Descrição de chapéu
Eleições EUA 2020

Iowa fornece o 1º resultado palpável para eleitores ainda em dúvida

Vencedor de caucus no estado costuma ganhar embalo nas prévias subsequentes

São Paulo

Por que uma eleição prévia com menos de 200 mil eleitores, em um único estado no Meio-Oeste americano, recebe tanta atenção de analistas e da mídia?

Não é apenas por ser a primeira votação da temporada de primárias presidenciais dos Estados Unidos que o caucus de Iowa ganha tanto destaque.  

Nos últimos 24 anos, todos os pré-candidatos democratas que venceram em Iowa acabaram sendo os indicados do partido —com apenas uma exceção.

Bill Clinton perdeu em Iowa em 1992 e mesmo assim levou a indicação, após vencer várias prévias de outros estados.

Eleitores escolhem seus candidatos durante um caucus satélite em Paris
Eleitores escolhem seus candidatos durante um caucus satélite em Paris - Benoit Tessier/Reuters

Obviamente, o caucus não possui poderes mágicos de prever o futuro. Mas o embalo que o pré-candidato ganha com uma vitória em Iowa acaba impelindo esse candidato nas prévias subsequentes.

Após meses de pesquisas de opinião, notoriamente pouco confiáveis, Iowa fornece o primeiro resultado palpável para eleitores em dúvida entre diversas opções.

Como a mídia dá muito peso ao vencedor no estado, ele ganha muita cobertura na imprensa, o que acaba animando os doadores da campanha a destinarem mais recursos, aumentando as chances do candidato.

Os ativistas ficam empolgados quando seu candidato vence na primeira prévia do ciclo e se empenham ainda mais na campanha. O contrário também vale: muitos doadores e ativistas colocam o pé no freio quando seu candidato tem resultado muito fraco em Iowa, o que leva os políticos a desistirem da candidatura.

Foi o ex-presidente Jimmy Carter que alçou Iowa ao status de termômetro eleitoral. Carter era um desconhecido governador do estado sulista da Geórgia, um ex-plantador de amendoim com sotaque caipira, cuja pretensão presidencial era recebida com ceticismo.

“Eu me lembro de quando anunciei minha candidatura à Presidência, em dezembro de 1974. Houve um título enorme em um editorial do jornal Atlanta Constitution [da Geórgia] que dizia: Jimmy Carter candidato a quê?”

Carter resolveu se dedicar com afinco à campanha em Iowa. Passou meses encontrando agricultores no estado e se apresentando.

Mesmo assim, ele não ganhou no caucus em 1976 —ficou em segundo lugar, pois os eleitores que se diziam "não definidos" foram a maior parcela.

Mas a zebra do resultado —ele superou muitos concorrentes mais conhecidos— impulsionou-o a uma vitória na prévia seguinte, em New Hampshire, e assim ganhou embalo.

Desde então, Iowa passou a ser priorizado pela maioria dos candidatos. Quando Barack Obama derrotou Hillary em Iowa, em 2008, foi uma enorme zebra.

Ela estava mais de 20 pontos à frente de Obama nas pesquisas nacionais de opinião. Após a vitória no caucus, ele chegou a cinco pontos de distância de Hillary (que acabou vencendo em New Hampshire, mas perdeu a indicação para Obama).

Já no caso dos pré-candidatos republicanos, Iowa costuma ser um trampolim para a obscuridade. Desde 2008, o candidato republicano que prevaleceu no estado não foi o indicado. 

Em 2008 foi o ex-governador de Arkansas, Mike Huckabee, que não chegou nem perto da indicação (mas acabou faturando alto com livros e participações midiáticas).

Em 2012, foi o ultraconservador Rick Santorum, cuja pré-candidatura murchou rapidamente. E, em 2016, o furacão Trump atropelou o vencedor Ted Cruz, que era o preferido de muitos no establishment do partido.

No caso dos democratas, os resultados em Iowa serão examinados com lupa. O senso comum é que os apoiadores do ex-vice-presidente Joe Biden, líder nas pesquisas nacionais, não estão tão entusiasmados, e isso resultará em um resultado pífio em Iowa.

Já Bernie Sanders teria mais chances de vencer pelo perfil mais empolgado de seus apoiadores —e isso confirmaria seu status de líder na corrida nacional, ao lado do mais moderado Biden.

Por outro lado, se Biden for bem, pode consolidá-lo como o voto útil, o candidato mais bem posicionado para derrotar Trump.

Já uma vitória da senadora progressista Elizabeth Warren ou de Pete Buttigieg (centrista) pode embaralhar completamente a disputa democrata.​

Seja qual for o resultado, ele não necessariamente é um bom prognóstico de quem irá vencer a eleição presidencial em novembro.

Sem contar campanhas para reeleição, apenas três vencedores em caucus no estado —Carter, Obama e George W. Bush— acabaram levando a Casa Branca.

 
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.