Diário de confinamento: 'Após um mês, os espanhóis (alguns) voltam às ruas'

Muita gente já fala em 'volta à normalidade', sonhando com piqueniques na praia de Barceloneta

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #30 – Barcelona – Domingo, 12 de abril. Cena: pensando em ver “O Dia da Marmota”. De novo.

Nesta segunda (13), voltam à atividade na Espanha alguns setores que haviam sido paralisados nos últimos 15 dias, durante o período crítico do confinamento.

Na prática, regressamos ao estado de alarme inicial decretado em 14 de março. Além dos serviços básicos, só retomam atividades o setor de construção e a indústria.

Eu vou continuar em casa contemplando os gerânios em flor um pouco mais.

Por conta dessa mudança e da relativa estabilização de novos casos e mortes na última semana, muita gente já fala em "desescalada" e "volta à normalidade", sonhando com piqueniques na praia de Barceloneta (eu, eu!) e, com sorte —muita sorte, em não poucos casos—, um posto de trabalho pra chamar de seu.

Homem toma sol em varanda de apartamento em Barcelona
Homem toma sol em varanda de apartamento em Barcelona - Josep Lago/AFP

Mas o governo central desmente. “Quero ser muito claro: não estamos entrando sequer em uma segunda fase”, afirmou Pedro Sánchez, chefe do Executivo, em pronunciamento na tevê hoje, logo após reunião com os presidentes das comunidades autônomas.

"A desescalada começará, no mínimo, dentro de duas semanas [ou seja, um mês e meio depois do início do estado de alarme], e será progressiva e cautelosa."

Estamos há um mês em isolamento domiciliar. Temos um total de 166 mil casos oficiais (atrás apenas dos EUA) e quase 17 mil mortes até a tarde de domingo (12).

Analistas do subdiagnóstico já sentenciaram que as cifras de contágios podem estar até 90% subestimadas, e que o risco de uma segunda onda epidêmica é uma realidade, caso o confinamento seja afrouxado cedo demais.

Pedro Sánchez tem muito trabalho pela frente. O clima de lua de mel (meio falida, e mais fruto da emergência inicial) com a oposição e os presidentes das comunidades autônomas do início do confinamento começa a azedar.

Quim Torra, presidente da Catalunha, um dos críticos mais persistentes das políticas adotadas pelo governo de Sánchez, já declarou hoje que vai tomar suas “próprias medidas” e convocou uma reunião emergencial de sua equipe.

"É uma temeridade e uma imprudência a decisão de permitir a volta ao trabalho nas atividades não essenciais”, disse, enfatizando que os “diretores de hospitais” da província lhe enviaram comunicado recomendando que “o confinamento total deveria seguir umas semanas mais”.

Outros dirigentes ecoaram na reunião por teleconferência do domingo de Páscoa uma queixa que vem se alastrando entre diferentes setores: a falta de comunicação e coordenação entre o governo central e as administrações locais.

Íñigo Urkullu, dirigente dos Países Bascos, reclamou ser este o quinto domingo consecutivo em que recebe “decisões consumadas” de Madri.

As dúvidas sobre como gestionar a volta parcial ao trabalho nesta semana são muitas. O presidente da Galícia, Alberto Núñez Feijóo, disse ter sido informado somente no sábado (11) do novo protocolo para distribuição de máscaras (serão 10 milhões em todo o país a partir de segunda).

“A desconfiança está aumentando”, disse.

Enquanto não chegam os primeiros eflúveos dessa nova-etapa-que-não-é-uma-segunda-fase, quer saber qual é a extensão do confinamento aqui na Espanha? Aí vão alguns dados.

Nesta última semana, a diminuição do tráfego em todo o país chegou, em algumas províncias, a 90% em comparação com o mesmo período no ano passado.

E olha que estamos falando da Semana Santa, que corresponde aos dias de mais tráfego nacional de longa distância do ano.

A redução da demanda de transporte público chegou aos 90% também já na primeira quinzena de confinamento domiciliar. Imagens de vagões de metrô completamente vazios e ônibus circulando com um ou nenhum passageiro estavam por toda parte.

Até bicicleta e patinete, dois veículos alternativos muy comuns na paisagem de Barcelona, tiveram uma redução de mais de 80%.

A exceção fica por conta de ciclistas como os da empresa Glovo, startup de Barcelona com serviço de entrega de comida, compras de supermercado e medicamentos.

Nem todo mundo está comportadinho em casa, mas dar uma passeada porque-sim pode sair caro. Desde meados de março, só em Madri, foram detidas 640 pessoas e aplicadas 59 mil sanções, com multas que podem variar de 600 a 30 mil euros (R$ 3.353 a R$ 168 mil, sim, senhor!).

Apenas na quarta (8) passada, considerada o primeiro dia do feriadão de Semana Santa, os controles policiais madrilenhos aplicaram mais de 2.000 multas, mais do que o triplo do dia anterior.

Enquanto isso, o governo vai preparando quase 300 pontos de acolhida de pacientes assintomáticos, as chamadas “Arcas de Noé”, em todo o país.

Dos quase 40% de taxa de crescimento dos contágios logo antes do decreto do estado de alarme, estamos agora navegando por 3%. Oficiais. E, ainda assim, falta muito para o piquenique na praia. Que venham mais flores, e que venham porque é primavera.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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