Descrição de chapéu
Latino América 21

Uma foto ficou gravada no inconsciente dos uruguaios

Houve no país um processo de manipulação da verdade que terminou por substituir a realidade

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A foto de 1º de março do novo presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, representante da nova coalizão de governo integrada por partidos que durante 15 anos foram oposição, foi capa de uma infinidade de diários. É uma foto histórica, que marca o início de um novo ciclo político no país.

Mas não é a essa foto que me refiro, e sim a outra, que também foi capa e ficou gravada no inconsciente dos uruguaios. Uma foto na qual aparecem quase todos os líderes dessa mesma coalizão, em um chuvoso meio-dia de abril de 2016. Eles vestem capas de chuva beges, e estão reunidos na esplanada do Teatro Solís, para falar ao juizado do crime organizado e apresentar as denúncias do caso que se tornou conhecido como “Megacausa da Ancap”.

As quatro denúncias, apresentadas por diferentes partidos políticos, incluíam originalmente 11 supostos delitos ocorridos na gestão da empresa estatal de refino e distribuição de combustíveis durante a presidência de José Mujica, nos cinco anos anteriores.

Aquele era o último passo depois de meses de investigação por uma comissão parlamentar que, contando com os votos situacionistas da Frente Ampla, concluiu que não aconteceram atos ilícitos.

Um ano antes das denúncias, a Ancap, estatal de petróleo e cimento, já havia começado a ocupar espaço cada vez maior na mídia. A situação financeira da entidade, que vinha sofrendo prejuízos milionários, havia desencadeado uma crise no partido governista (Frente Ampla).

O confronto entre o então ministro da Economia, Danilo Astori, e Mujica, padrinho político de Raúl Sendic, então vice-presidente do Uruguai, havia gerado diferenças dentro da Frente Ampla.

A isso era preciso somar o fato de que Sendic, que era visto como ameaça interna nas fileiras do partido e já estava sob observação intensa, começava a acumular polêmicas. Primeiro as contradições em torno de uma suposta licenciatura, inexistente, obtida em Cuba, e mais adiante o uso de cartões de crédito do governo para gastos pessoais.

As críticas, reproduzidas pela mídia, cresceram como espuma, e as suspeitas iniciais, tanto da direita quanto da esquerda, foram se acentuando e, em certos setores, converteram-se em acusações deliberadas de corrupção, que as redes sociais se encarregaram de viralizar. A teoria do roubo de US$ 800 milhões começava a se firmar.

No começo de 2018, depois de um ano de audiências, o procurador público encarregado do caso solicitou que a juíza que o presidia submetesse sete ex-diretores da Anpac a processo por delitos de abuso de funções, e de peculato, no caso de Sendic. Eles responderiam ao processo em liberdade.

Isso foi comemorado pelos denunciantes e exposto por muitos meios de comunicação como prova uma Lava Jato uruguaia. Em maio daquele ano, no entanto, a juíza rejeitou o pedido de processo contra todos os ex-dirigentes exceto Sendic, que foi acusado, unicamente, por um delito de abuso de funções e pelo caso dos cartões de crédito.

O então vice-presidente do Uruguai, Raúl Sendic, chega a encontro da União Europeia e da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), em Bruxelas, em 2015
O então vice-presidente do Uruguai, Raúl Sendic, chega a encontro da União Europeia e da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), em Bruxelas, em 2015 - Philippe Huguen - 11.jun.2015/AFP

O fracasso do caso desmontava a obscura teoria, mas a mensagem já era verdade consumada. Sendic, pressionado em razão do processo e convertido em inimigo público número um devido às acusações e à sua colossal inabilidade política, terminou renunciando à vice-presidência, meses mais tarde.

O procurador público, desacreditado, não desistiu e apresentou um recurso ao tribunal de apelações, e, depois da confirmação da rejeição inicial, decidiu travar sua batalha final, conduzindo a “Megacausa da Ancap” ao Supremo Tribunal de Justiça.

