Descrição de chapéu Coronavírus

Sumiço de ditador e suspeita de maquiagem da pandemia ligam alerta na Nicarágua

Órgão de direitos humanos afirma que política atual ameaça integridade da população

Manaus

Em meio à crise mundial desatada pelo novo coronavírus, o regime minimiza o perigo da doença, mistura religião com política e incentiva a população a sair às ruas, enquanto setores do país adotam medidas de isolamento social por conta própria. Trata-se da Nicarágua, do ditador esquerdista Daniel Ortega.

Oficialmente, o país centro-americano, com 6,2 milhões de habitantes, contabilizava apenas nove casos confirmados e um morto pela Covid-19 até a manhã desta segunda (13). Além disso, o regime, que controla o único laboratório que detecta o vírus, alega que só há infectados importados.

O balanço chama a atenção na comparação com os dois países vizinhos, ambos com contaminação comunitária. Ao norte, em Honduras, há 397 casos e 25 mortos. Ao sul, a Costa Rica conta 595 infectados e 3 óbitos. Em ambos, adotaram-se medidas de isolamento social.

Homem com máscara de proteção caminha em frente a muro pintado com rosto do ditador Daniel Ortega em Manágua
Homem com máscara de proteção caminha em frente a muro pintado com rosto do ditador Daniel Ortega em Manágua - Inti Ocon - 9.abr.20/AFP

Há outros indícios de que a Nicarágua maquia os casos de coronavírus. Médicos locais e observadores internacionais relatam um aumento de mortes com diagnóstico de pneumonia e da procura por atenção hospitalar nas últimas semanas.

“O coronavírus está na Nicarágua e golpeia de forma muito dura, mas as autoridades não informam os dados reais”, diz o ex-secretário-geral do Ministério da Saúde Miguel López Baldizón, em entrevista ao meio eletrônico La Teja, da Costa Rica.

Ele afirma que houve uma explosão de registros de pneumonia em março, uma época atípica para a doença.

Um comunicado divulgado na última quarta-feira (8) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) afirma que há uma onda de demissões de profissionais da rede pública de saúde por falta de condições para enfrentar a pandemia.

No lugar deles, o governo estaria colocando estudantes universitários.

Na nota, a CIDH “faz um chamado urgente às autoridades para que, no exercício de seu dever de garantia dos direitos humanos, adote medidas eficazes de atenção e contenção", sob risco de colocar em perigo “a vida, a saúde e a integridade de todas as pessoas no país”.

O governo nicaraguense afirma que está tomando as medidas necessárias, como isolamento dos casos confirmados e quarentena para quem chega do exterior, mas manteve as escolas estatais e o comércio abertos, além de continuar promovendo atos que geram aglomeração.

O campeonato nicaraguense de futebol é o único torneio profissional das Américas que não foi interrompido pela pandemia de coronavírus.

A insistência do regime sandinista em que está tudo normal incluiu até celebrar a Páscoa sem a Igreja Católica, que, assim como em outras partes do mundo, cancelou eventos públicos.

Mesmo com as igrejas fechadas, o Instituto Nicaraguense de Turismo promoveu festas em várias cidades no feriado, da Encenação de Cristo a festival de música. A imprensa local relatou que os eventos estavam mais vazios do que em anos anteriores.

Sem orientação do poder público, o setor privado passou a adotar medidas de prevenção. Faculdades e escolas particulares suspenderam as aulas, e alguns comércios e indústrias também decidiram fechar as portas.

“Até certo ponto, as pessoas estavam acreditando que o vírus ainda não tinha chegado à Nicarágua, o que me parecia muito improvável devido ao fluxo de turistas europeus, americanos e canadenses”, disse à Folha o fotógrafo de surfe paulista Daniel Avila, 29, um dos três cidadãos brasileiros repatriados no último sábado (11), com a assistência da embaixada do Brasil em Manágua.

"Após o primeiro caso oficial ter sido divulgado, as pessoas começaram a se preocupar. E a mudança foi imediata. A maior parte da população começou a fazer quarentena e isolamento por vontade própria e a utilizar máscaras e luvas, sem nenhuma recomendação oficial”, afirmou.

Outro brasileiro repatriado, que falou sob a condição do anonimato, diz que o regime de Ortega adota uma linha parecida à do presidente Jair Bolsonaro, mas, que à diferença do Brasil, a ditadura nicaraguense eliminou os contrapesos, como um Judiciário independente.

Outra diferença é que, ao contrário de Bolsonaro, o nicaraguense não vem participando pessoalmente dos atos do governo. Ninguém sabe ao certo o motivo —aos 74 anos, o ditador não é visto em público há um mês, desde o dia 12 de março.

No lugar, quem aparentemente comanda o país é a mulher de Ortega, a vice-presidente Rosario Murillo. Ela tampouco aparece em público, mas fala diariamente ao meio-dia à população por telefone, em mensagens cheias de referências religiosas transmitidas por meios estatais.

“Venceremos a pandemia, a morte e a dor com Jesus Cristo, que é luz, vida e verdade”, disse Murillo, na transmissão deste domingo.

“Graças a Deus, não há transmissão local comunitária. Não nos cansamos de dizer: glória a Deus, graças a Deus, porque vamos em frente.”

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