quarta em relação aos dois dias anteriores, mas ainda há relatos de casos de violência em diversos bairros. 

Entre os mortos, a maioria foi atingida por tiros, mas há também vítimas que se jogaram de prédios para escapar de ataques. 

Ao menos um policial e um agente de inteligência estão entre os mortos, mas não há detalhes do que aconteceu com eles. Outras 106 pessoas foram presas. 

Segundo a publicação americana, agentes de segurança têm disparado contra multidões, atingindo indiscriminadamente tanto muçulmanos quanto hindus. A polícia também teria recebido autorização do governo para atirar com fuzis contra quem participar dos confrontos.

A Suprema Corte de Déli anunciou que está analisando as denúncias de violência e que a prioridade é impedir que se repitam os acontecimentos de 1984, quando uma onda de violência contra os sikhs (outra minoria religiosa) deixou mais de 3.000 mortos na cidade. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.