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The New York Times

Quem venceu as primárias democratas em New Hampshire? Não foi o establishment

Sanders lidera segunda primária democrata, seguido por Buttigieg

Manchester (New Hampshire) | The New York Times

A revolução não chegou. Bernie Sanders parece ser o primeiro colocado, mesmo assim.

Somados, os pré-candidatos mais moderados superaram de longe os votos recebidos pelo senador liberal de Vermont em New Hampshire na noite de terça-feira (11).

Pete Buttigieg, ex-prefeito de uma pequena cidade de Indiana, novamente quase empatou com o senador.

As previsões de Sanders sobre um comparecimento enorme de eleitores progressistas às urnas não se confirmaram, mais uma vez.

O pré-candidato democrata Joe Biden em comício em Columbia, no estado de New Hampshire
O pré-candidato democrata Joe Biden em comício em Columbia, no estado de New Hampshire - Randall Hill - 11.fev.20/Reuters

Mas os dois pré-candidatos que eram favoritos e pareciam concentrar o interesse do establishment liberal e do establishment moderado –a senadora Elizabeth Warren e o ex-vice-presidente Joe Biden— perderam feio.

Dois outros candidatos que declaradamente buscam unir os eleitores, Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar, tiveram bons resultados em New Hampshire, embora até agora não tenham demonstrado grande capacidade de atrair votos de eleitores não brancos.

E, na ausência de um consenso quanto à melhor maneira de barrar seu avanço, o domínio inicial de Sanders sobre o campo dividido das primárias deixou clara uma verdade que angustia democratas: que o homem que por muito tempo resistiu ao rótulo do partido pode acabar virando seu representante.

Há meses Biden vem falando de sua capacidade ímpar de ganhar. Mas sua debacle em New Hampshire, na esteira de outra, em Iowa, o levou a viajar às pressas para a Carolina do Sul ainda na noite de terça-feira.

Ele programou um evento em um estado onde espera que o apoio entre os eleitores negros possa salvar sua pré-candidatura.

“Ainda estamos moderadamente esperançosos aqui em New Hampshire”, disse Biden na terça-feira, antes de embarcar para a Carolina do Sul.

Buttigieg, que espera conseguir suplantar seus rivais como a escolha mais viável da centro-esquerda, em muitos momentos recorre tanto ao tom quanto à substância para apresentar-se como candidato amplamente palatável para eleitores menos ideológicos.

Alguns críticos o descrevem como "música de elevador" democrata. Depois de alguns dias finais combativos em New Hampshire, onde ele e Bernie Sanders trocaram insultos sobre elegibilidade e práticas para levantar fundos, Buttigieg parece ter lançado uma farpa suave sobre a idade de Sanders (apresentada sob a forma de elogio).

“Eu admirava o senador Sanders quando era estudante do ensino médio”, disse Buttigieg, em discurso na noite de terça.

Os desafios que Sanders enfrenta são muitos. Ele é um socialista democrata que sobreviveu a um ataque cardíaco há pouco tempo. Ainda é visto com ceticismo por boa parte do eleitorado democrata.

No segundo estado consecutivo, recebeu uma parcela dos votos bastante inferior à que teve na primária de 2016 disputada com Hillary Clinton, embora o número de candidatos fosse muito menor naquele ano.

Mas o establishment sobre o qual Sanders lança avisos diários não é tanto um monolito quanto um conjunto de lideranças e estrategistas ansiosos, com desejos que não são necessariamente decisivos em um momento tão caótico quanto este.

E, embora ainda haja salas fechadas em que eminências do partido se reúnem para discutir as chances de Sanders contra Donald Trump, a história recente sugere que uma coalizão tão desengonçada quando esta –formada por progressistas intransigentes, moderados insatisfeitos e eleitores tanto de Obama quanto de Trump— não pode ser direcionada facilmente.

Horas antes do fechamento das urnas na terça-feira, a equipe de Elizabeth Warren enviou a jornalistas um memorando do diretor de sua campanha, Roger Lau, dizendo que Warren é a candidata que possui “o maior teto potencial de apoio”.

Michael Bloomberg, o bilionário ex-prefeito de Nova York, apostou sua candidatura na ideia de não se preocupar com os quatro primeiros estados, torcendo para um fevereiro marcado por desavenças entre seus pares.

Seus gastos milionários com a campanha podem desequilibrar a disputa ainda mais nas próximas semanas, enquanto candidatos como Klobuchar podem ter dificuldade em manter uma presença no mapa nacional.

E há Joe Biden.

Mesmo quando Sanders não ataca Biden diretamente, as críticas dele ao establishment parecem ter sido articuladas para prejudicar o pré-candidato antes favorito.

Biden se orgulha de ser alguém que tece acordos —ele alardeia sua capacidade de fazê-lo desde que foi eleito para o Senado, aos 29 anos.

Mas os eleitores vêm rejeitando até agora a ênfase dada por Biden à importância de sua experiência em Washington, e aqueles que acreditam de fato em sua mensagem de bipartidarismo estão se aproximando de candidatos mais jovens.

A campanha de Biden já estava em turbulência nos últimos dias, na esteira de mudanças importantes em sua liderança e dos apelos de alguns apoiadores para que ela adotasse mudanças amplas em suas estratégias de mídia e de viagens: façam Biden ser mais aberto aos jornalistas, eles sugeriram.

Aumentem o contato personalizado de Biden com os eleitores individuais, o grande ponto forte do candidato.

Talvez até mesmo afiem a mensagem. (Depois de passar um dia fazendo críticas a Buttigieg no sábado, incluindo com um anúncio digital que menosprezou a experiência do ex-candidato de uma cidade pequena, no domingo Biden havia voltado a lançar farpas apenas indiretas.)

A preocupação mais urgente de Biden agora talvez seja financeira: enquanto sua campanha procurou definir expectativas baixas para Biden em New Hampshire, alguns doadores, alarmados com os resultados no Iowa, expressaram reservadamente seus receios em relação a outro resultado fraco –e deram sinais de interesse em Michael Bloomberg.

Não são apenas os aliados de Biden que estão em pânico político no momento. Para muitos democratas, as semanas recentes trouxeram muitas recordações de uma primária que poderia ter sido, mas não foi.

Depois de uma vitória nas eleições parlamentares de 2018 que se deveu em grande medida ao sucesso de candidatos não brancos e mulheres, desta vez a disputa vem sendo dominada frequentemente por homens brancos, incluindo alguns na casa dos 70 anos.

Os tropeços de Elizabeth Warren, especialmente, líder das pesquisas durante boa parte de 2019, estão sendo uma decepção que pegou muitos dos partidários dela de surpresa.

Em seus últimos dias em New Hampshire, ela mencionou várias vezes o terceiro aniversário da ocasião em que o senador Mitch McConnell, do Kentucky, líder da maioria republicana no Senado, inadvertidamente cunhou no Capitólio a frase “mesmo assim, ela persistiu” –um slogan hoje impresso em camisetas, bordado em fronhas e exposto em tatuagens, como Warren lembra aos eleitores.

“A vida dela é sua mensagem”, disse Allison Cutler, 63, que viajou de Vermont para ajudar como voluntária na campanha de Warren. “E a mensagem dela é sua vida.”

Tradução de Clara Allain

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