Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Afastado do perfil democrata, Iowa luta para manter influência nas primárias

Disputa para ser o candidato do partido na eleição começa nesta segunda (3) sem um líder claro

Des Moines (Iowa)

Localizado no Meio-Oeste dos EUA, região fundamental para a escolha do próximo presidente americano, o estado de Iowa inaugura as primárias democratas nesta segunda (3) determinado a manter sua influência histórica na nomeação do candidato do partido à Casa Branca.

Há pelo menos duas décadas, quem vence em Iowa também ganha fôlego e credibilidade para se tornar a opção da legenda na corrida presidencial. Foi assim com Barack Obama, em 2008, e com Hillary Clinton, em 2016.

Desta vez, com o cenário congestionado por pelo menos quatro pré-candidatos com chances na disputa interna, democratas avaliam que pode ser preciso sinalizar outra vez ao perfil mais competitivo —e não necessariamente ao de preferência do eleitorado da região— para rebater as críticas de que Iowa é pouco representativo e não deveria sediar o início das primárias.

"Muitos democratas levam isso em conta na hora do voto e há quem escolha o candidato que parece ser mais forte para assim tentar manter o estado relevante", afirma a assistente administrativa Mimi Habhab.

Ela era uma das 30 pessoas que, neste sábado (1º), enchiam um dos salões de uma pizzaria na capital, Des Moines, para ouvir as propostas das principais campanhas de oposição a Donald Trump.

Moradores acompanham discurso do pré-candidato democrata Bernie Sanders na cidade de Cedar Rapids, em Iowa - Mike Segar/Reuters

Os dois favoritos, o ex-vice-presidente Joe Biden, que representa os democratas mais moderados, e o senador Bernie Sanders, ligado à esquerda do partido, apresentam-se como os únicos capazes de derrotar o republicano.

O presidente, por sua vez, vence todos os postulantes democratas nas pesquisas em Iowa. Forte na produção de milho, o estado deu a vitória a ele contra Hillary Clinton em 2016, com 51% dos votos.

Nos levantamentos nacionais, Trump aparece à frente ou empatado com a maior parte de seus possíveis concorrentes, embalado pelos bons resultados da economia e imune ao processo de impeachment que entrou na fase final —ele deve ser absolvido pela maioria republicana no Senado nesta quarta (5).

A senadora progressista Elizabeth Warren e o centrista e ex-prefeito de uma pequena cidade de Indiana Pete Buttigieg completam o tabuleiro dos nomes mais competitivos na disputa democrata.

Aos 53 anos, Habhab ouviu representantes de todos no sábado mas ainda se dizia indecisa a dois dias da votação. Sua única certeza é que Iowa deve continuar abrindo a disputa à Presidência dos EUA.

"Muita gente fala da pouca diversidade do estado, mas temos núcleos de minorias organizadas, de negros e latinos, que dão atenção aos assuntos desses grupos que dizem não ser representados por aqui."

Com três milhões de habitantes —85,3% deles brancos— Iowa responde por menos de 1% da população americana, tem sua economia baseada em atividades rurais e quase 20% das pessoas com 65 anos ou mais.

A ala mais progressista dos democratas argumenta que o estado destoa de sua base eleitoral, mais urbana e formada por jovens e negros que, há quatro anos, somaram 24% dos votos nas primárias. Eles defendem que a prerrogativa de iniciar o processo eleitoral deveria ficar com estados maiores e mais diversos, como a Califórnia.

A servidora pública Allison Ritchie reconhece a polêmica, mas diz que eleitores mais politizados não escolhem o candidato popular e sim o que tem melhores ideias para o país. "Eu participo do caucus em Iowa há 16 anos e nunca voto em alguém só porque ele tem chances de ganhar. Eu discuto política e não popularidade."

