Plano de paz de Trump transforma territórios palestinos em 'queijo suíço', diz Abbas

Em reunião da ONU, líder palestino descarta projeto apresentado pelos EUA

Nova York | Reuters e AFP

O plano de paz elaborado pelo governo americano para o Oriente Médio transformaria um futuro Estado palestino em um "queijo suíço", afirmou nesta terça-feira (11) o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.

A declaração foi feita durante reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, que debatia a proposta apresentada no último dia 28 pelo presidente Donald Trump ao lado do premiê israelense, Binyamin Netanyahu. 

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, segura cartaz com o mapa do que seria o Estado Palestino segundo o plano de paz proposto pelos EUA
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, segura cartaz com o mapa do que seria o Estado Palestino segundo o plano de paz proposto pelos EUA - Spencer Platt/Getty Images/AFP

Em seu discurso, o líder palestino descartou completamente o projeto por, entre outras razões, reconhecer a soberania israelense sobre seus assentamentos na Cisjordânia e no vale do rio Jordão. 

"Este é o Estado que eles querem nos dar", disse Abbas, segurando um cartaz que mostrava como ficaria o Estado palestino caso o plano fosse implementado. "Sério, é como um queijo suíço. Quem aceitaria um acordo nessas condições?"

O plano americano frustra uma das demandas palestinas ao prever um território descontinuado.

A área prevista é recortada por enclaves de assentamentos israelenses e não tem acesso direto à fronteira com a Jordânia —o território palestino seria ele mesmo um enclave dentro de Israel, que controlaria o vale do rio Jordão. 

"Se a paz for imposta, ela não vai durar, não tem como durar", acrescentou ele, que também reclamou de os palestinos não terem sido ouvidos na elaboração do plano —Trump diz ter convidado os líderes palestinos, mas os convites teriam sido recusados. 

Abbas afirmou ainda que a proposta "suprime todos os direitos dos palestinos e não reúne as aspirações de uma solução de dois Estados". 

O projeto americano estabelece uma série de condições para os palestinos conseguirem seu próprio Estado. 

O plano prevê, por exemplo, que em troca do Estado palestino haja o reconhecimento da soberania de Israel sobre seus assentamentos na Cisjordânia, considerados ilegais tanto por palestinos quanto por grande parte da comunidade internacional.

Resoluções da ONU têm reiteradamente decidido pela ilegalidade dessa política israelense com base na Quarta Convenção de Genebra, que proíbe “a deportação ou a transferência de partes da população civil” de um país para um território ocupado por ele. 

A medida equivale em termos práticos à anexação dessas áreas, que pertenciam à Jordânia até serem conquistadas por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967). 

Um ponto polêmico sempre presente em negociações entre palestinos e israelenses é o retorno às fronteiras pré-Guerra dos Seis Dias, na qual Israel triplicou seu território, conquistando Jerusalém Oriental, Cisjordânia, Faixa de Gaza e a península do Sinai —uma parte dessas conquistas foi devolvida nos anos seguintes. 

O documento divulgado pela Casa Branca afirma categoricamente que "EUA e Israel não acreditam que Israel é juridicamente obrigado a conceder aos palestinos 100% do território pré-1967".

Segundo a proposta de Trump, os palestinos também teriam de aceitar que seu Estado fosse desmilitarizado e reconhecer Jerusalém como a capital indivisível de Israel. 

O status do local é historicamente um dos grandes pontos de discórdia entre os dois lados, já que os palestinos reivindicam que sua capital seja na parte oriental da cidade —pelo plano de Trump, ela ficaria em Abu Dis, um subúrbio de Jerusalém. 

Por isso, Abbas afirmou que os Estados Unidos não têm mais condições de servir como mediador único das negociações entre israelenses e palestinos. Ele pediu uma conferência internacional para debater o assunto, mas sem especificar quem deveria participar.

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