Voluntário na eleição dos EUA, brasileiro representa esforço das campanhas para conquistar voto latino

Embora grupo seja só 6,2% da população, democratas apostam que região serve para testar desempenho em estados maiores

Des Moines (Iowa)

Um brasileiro de 27 anos estava entre os voluntários da campanha de Pete Buttigieg na noite desta segunda-feira (3), quando o estado de Iowa deu a largada nas primárias que vão escolher o candidato do Partido Democrata na disputa à Casa Branca.

Hudson Lourenço foi a uma escola de Marshalltown, a cerca de uma hora da capital Des Moines, para tentar convencer eleitores de que o centrista e ex-prefeito de South Bend, pequena cidade de Indiana, era a melhor opção para vencer o presidente Donald Trump.

O músico Hudson Lourenço, que é voluntário na campanha de Pete Buttigieg
O músico Hudson Lourenço, que é voluntário na campanha de Pete Buttigieg - Arquivo Pessoal

"É preciso mostrar que estrangeiros como eu apoiam Pete porque ele é a nova política que os EUA precisam. Um candidato de minoria, abertamente gay, é o maior passo que o país pode dar agora", explica Lourenço.

A atuação do brasileiro reflete a importância que democratas têm dado aos latinos, que devem chegar a 13% dos eleitores em novembro, tornando-se a minoria com mais representatividade na eleição americana.

Nascido em Campinas, no interior de São Paulo, Lourenço se mudou para os EUA em 2017 para fazer mestrado em música. Hoje trabalha tocando órgão de tubo em igrejas protestantes de Marshalltown.

A cidade foi escolhida pela campanha de Buttigieg para recrutar voluntários que pudessem acessar eleitores latinos com mais facilidade e, assim, tentar vencer as primárias no estado.

A divulgação dos resultados em Iowa estava prevista para a madrugada desta terça-feira (4) e o ex-prefeito aparecia em terceiro lugar nas pesquisas, atrás do progressista Bernie Sanders e do moderado Joe Biden, empatados na liderança dos levantamentos.

A senadora Elizabeth Warren, também progressista, aparecia em quarto lugar, à frente da moderada Amy Klobuchar, na quinta posição.

Representantes da comunidade latina se reúnem com voluntários da campanha de Bernie Sanders antes do caucus de Iowa
Representantes da comunidade latina se reúnem com voluntários da campanha de Bernie Sanders antes do caucus de Iowa - Jim Watson - 1.fev.2020/AFP

Os nomes mais bem colocados no caucus recebem delegados proporcionais aos votos que conseguiram —estão em jogo em Iowa 41 deles, que vão à convenção nacional do Partido Democrata, em julho. Na ocasião, o candidato que somar 1.991 delegados será nomeado pela legenda para disputar contra Trump.

Apesar da pouca diversidade de Iowa —85,3% de seus habitantes são brancos—, os democratas apostam que a região vai servir de modelo para o desempenho de suas campanhas em meio aos latinos nos estados maiores e mais relevantes, como Califórnia, Nevada e Texas, onde as primárias estão agendadas para as próximas semanas.

A população latina em Iowa dobrou nas duas últimas décadas e alcançou 6,2% dos 3 milhões de pessoas que vivem no estado.

Em 2016, menos de 3.000 latinos participaram das primárias, mas neste ano a expectativa era de que esse número chegasse a 20 mil, segundo a Liga de Cidadãos Latino-Americanos de Iowa.

Como são 50 mil dos 240 mil eleitores registrados para votar no estado —o voto não é obrigatório nos EUA—, os latinos não são apenas alvo das principais campanhas, mas também uma janela de oportunidade para o Partido Democrata tentar passar a imagem de que o sistema de caucuses está mais inclusivo.

O grupo mais progressista da legenda argumenta que o estado destoa de sua base eleitoral, mais urbana e formada por jovens e negros que, há quatro anos, somaram 24% dos votos nas primárias, e defende que a prerrogativa de iniciar o processo eleitoral deveria ficar com estados maiores e mais diversos.

Na tentativa de se manter relevante —vencer em Iowa tem valor estratégico e simbólico, pois, historicamente, ganhar na região cria um efeito cascata em outros estados em termos de interesse e doação de recursos para o vencedor—, a legenda adicionou 87 locais extras de votação, batizados de caucuses satélites. Seis deles seriam conduzidos em espanhol.

Integrantes da campanha de Bernie Sanders estavam de olho justamente nesses recintos. 

Dizem que o senador percebeu tardiamente a importância dos latinos em 2016 e que agora tenta não repetir o erro para ser nomeado o candidato do partido contra Trump.

Nos últimos meses, Sanders contratou assessores fluentes em espanhol para abordar os eleitores latinos, inclusive pronunciando corretamente seus nomes e sobrenomes.

A proximidade da campanha e do candidato com o eleitor é uma das estratégias da ala mais progressista dos democratas, à qual o senador é ligado, e a forma mais comum de pedir votos em Iowa.

Seus auxiliares afirmam que a ordem no estado era visitar o máximo de pessoas das comunidades —não só líderes regionais— e falar com latinos de assuntos que vão além da imigração.

A expressão desse nicho do eleitorado motivou de perfis moderados aos identificados com a esquerda do partido, que brigam para tentar mostrar que lado —e discurso— é capaz de vencer Trump.

O republicano também foca eleitores latinos, porém, do outro lado do espectro político. Com retórica contra os governos de Cuba e da Venezuela, o presidente quer atrair principalmente os latinos conservadores da Flórida.

A progressista Elizabeth Warren, por sua vez, abriu comitê na capital de Iowa com voluntários dedicados a convencer latinos de que ela é a melhor opção para ganhar do presidente.

Já Biden, ex-vice-presidente durante os governos de Barack Obama, tem um comitê em Storm Lake, cidade do estado com 38% de habitantes latinos.

O município também atraiu Buttigieg que, além da forte atuação na cidade onde vive o músico brasileiro, montou estruturas em outros três municípios onde os latinos têm grande presença.

Mesmo sem a cidadania americana exigida para votar, Lourenço pode ir aos locais de votação e participar das assembleias de eleitores conhecidas como caucuses, no papel de debatedor.

Ele se diz convincente, já que fez o namorado americano, que votou em Trump em 2016, mudar de posição e optar por um democrata na disputa deste ano.

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