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The Washington Post Eleições EUA 2020

Na liderança, Sanders sobrevive a ataques de rivais em debate democrata

Em noite tumultuada, adversários não fizeram o suficiente para tirar favoritismo do senador

Dan Balz
Charleston (EUA) | The Washington Post

Todos sabiam que Bernie Sanders seria o alvo principal no debate democrata da terça-feira (25).

Mas o movimento de “barrar Sanders”, representado pelos seis outros pré-candidatos no palco, tropeçou e teve dificuldade em manter o foco sobre o candidato que lidera a corrida pela indicação presidencial do partido.

O tom do debate acabou virando uma metáfora da própria corrida democrata, com candidatos interrompendo uns aos outros em diversos momentos, falando enquanto outros ainda estavam com a palavra e constantemente ignorando os esforços dos moderadores para impor alguma ordem à noite turbulenta.

O evento não ajudou a elevar o nível de confiança dos eleitores democratas que vão selecionar o candidato que disputará a Presidência com Donald Trump.

Ao lado dos também pré-candidatos Elizabeth Warren (esq.) e Joe Biden (dir.), o senador Bernie Sanders gesticula durante o debate em Charleston, na Carolina do Sul
Ao lado dos também pré-candidatos Elizabeth Warren e Joe Biden, o senador Bernie Sanders gesticula durante o debate em Charleston, na Carolina do Sul - Win McNamee/Getty Images/AFP

O que a noite deixou claro foi o grau em que Sanders se diferencia dos outros candidatos, que se mostraram divididos e que acabaram entrando tantas vezes em confronto entre eles quanto com o senador pelo estado de Vermont.

Sanders tem sua base, e ela lhe tem servido bem até agora. Os outros pré-candidatos estão tentando encontrar as deles. Nenhum dos rivais de Sanders se elevou significativamente acima dos outros.

Para ele, esse deve ter sido um resultado satisfatório.

Os rivais de Sanders acertaram golpes em questões que já foram discutidas acaloradamente no passado e em outras que foram levantadas mais recentemente, e a performance de Sanders não foi uma de suas melhores.

Ele ficou na defensiva em vários momentos, tanto com relação aos custos de seu plano de Medicare Para Todos quanto sobre seu histórico em relação às armas de fogo ou, mais recentemente, suas declarações elogiando a Cuba de Fidel Castro e seus programas de alfabetização.

Sanders foi atacado pelo ex-vice-presidente Joe Biden, o ex-prefeito de South Bend (Indiana) Pete Buttigieg, a senadora Amy Klobuchar, o empresário democrata do Minnesota Tom Steyer e o ex-prefeito de Nova York Mike Bloomberg.

Ele chegou a ser criticado pela senadora Elizabeth Warren, de Massachussets, que defendeu os valores e as pautas progressistas que os dois compartilham, mas o acusou de ser um político que não consegue implementar seus projetos.

Sanders reconheceu pelo menos um erro passado: um voto para isentar os fabricantes de armas da possibilidade de serem processados. “Já participei de milhares de votações, e em alguns casos tomei a posição errada”, disse ele. “Esse foi um desses casos.”

Mas em quase todos os outros confrontos ele se manteve firme em sua posição. Ele retornou sempre para sua mensagem fundamental, que vem transmitindo constantemente desde 2016.

O que é diferente, argumentou, é que ideias antes descritas como estando nas margens do Partido Democrata agora fazem parte do mainstream da legenda. Alguns de seus rivais discordam, mas cabe a eles atraírem votos suficientes para provar que Sanders está equivocado.

Não saberemos imediatamente se os ataques coletivos a Sanders vão desacelerar seu ímpeto. Mas algo que é ainda mais difícil de avaliar é o que poderia ter acontecido se os outros candidatos tivessem levado o senador mais a sério antes e o submetido a um questionamento contínuo por meses.

Sanders conseguiu até agora escapar desse tipo de exame detalhado, assim como conseguiu evitar ser golpeado mais fortemente na noite de terça-feira, isso porque seus rivais tinham outras batalhas a travar em seu esforço para mostrar aos eleitores democratas que cada um merece se tornar a alternativa única e singular ao senador.

A suposição tinha sido que essa alternativa seria Joe Biden. Em vez disso, Biden está diante de uma encruzilhada no próximo sábado.

Ele já assinalou há tempos que a primária na Carolina do Sul será o teste mais crucial de sua candidatura, e ela se tornou ainda mais crítica diante dos resultados que ele obteve nas três primeiras disputas.

Questionado sobre sua queda nas sondagens e o futuro de sua candidatura, Biden respondeu em tom desafiador: “Vou ganhar na Carolina do Sul”. Ele fincou um marcador que vai definir o resto de sua candidatura.

