Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Socialista, Sanders provoca choque de gerações em latinos no Texas

Apoiado por jovens, candidato democrata enfrenta resistência entre hispânicos mais velhos

Austin (Texas)

Jesus Salcido, 24, ainda não era um voluntário na campanha de Bernie Sanders, 78, quando fracassou numa tentativa de convencer um conhecido de que o senador seria a melhor opção para governar os EUA.

Em dezembro, o pedagogo mexicano afirmou ser fã do candidato em uma conversa com seu oftalmologista durante uma consulta.

"Ele não concordou, e parecia que nada o faria mudar de ideia. Disse que nunca votaria em alguém que se definisse como um socialista", diz Salcido.

O senador Bernie Sanders discursa durante comício em Austin, no Texas
O senador Bernie Sanders discursa durante comício em Austin, no Texas - Mike Segar - 23.fev.20/Reuters

Cubano, o médico contou ter deixado o país como refugiado durante os anos 1990. O insucesso na tentativa no consultório levou o jovem imigrante mexicano em Austin a virar voluntário na campanha do candidato à indicação democrata para o pleito presidencial, em novembro.

Nesta terça (3), os eleitores do partido no Texas, em outros 13 estados e em um território definirão suas primárias.

"Queria ter mais argumentos para defender as propostas em que acredito. A palavra socialismo é muito forte e será usada pelos rivais", diz. "Ele [Sanders] acredita na democracia e é quem tem a melhor plataforma para os imigrantes como eu."

É nessa fatia que os apoiadores de Sanders têm buscado votos. Segundo o Pew Research Center, 5,6 milhões de latinos (30% dos eleitores no Texas) estão aptos a votar no estado —o segundo com maior eleitorado de hispânicos dos EUA, atrás da Califórnia, com 7,9 milhões. 

Há 17 anos nos EUA, Salcido conseguiu seu green card (visto que garante residência no país) em 2019. Se engajou em uma campanha na qual não tem direito a voto. Na sua família, apenas o avô de 65 anos pode participar. "O convenci a votar em Bernie", diz o neto.

"Os imigrantes estão sofrendo com a política do atual governo e sabem que precisamos de mudança", afirma Michelle Kessel, que coordena o treinamentos dos voluntários que fazem a campanha de Sanders em Austin.

Atrás dela, no comitê central do senador, na capital do Texas, uma prova material do esforço para angariar apoio de jovens latinos. Camisas e broches com a imagem do senador democrata trazem os dizeres "Tío Bernie", "Maestros con Bernie" e " Amo Bernie".

"Isso [tío Bernie] foi algo espontâneo que surgiu entre os eleitores jovens dele. É um modo carinhoso de chamar alguém mais velho", diz Kessel. "Seja 'tío', el 'viejito', 'el abuelito', não importa, o certo é que ele [Sanders] é a melhor opção para derrotar Trump."

 

Há quem discorde disso. Membros do Partido Democrata no Texas se dizem preocupados com a chance de uma vitória do candidato progressistas, que lidera a ala socialista do partido.

A maior parte dos parlamentares latinos do Partido Democrata no Texas declarou apoio aos rivais de Sanders —principalmente à senadora de Massachusetts Elizabeth Warren, ao ex-vice-presidente Joe Biden e ao bilionário Mike Bloomberg.

"Eu tenho falado com latinos mais velhos, e o que você ouve deles é que Sanders é muito radical", afirma Rafael Anchía, membro democrata do Texas House of Representatives (legislativo estadual).

O histórico mostra que o eleitorado latino do Texas é o mais propenso a votar em republicanos. Em 2019, o Centro de estudos sobre mexicanos nos EUA da Universidade de Houston analisou motivos dessa tendência. 

O estudo aponta que o partido de Trump conseguiu, no passado, alinhamento com políticas mais conservadoras (contra aborto e casamento gay) e favoráveis a redução de impostos, que agradavam imigrantes mais velhos, religiosos e que são pequenos empresários.

Mesmo entre os democratas, o sucesso de Sanders seria uma novidade. Nas primárias de 2016, ele foi derrotado por Hilary Clinton no estado. Obteve 33% dos votos de latinos, segundo pesquisa do New York Times.

"Ouço analistas afirmarem que o Texas é um estado conservador. Eu não acredito nisso!", disse Sanders em discurso no dia 23 de fevereiro, em Austin.

Para uma plateia de 12.700 pessoas —números divulgados pela organização do evento— em um parque na região central da cidade, o senador completou apostando que estado vai emergir em 2020 como um dos mais progressistas do país.

Desde 2016, os democratas viram seu apoio crescer no estado. Na última disputa presidencial, Trump teve vitória com diferença de nove pontos percentuais, o primeiro candidato do partido a não vencer por dois dígitos em 20 anos no estado.

Em 2018, os republicanos venceram os pleitos para o Governo do Estado e para o Senado, mas com a margem mais apertada da história.

Segundo estudo do cientista político Matt A. Barreto, da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), a participação de hispânicos na eleição local texana teve um salto de 80% entre 2014 e 2018.

Barreto conclui que as falas de Trump "com ataques e acusações a imigrantes e a latinos sem evidências" empurram o eleitorado, mesmo o mais conservador, para o lado dos democratas.

No folheto entregue aos voluntários, o comitê de Sanders em Austin orienta como potenciais eleitores devem ser abordados.

Em espanhol, o guia não tem a palavra "socialismo". Nele, os ativistas são orientados a contar histórias familiares e pessoais sobre sua vida como imigrante e "conectar o relato com o que está em jogo na eleição". O panfleto encerra com uma dica: "habla desde el corazón!".

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