Em dois meses de gestão, presidente argentino tem apoio popular e dívida como desafio

Fernández tem aprovação popular e boa imagem externa, mas já vê cobranças

Buenos Aires

Nesta segunda-feira (10), o presidente argentino, Alberto Fernández, 60, chega ao segundo mês de governo com avanços na política exterior, na contenção das manifestações sociais e com boa aprovação popular (59%), segundo o instituto Opinaia. É a mesma cifra obtida por seu antecessor, Mauricio Macri, no mesmo período de sua gestão.

O índice de popularidade é importante porque, nos primeiros dois meses, Macri não lançou um pacote de aumento de impostos, como fez Fernández. Agora, os argentinos pagam 30% a mais para compras no exterior ou com cartão de crédito (se o gasto for por meio de sites estrangeiros) e na compra de dólares, restrita a US$ 200 ao mês. Além disso, há novos tributos para exportadores e transferências de propriedades. 

As dificuldades de Fernández, porém, vêm ganhando mais espaço nos noticiários, à medida que a euforia da vitória e a tradicional trégua dada pelos meios de comunicação ao primeiro mês de todos os governos vêm deixando de existir.

Entre os desafios está a atração de investidores, o retorno de vários tipos de câmbio (há mais de 10 valores atualmente) e as dívidas externa e interna.

Presidente argentino, Alberto Fernández, reúne-se com o presidente francês, Emmanuel Macron, em Paris, dia 5 de fevereiro.
Presidente argentino, Alberto Fernández, reúne-se com o presidente francês, Emmanuel Macron, em Paris, dia 5 de fevereiro. - Stephane de Sakutin/AFP

Isso sem contar a inflação e o índice de pobreza, que em janeiro ficaram em 3% e 36%, respectivamente.

No caso das dívidas, o ministro da Economia, Martín Guzmán, iniciou na semana passada a negociação com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e com seus credores internos. Continuará nesta semana, com a chegada de um comitê do fundo ao país para tratar de temas técnicos.

Hoje, a dívida total argentina corresponde a 96% de seu PIB (Produto Interno Bruto), e Fernández tem repetido que os adiamentos dos prazos de vencimento são prioritários, pois o país precisa de "tempo para crescer primeiro e pagar a dívida depois".

Do lado dos avanços da gestão Fernández, o principal é a relativa calma social que vive o país, sem protestos de ruas, piquetes ou greves.

"É como se, num jogo de futebol muito tenso em que nós estivéssemos perdendo, tivéssemos conseguido colocar a bola no chão e ter calma para poder enfrentar as próximas jogadas", disse o economista Martín Tetaz.

O peso deixou de se desvalorizar, e as medidas do governo para aplacar o impacto da alta inflação --que fechou 2019 com alta de 55%-- estão tendo resultado para conter a insatisfação popular.

O governo lançou planos de ajuda aos mais pobres, incluindo um "carnê de alimentação", que pode ser trocado por alimentos da cesta básica, e aumentou o número de produtos que entraram para o plano "Preços Cuidados", que vigia e impede aumentos abusivos de mais de 100 itens.

Além disso, foram congelados os preços de serviços de eletricidade, gás e transporte.

Os problemas de fundo continuam existindo. Por isso, esta semana será muito importante para o governo. Além de receber o FMI, Guzmán vai ao Congresso detalhar o que está sendo negociado.

O novo ano legislativo começa em março, e o governo pretende anunciar como será a reforma da Justiça e o cronograma para votação de um novo projeto de lei para legalizar o aborto até a 14ª semana, uma promessa de campanha de Fernández.

Outro dos grandes desafios a partir deste terceiro mês é relançar a relação com o Brasil, abalada com os comentários e insultos entre Fernández e Jair Bolsonaro, desde a época da campanha eleitoral e da vitória do kirchnerista. O presidente brasileiro não compareceu à posse do colega, o que causou incômodo.
Agora, a palavra com a qual os dois lados concordaram para definir como será a relação adiante é pragmatismo.

"Já estamos avançando neste aspecto, há ministros dos dois lados se comunicando e tenho feito um trabalho de explicar aos distintos setores da sociedade brasileira que a Argentina vai resolver sua crise da dívida e que voltará a crescer", disse à Folha o embaixador argentino em Brasília, Daniel Scioli. 

"O presidente Fernández disse que precisa de tempo para que retomemos o crescimento, mas a relação com o Brasil não pode parar, o comércio bilateral é prioridade, assim como o turismo, e ambos precisam crescer mais", afirmou Scioli, que na semana passada esteve em São Paulo e se encontrou com empresários, investidores e com Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). 

Na próxima quarta (12), o chanceler da Argentina, Felipe Solá, viajará a Brasília para se reunir com seu homólogo Ernesto Araújo.

A expectativa da Argentina é que, daí, saia uma data para um primeiro encontro entre os dois mandatários.

Sob Fernández, as relações exteriores têm sido conduzidas de modo diferente do período de Néstor e Cristina Kirchner (hoje vice-presidente), no qual praticamente não se deu importância para as relações com EUA e Europa.

O presidente acaba de retornar de uma viagem avaliada como positiva por analistas locais por Israel, Itália, Espanha, Alemanha e França.

De Angela Merkel, Emmanuel Macron e do papa Francisco, recebeu apoio para a renegociação com o FMI. E de muitos empresários desses países, promessas de investimentos na Argentina.

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