Mas outros enfrentam encruzilhadas semelhantes. Buttigieg e Klobuchar não preveem resultados fortes na Carolina do Sul, e isso intensificará a pressão sobre suas campanhas.

Warren, que novamente foi a pré-candidata mais agressiva no palco, enfrenta pressões semelhantes. Mas, embora tivesse criticado Sanders nominalmente, seu alvo principal pelo segundo debate consecutivo foi Bloomberg.

O ex-prefeito de Nova York se recuperou um pouco em relação à sua performance fraca em Las Vegas, parecendo mais dinâmico e calmo em suas réplicas a Warren e aos outros pré-candidatos.

Mas Warren procurou desqualificá-lo de outra maneira, argumentando que seu histórico de ter financiado republicanos nos últimos anos deveria torná-lo indesejável para o Partido Democrata em 2020.

“O núcleo do Partido Democrata nunca sentirá confiança nele”, disse ela. “Bloomberg não conquistou essa confiança.”

Ainda há uma dúvida diante do ex-prefeito de Nova York, se ele fez o suficiente para compensar o dano sofrido na semana passada.

Mas ele não fará parte da disputa na Carolina do Sul, já que decidiu ignorar as quatro primeiras disputas (Iowa, New Hampshire, Nevada e a própria Carolina do Sul) para concentrar seus esforços na Super Terça, na próxima semana.

Embora o debate desta terça tenha acontecido na Carolina do Sul, para todos os candidatos o evento foi uma oportunidade para apelar também para os eleitores que vão votar na Super Terça.

Com 14 Estados e dois outros locais promovendo prévias, a corrida democrata vai de repente se converter em uma disputa nacionalizada em que a prioridade principal passa a ser a conquista de delegados.

Dois dos maiores prêmios são a Califórnia e o Texas, que juntos somam 643 delegados.

Cerca de um terço dos delegados que vão participar da disputa de indicação do candidato democrata serão selecionados na próxima terça-feira.

Com os opositores de Sanders ainda brigando entre eles tanto quanto com Sanders, as próximas disputas vão oferecer ao senador de Vermont a oportunidade de acumular delegados suficientes para provavelmente poder chegar à convenção nacional democrata no Milwaukee, em julho, como líder, mesmo que ainda não tenha obtido a maioria dos delegados.

Sanders foi alvo de críticas em outros debates, mas nenhum dos pré-candidatos até agora foi alvo do tipo de ataque contínuo que ele enfrentou na terça-feira de todos os outros sobre o palco.

Depois de ele ter saído à frente sem dificuldades nas primeiras três disputas –vencendo em New Hampshire e Nevada e ficando virtualmente empatado com Buttigieg em Iowa—, seus rivais despertaram e lançaram um esforço para frear seu impulso inicial.

Uma semana atrás, em Las Vegas, Sanders escapou de qualquer questionamento sério por parte dos outros pré-candidatos, apesar de sua posição na liderança não ser menos evidente então do que foi na terça-feira.

Ele escapou porque os outros estavam mais interessados em atacar Bloomberg, em sua primeira participação em um debate.

Os rivais de Sanders foram bem-sucedidos nessa missão, auxiliados consideravelmente pela performance fraca do prefeito.

Com Bloomberg sendo atacado ao longo do debate inteiro, Sanders conseguiu chegar ao fim da noite tendo sofrido apenas um ou dois arranhões.

Ele recebeu mais do que arranhões superficiais na noite de terça, e em alguns momentos pareceu hesitar momentaneamente, especialmente em relação à questão das armas.

Mas esses momentos geralmente passaram rapidamente diante dos gritos e interrupções que tomavam conta do palco.

Inexplicavelmente, Biden foi o único candidato que em vários momentos se conteve, questionando seu próprio julgamento repetidamente enquanto outros continuavam a falar, mesmo depois do fim de seu tempo permitido e ignorando as súplicas dos moderadores.

Para o presidente Trump, este foi mais um debate democrata que beneficiou seus objetivos. Um Partido Democrata dividido e uma disputa pela indicação presidencial que em vários momentos parece prejudicar os candidatos tanto quanto os reforça –isso é algo a que ele tem prazer em assistir.

Apenas em poucos momentos os candidatos apresentaram um argumento contra o presidente, especialmente o presidente que desde o impeachment vêm usando de seu poder para afastar quem vê como sendo hostil ou desleal.

Só em raros momentos eles elevaram o tom moral e falaram mais afirmativamente ao eleitorado que vai decidir o resultado em novembro.

Por enquanto, eles estão focados em atacar uns aos outros, por todas as razões evidentes. Há uma indicação a ser conquistada, e neste momento Bernie Sanders está com a vantagem.

O debate fez pouco para mudar essa trajetória, e caberá aos eleitores resolver como vai ficar.

Tradução de Clara Allain

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