Presidente afegão rejeita demanda do Taleban em acordo de paz assinado com EUA

Governo não se compromete a libertar 5.000 prisioneiros do grupo

Cabul | Reuters

O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, rejeitou uma demanda do Taleban pela libertação de milhares de prisioneiros como condição do grupo para negociar com o governo.

A cláusula está incluída em um acordo de paz entre os Estados Unidos e os militantes islâmicos anunciado neste sábado (29).

"O governo do Afeganistão não se comprometeu a libertar 5.000 prisioneiros do Taleban", disse Ghani a repórteres em Cabul neste domingo (1º), um dia após a assinatura do acordo no Qatar que pode abrir caminho para encerrar a guerra mais longa da história dos EUA, de quase 20 anos.

Segundo diplomatas ocidentais, os negociadores norte-americanos enfrentam dificuldades em fazer o governo afegão e o Taleban conversarem.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, durante entrevista coletiva em Cabul, neste domingo (1º) - Xinua/Rahmatullah Alizadah

Pelo acordo, os EUA e o Taleban estão empenhados em trabalhar para libertar prisioneiros de combate e políticos como medida de fortalecimento da confiança entre os lados.

A informação inicial era de que os governos americano e afegão ​tinham prometido soltar 5.000 prisioneiros ligados ao Taleban e, em troca, o grupo liberaria 1.000 presos. 

O presidente afegão reagiu e disse que "não é da competência dos EUA decidir [sobre a questão]". "Eles são apenas um facilitador."

Também no domingo, Ghani disse à rede CNN que o presidente dos EUA, Donald Trump, não havia pedido a libertação dos prisioneiros e que esta questão deveria ser discutida como parte de um acordo de paz abrangente.

"O consenso político que seria necessário para um passo tão importante não existe hoje", completou.

Segundo ele, outros importantes temas precisam ser discutidos primeiro, incluindo os laços do Taleban com o Paquistão, com grupos terroristas e com cartéis de drogas, além do papel das forças de segurança afegãs.

"O povo do Afeganistão precisa acreditar que passamos da guerra para a paz, e não que o acordo seja um cavalo de Tróia ou o começo de uma fase muito pior de conflito", acrescentou o líder do país.

Para Ghani, são necessários mecanismos verificáveis ​​para garantir que os compromissos assumidos realmente sejam cumpridos.

O acordo de sábado foi assinado pelo enviado especial dos EUA Zalmay Khalilzad e pelo chefe político do Taleban, o mulá Abdul Ghani Baradar, tendo como testemunha o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo.

Após a cerimônia, Baradar se reuniu com ministros das Relações Exteriores da Noruega, Turquia e Uzbequistão em Doha, junto com diplomatas da Rússia, Indonésia e países vizinhos, informou o Taleban, uma sinalização de que o grupo está determinado a garantir a legitimidade internacional do pacto.

Trump rejeitou as críticas em torno do acordo e disse que se encontraria com líderes do Taleban em um futuro próximo. Pompeo afirmou em entrevista para a rede CBS que as negociações entre a administração afegã e o Taleban começariam nos próximos dias.

Os assessores de Ghani disseram que a decisão de Trump de encontrar o Taleban pode representar um desafio ao governo do Afeganistão, em um momento no qual a retirada de tropas dos EUA é iminente.

Neste domingo, o Irã descartou o acordo como um pretexto para legitimar a presença de tropas americanas no país.

"Os Estados Unidos não têm legitimidade para assinar um acordo de paz ou determinar o futuro do Afeganistão", disse o ministério das Relações Exteriores do país em comunicado divulgado pela mídia estatal.

Pelo acerto, o Taleban se compromete a parar de fazer ataques, a não apoiar grupos terroristas e a negociar com o governo afegão. Em troca, todas as tropas dos EUA e da coalizão da Otan deixarão o país até abril de 2021, e o Taleban ficará livre de sanções, caso os termos acordados sejam cumpridos. 

A retirada de tropas será feita de forma gradual ao longo de meses, e o número de militares estrangeiros no Afeganistão será reduzido de cerca de 14 mil para 8.600 até julho. No entanto, caso haja o retorno da violência no pais, o processo poderá ser revertido.

A história das negociações entre os EUA e o Taleban no Afeganistão

  • Fim dos anos 1990: governo Clinton estabelece contatos secretos com o Taleban, mas isso não impede os ataques de 11 de setembro de 2001, quando a Al Qaeda derruba as torres gêmeas em NY; em resposta, os EUA enviam tropas ao Afeganistão, acusado de abrigar membros da organização
  • 2001: membros do Taleban começam uma guerrilha contra as tropas americanas a partir do Paquistão, avançando progressivamente em território afegão
  • 2004: primeiras tentativas de diálogo para encerrar a guerra fracassam
  • 2011: novas tentativas de conversa também não obtêm sucesso
  • 2013: o Taleban abre um escritório político no Qatar para negociar com os EUA, mas negociações são novamente interrompidas
  • 2015: o presidente afegão propõe negociações de paz com o Taleban e o reconhecimento de seu movimento como partido político, mas membros do grupo ignoram a proposta
  • 2018: presidente afegão faz a oferta novamente e anuncia um cessar-fogo unilateral, fazendo com que o Taleban anuncie três dias de paz —a luta é interrompida pela primeira vez desde 2001; em seguida, os EUA reconhecem que o conflito não tem "solução militar" e inicia negociações diretas com o Taleban em Doha
  • 2019: no início de setembro, ambas as partes estão prestes a chegar a um acordo, mas Trump anuncia que os diálogos serão interrompidos após a morte de um soldado americano em um ataque do Taleban a Cabul; novas negociações se iniciam em novembro
  • 2020: em janeiro, os EUA exigem que o Taleban se comprometa a reduzir a violência, e os insurgentes aceitam a condição; um mês mais tarde e após 19 anos de presença militar no país, Washington assina acordo de retirada do Exército americano da região
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