Índia prepara show épico para receber primeira visita de Trump

Multidão foi recrutada por premiê indiano para dar boas-vindas a americano, que é popular no país

Ahmedabad (Índia) | The New York Times

As ruas parecem uma colmeia agitada: mulheres carregam baldes de areia, trabalhadores espalham asfalto fresco, um exército de varredores ataca os detritos nas ruas e um novo muro se ergue diante de uma favela, aparentemente para escondê-la dos passantes.

O presidente Donald Trump deverá chegar à cidade de Ahmedabad, no oeste da Índia, na segunda-feira (24), para sua primeira visita presidencial ao país, e o primeiro-ministro Narendra Modi planejou um espetáculo épico.

A cidade está sendo totalmente limpa, e muitos milhares de seguidores de Modi foram recrutados para se posicionar durante horas nas ruas sob o sol escaldante, agitando bandeiras e saudando um presidente cujo maior prazer é atrair uma multidão.

Soldado passa perto de bonecos de Narendra Modi e Donald Trump em Ahmedabad, na Índia
Soldado passa perto de bonecos de Narendra Modi e Donald Trump em Ahmedabad, na Índia - Adnan Abidi/Reuters

É o segundo ato de uma amizade recente entre os dois líderes das democracias mais populosas do mundo.

No ano passado, Trump e Modi dividiram o palco em Houston, no Texas, em um comício chamado "Howdy, Modi!" [Oi, Modi]. Este agora é chamado de "Namaste Trump", que se traduz aproximadamente como "Olá, Trump".

Por baixo da camaradagem planejada, porém, há uma realidade mais espinhosa. Os Estados Unidos e a Índia são parceiros estratégicos, em boa parte por uma preocupação mútua em relação à China, mas ainda não conseguem chegar a um acordo sobre questões cruciais.

Até um pequeno tratado comercial que deveria ser a peça principal desta viagem desmoronou.

"Eles estão nos batendo forte há muitos, muitos anos", disse Trump nesta semana sobre a Índia.
Mas acrescentou rapidamente: "Eu realmente gosto do primeiro-ministro Modi".


Modi parece ter atraído Trump a voar 12.800 quilômetros e passar dois dias na Índia com sua promessa de montar um show enorme, rigidamente controlado, com Trump no centro.
 
O presidente americano afirmou diversas vezes que lhe garantiram uma multidão de 5 a 7 milhões de pessoas para recebê-lo, e na quinta-feira ele aumentou o número para 10 milhões.

Autoridades de Ahmedabad disseram que não chegará perto disso: será algo mais parecido com 100 mil nas ruas e mais 100 mil à espera de Trump em um novo estádio de críquete, o maior do mundo, onde ele fará um discurso.

Trump é popular na Índia, onde é considerado um líder forte, duro contra o terrorismo, amigo das empresas e de Modi.

Os dois têm em comum uma espécie de política populista e divisória. Mas Modi não quer correr riscos: vai despachar dezenas de milhares de policiais e espalhar entre a multidão pessoas confiáveis para aplaudir com entusiasmo seu convidado.

Cicilista passa em frente a outdoor com imagem de Narendra Modi, Donald e Melania Trump em Ahmedabad, na Índia,
Cicilista passa em frente a outdoor com imagem de Narendra Modi, Donald e Melania Trump em Ahmedabad, na Índia, - Adnan Abidi/Reuters

Só para ficar à margem da estrada que a carreata de Trump percorrerá durante alguns minutos na segunda é necessário um passe especial, dado a partidários cuidadosamente selecionados, seus aliados e grupos escolhidos a dedo pelo governo.

É um nível de controle que Modi pode criar na Índia, muito diferente da Grã-Bretanha, por exemplo, onde Trump se movimentou com cuidado para evitar a visão de multidões hostis.

O modo como o governo indiano decidiu apresentar a visita —não como uma reunião de cúpula de potências, mas como "Namaste Trump"— parece indicar que poderá moldá-la mais como um exercício de relações-públicas, embora memorável, do que qualquer outra coisa.

Para os dois líderes é uma distração bem-vinda. Trump está ansioso para mudar de assunto depois de seu julgamento de impeachment, e Modi adoraria um descanso dos protestos sobre uma nova lei de cidadania contrária aos muçulmanos que exacerbou as tensões entre a maioria hindu e a minoria muçulmana da Índia.

Modi também foi amplamente criticado pela repressão na Caxemira, território de maioria muçulmana que é alvo de antiga disputa entre o Paquistão e a Índia.

Ao viajar tão longe para ver Modi, o presidente Trump estará basicamente lhe dando um selo de aprovação num momento em que sua liderança é questionada.

"Há mais questões nos últimos seis meses sobre o compromisso da Índia com a democracia", disse Bruce Riedel, professor convidado do Instituto Brookings, "do que realmente vimos na história do relacionamento EUA-Índia."

Mas ele acrescentou: "A boa notícia para a Índia é que a última pessoa no mundo que deverá levantar essas questões é Donald Trump".

A família Trump está envolvida em mais projetos imobiliários na Índia do que em qualquer outro lugar fora da América do Norte, e, como Trump mostrou no comício "Olá Modi" em setembro, ele está ansioso para atrair votos dos indianos que vivem nos EUA.

Seus números não são tão significativos —cerca de 3 milhões—, mas eles geralmente são ricos e votaram majoritariamente contra Trump em 2016.

Viajando com a primeira-dama, Melania Trump, o presidente visitará várias cidades indianas, incluindo uma escala no Taj Mahal. O lugar inicial da visita, Ahmedabad, é tão seguro e pró-Modi quanto poderia ser na Índia e, por extensão, pró-Trump.

A Índia e os EUA claramente precisam um do outro, mas Ashutosh Varshney, diretor do Centro de Estudos Contemporâneos da Ásia Meridional na Universidade Brown, descreve o relacionamento como "dois potenciais amigos".

Trabalhadores lavam asfalto perto do aeroporto em Agra, em preparação para a visita de Trump à Índia
Trabalhadores lavam asfalto perto do aeroporto em Agra, em preparação para a visita de Trump à Índia - Pawan Sharma / AFP

Mesmo que permaneçam algumas questões difíceis, porém, a visita claramente demonstra a importância estratégica da Índia.

"Qualquer visita presidencial é importante por definição; é o mais alto nível de diplomacia que existe", disse Alyssa Ayres, membro sênior do Conselho para Relações Exteriores.

Em Ahmedabad, ninguém está falando em geopolítica. O foco é sobretudo em arrumar a multidão.
Autoridades do partido de Modi disseram que, juntamente com organizações nacionalistas hindus e grupos comunitários, receberam ordem para reunir milhares de voluntários para cercar a estrada e lotar o estádio de críquete.

Hetal Amin, fervorosa apoiadora de Modi que dirige uma organização de mulheres, está levando mil delas para um trecho da estrada entre o aeroporto e a cidade.

Ela disse que as autoridades estão dando comida, transporte, passes e bandeiras, mas não dinheiro.

Ela afirma que, quando vê fotos de Trump e Modi juntos, que hoje estão por toda parte em Ahmedabad, vê "dois homens que Deus enviou para trazer paz ao mundo".

Em uma área de favelas na estrada da carreata presidencial, um novo muro de cimento cinza apareceu misteriosamente, escondendo uma série de moradias improvisadas.

A prefeitura disse que o muro estava planejado há muito tempo para proteger os moradores da rua movimentada. Hoje, muitos indianos brincam que Trump finalmente conseguiu seu muro —e a Índia pagou por ele.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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