Por fim, em 14 de fevereiro deste ano, a solicitação do procurador foi rejeitada pela terceira e última instância. Mas, em pleno Carnaval e com a aproximação da semana da posse do novo presidente, isso passou despercebido. Não se viram reportagens de capa, manchetes, declarações de políticos e muito menos perguntas da imprensa.

Como surgiu a teoria da corrupção na Ancap?

Quando o caso chegou à imprensa, certos setores oposicionistas da política e dos meios de comunicação tiraram proveito para impor uma teoria em torno da manipulação de informações, que continha três pontos.

Primeiro, para conter a inflação entre 2011 e 2015, o Ministério da Economia segurou os aumentos nos preços dos combustíveis, como solicitou a Ancap, causando um déficit de US$ 800 milhões. Em 2015, o ministro corrigiu essa defasagem e a Ancap voltou a dar lucro.

Segundo, a recapitalização da Ancap, no valor de US$ 622 milhões, foi usada para corrigir os números e saldar a dívida da empresa com a PDVSA, da Venezuela. O pagamento adiantado da dívida de US$ 1,148 bilhão significou uma economia de US$ 364 milhões.

E terceiro, durante o primeiro mandato da esquerda à frente da Ancap, havia sido definido um plano estratégico e, desde 2009, quando Sendic a presidia, foram realizadas obras em valor de US$ 1,282 bilhão.

De cada um desses pontos foi extraída uma ideia: déficit, recapitalização e obras. E com elas foi criada uma mensagem forte e clara: os uruguaios pagaram US$ 800 milhões para cobrir o que foi roubado e desperdiçado.

Essa mensagem foi um sucesso. Um microfone aberto registrou, na noite do primeiro turno da eleição de 2014, uma conversa em que Pedro Bordaberry, então líder do Partido Colorado, disse ao flamante ministro da Educação, Pablo da Silveira, do Partido Nacional: “Vim para causar estrago a Tabaré Vázquez [presidente do Uruguai entre 2015 e 2020]” .

O candidato pelo Partido Frente Ampla, Tabaré Vázquez (esq.), ao lado do seu vice, Raúl Sendic, acenam para eleitores durante a eleição presidencial de 2014 no Uruguai
O candidato pelo Partido Frente Ampla, Tabaré Vázquez (esq.), ao lado do seu vice, Raúl Sendic, acenam para eleitores durante a eleição presidencial de 2014 no Uruguai - Miguel Rojo - 30.nov.2014/AFP

E a mensagem deu frutos. A narrativa avançou a tal ponto que, cinco anos depois e a dias do segundo turno da eleição, um senador nacionalista pôde afirmar sem papas na língua que “vocês roubaram US$ 800 milhões da Ancap”; o presidente recém-eleito, de sua parte, acusou o candidato de esquerda de “preparar tudo para a festa, para que roubem o dinheiro dos uruguaios”; e um artigo jornalístico afirmou que um dos motivos da derrota da esquerda eram “os escândalos de corrupção concentrados na figura de Sendic”.

A Justiça demonstrou que não houve corrupção sistemática na Ancap. E o vice-presidente uruguaio não renunciou apenas por falsificar seu currículo, nem pelo uso indevido de cartões de crédito, nem por suas mentiras e contradições.

Sendic renunciou fundamentalmente porque já havia sido condenado pela sociedade, como os demais dirigentes envolvidos, graças a uma mensagem que políticos, jornalistas e figuras sociais importantes repetiram diariamente durante anos, nos meios de comunicação, fazendo parte, conscientemente ou não, de um processo de manipulação da verdade que terminou por substituir a realidade.

Hoje as fotos de capa refletem o azul resplandecente de antes da tormenta. Mas aquela imagem das capas de chuva beges continuará por aí, nos arquivos da memória, como uma piscadela para a Megamentira da Ancap.

Jeronimo Giorgi é uruguaio. Fez mestrado em jornalismo na Universidade de Barcelona e em estudos latino-americanos na Universidade Complutense de Madri. Recebeu o Prêmio Rey de España de jornalismo.

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Tradução de Paulo Migliacci

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