'Trump não vai mudar', diz democrata a senadores em fase final do impeachment

Adam Schiff, líder da acusação, apelou aos republicanos, que têm maioria para absolver presidente

Washington | Reuters

Mesmo com a absolvição de Donald Trump aparentemente garantida, os deputados democratas que atuam como acusadores no impeachment do presidente encerraram sua argumentação no processo nesta segunda-feira (3) com um forte ataque ao republicano, chamando-o de um homem sem discernimento entre certo e errado.

"Ele traiu a nossa segurança nacional e o fará novamente. Ele comprometeu as nossas eleições e o fará novamente. Vocês não conseguirão mudar quem ele é. Vocês não conseguirão contê-lo", disse o deputado democrata Adam Schiff (Califórnia), que lidera a equipe da acusação. 

A fase do impeachment no Senado chegou ao fim nesta segunda, um dia antes de o presidente fazer seu discurso anual do Estado da União ao Congresso e no mesmo dia em que os eleitores de Iowa votam nas prévias que levarão à escolha do candidato democrata que disputará as eleições de 3 de novembro contra Trump. 

O presidente americano, Donald Trump, participa de evento de campanha na Universidade Drake, em Des Moines, Iowa
O presidente americano, Donald Trump, participa de evento de campanha na Universidade Drake, em Des Moines, Iowa - Leah Millis - 30.jan.2020/Reuters

Os advogados do presidente republicano rebateram as acusações dos deputados e classificaram o processo de imprudente, politicamente motivado e sem fundamentos. 

"Este foi o primeiro impeachment presidencial totalmente partidário da história da nossa nação. E deve ser o nosso último", disse Jay Sekulow, advogado pessoal de Trump, aos cem senadores que votarão as denúncias contra o presidente.

São necessários 67 votos para condená-lo —nenhum dos 53 senadores republicanos se mostra inclinado a votar pela saída do presidente. 

Durante a primeira fase do processo, na Câmara dos Deputados, o cenário foi inverso: a maioria democrata (232 contra 197 republicanos) facilmente aprovou duas denúncias contra o presidente (chamadas de "artigos de impeachment"). 

No fim de dezembro, a Casa acusou Trump de abuso de poder por pedir à Ucrânia que investigasse o rival político Joe Biden e de obstrução dos poderes de investigação do Congresso por barrar o depoimento de testemunhas convocadas pelos deputados e o compartilhamento de documentos.

Biden é um dos principais candidatos à nomeação democrata para desafiar o presidente republicano.

Durante o julgamento, os advogados de Trump defenderam uma visão abrangente dos poderes presidenciais e argumentaram que ele não poderia ser afastado por abuso de poder.

Em resposta, Schiff disse ao Senado que, se um presidente não puder ser impugnado por abuso de poder, haveria uma aprovação tácita a uma série de "condutas totalmente inaceitáveis".

"Trump poderia oferecer o Alasca aos russos em troca de apoio nas próximas eleições, ou decidir se mudar para Mar-a-Lago (seu resort na Flórida) permanentemente e deixar o (genro) Jared Kushner dirigir o país, delegando a ele a decisão de entrar em guerra ", afirmou Schiff. 

O deputado disse ainda que Trump, se mantido no cargo, continuará a buscar a interferência de estrangeiros nas eleições de novembro, nas quais concorre à reeleição.

"Quais são as chances de ele continuar tentando trapacear no cargo? Vou lhe dizer: 100%. [...] Um presidente livre de responsabilidade é um perigo para o coração pulsante de nossa democracia", disse o democrata.

O Senado votou na sexta-feira (31) contra a convocação de novas testemunhas, como o ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton —num manuscrito, o militar escreve que Trump ordenou a suspensão do envio de um pacote de ajuda militar à Ucrânia como forma de pressionar o país a investigar seu adversário político. 

Apenas dois republicanos, os moderados Mitt Romney (Utah) e Susan Collins (Maine), votaram —junto com os democratas— pela oitiva de novas testemunhas. 

Com o fim da fase dos argumentos da defesa e da acusação, os senadores agora poderão fazer discursos até quarta-feira (5), quando uma votação final decidirá o futuro de Trump.


PRESIDENTES DOS EUA QUE SOFRERAM PROCESSO DE IMPEACHMENT

Andrew Johnson, 1868 
Sucessor de Abraham Lincoln, divergiu do Congresso sobre como lidar com os ex-escravos após a Guerra de Secessão; a Câmara votou a favor, mas o Senado vetou a cassação de seu mandato 

Richard Nixon, 1973-1974
Em processo detonado pelo caso Watergate, foi acusado de abuso de poder e obstrução de Justiça; renunciou para evitar ser cassado, tornando-se o primeiro presidente dos EUA a se demitir

Bill Clinton, 1998-1999 
Com acusação de perjúrio e obstrução de Justiça, o inquérito começou com o caso da estagiária com quem Clinton teria tido relações sexuais; a Câmara votou por abrir o processo, mas o Senado barrou

Donald Trump, 2019  
É acusado de ter abusado do cargo ao pressionar a Ucrânia a investigar Joe Biden, seu possível adversário na eleição deste ano, além de ter obstruído a investigação do episódio no Congresso

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