Apesar das contradições, os 11 nomes que disputam a indicação democrata deste ano sabem que vencer a primeira batalha tem valor estratégico e simbólico. A vitória em Iowa historicamente desperta interesse sobre o ganhador e aumenta a arrecadação de recursos e a mobilização de voluntários.

O desfecho desta segunda ainda é incerto, mas os quatro favoritos têm concentrado esforços para fazer do estado o impulso para um efeito cascata nas próximas primárias, em New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul.

O foco é ganhar tração em outras regiões, principalmente entre eleitores negros e latinos, considerados chave na seara de oposição a Trump.

Para Sanders, vencer em Iowa pode ajudar a acabar com o ceticismo que ainda existe em torno de sua candidatura.

Críticos afirmam que a saúde do senador por Vermont não está perfeita —aos 78 anos, ele sofreu um ataque cardíaco em outubro— e que seu discurso é muito radical para convencer eleitores moderados.

Já Biden conta com grande apoio da população negra e avalia que a vitória no estado pode consolidá-lo de vez como o candidato do partido. Com pouco apelo entre negros e latinos, Buttigieg e Warren querem mostrar que ainda são competitivos.

Correndo por fora, a também moderada Amy Klobuchar ganhou alguma notabilidade nas últimas semanas no estado, mas ainda é dúvida se vai conseguir marcar 15%.

Esse é o número que cada candidato tem que alcançar para ser considerado viável na votação do caucus, processo complicado de entender —e explicar— até para os americanos. Ao invés de registrarem sua preferência na urna, os eleitores democratas participam de uma espécie de assembleia, na qual a votação é feita por aglomeração e muito debate.

Para o processo de Iowa, serão 1.678 locais de votação, que podem ser hospedados em cafeterias, ginásios de escola e restaurantes. 

Entre os analistas, a avaliação é de que a campanha de Sanders, mais engajada, tem maior probabilidade de fazer uma boa performance. Ele divide com Biden a liderança da média das pesquisas no estado.

O resultado será enviado ao comando democrata, que calcula quantos delegados cada candidato recebeu no caucus. Estão em jogo 41 deles, que vão para a convenção nacional da legenda, em julho. Na ocasião, quem tiver 1.991 delegados será nomeado pelo partido para disputar com Trump.

O sistema de caucus existe desde 1972, mas tem sido alvo de críticas. Elas aumentaram no fim de 2019 após o então pré-candidato democrata Julián Castro afirmar que era preciso trocar a ordem dos estados nas primárias.

Os democratas em Iowa querem manter o posto inaugural na eleição. Diante das críticas da campanha de Sanders em 2016, que perdeu a nomeação —e também as primárias no estado— para Hillary Clinton, fizeram mudanças no processo de contagem de votos e também instituíram locais extras de votação para facilitar o acesso dos eleitores.

Apesar de pouco representativos, os democratas de Iowa querem mostrar que ainda são capazes de funcionar como barômetro para a eleição mais importante dos Estados Unidos.


Como funciona o caucus em Iowa

No primeiro round da votação, os eleitores se separam em grupos, mostrando qual candidato vão apoiar. Os nomes que atingirem 15% são considerados viáveis e seguem na disputa. 

As pessoas que votaram em quem não alcançou o piso podem ir embora ou se juntar aos apoiadores de outro candidato, numa segunda fase chamada de realinhamento.

Os candidatos que receberem mais de 15% dos votos ganham um número de delegados proporcional a seu desempenho, que será informado pelo Partido Democrata no final da votação.

Esses delegados (Iowa tem 41) vão à convenção nacional democrata, em julho, para escolher o nomeado pela legenda. Eles precisam votar nos candidatos que foram designados para eles nos estados.

O candidato que conseguir 1.991 dos 3.979 delegados escolhidos nos caucus e primárias nos estados até lá vai enfrentar Donald Trump. Se nenhum obtiver maioria no primeiro turno, são acionados 770 "superdelegados", líderes do partido que podem votar em qualquer um dos nomes.

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