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Depoimento

'Todos estão se afogando', disseram-me ao recusar minha esposa em hospital de Guayaquil

Jornalista relata situação grave na cidade mais afetada pelo coronavírus no Equador

Carlos Jijón
Guayaquil

Desde que a pandemia começou no Equador, já morreram 15 pessoas que eu conheço.

E não digo conhecer por saber quem são. Estou falando de parentes —uma tia, um primo— e amigos —dois colegas de escola, a mãe de um grande amigo—, além de jornalistas que já trabalharam comigo.

As coisas em Guayaquil ocorreram muito rapidamente, nem todos tinham ideia do que era o coronavírus quando a crise começou a acontecer.

Um dia, no meio de março, minha mulher, María Rosa, que tem a mesma idade que eu, 55 anos, começou a tossir e a se sentir cansada. Disse que não era nada, que devia estar ficando gripada.

Funcionários colocam caixão em picape para levá-lo a cemitério de Guayaquil
Funcionários colocam caixão em picape para levá-lo a cemitério de Guayaquil - Vicente Gaibor del Pino - 12.abr.20/Reuters

Eu me assustei, vinha lendo sobre o vírus e acompanhando as notícias pelo mundo. Uns dias depois vieram a febre e a dificuldade para respirar.

Um dia, ela me disse: "Sinto como se eu estivesse me afogando".

Decidi levá-la a uma das melhores clínicas privadas da cidade, em Samborondón, distrito de classe média alta, na região metropolitana de Guayaquil, e, quando estava abrindo a porta do carro, um funcionário a fechou, não me deixou sair. "Nem tente, senhor, estamos lotados."

Assustado, respondi: "Mas ela diz que está se afogando". E ele respondeu: "Todos aqui dentro estão se afogando, senhor, não cabe mais ninguém".

Naquele dia, rodamos muitas clínicas e hospitais de Guayaquil, privados e públicos, e posso comprovar que não havia lugar em nenhum.

María Rosa passava mal, e acabei voltando com ela para casa. Liguei para minha irmã, que mora na Bélgica e é médica. Ela consultou colegas, e decidimos armar um plano de tratamento caseiro para ela.

Os dias passavam, e a angústia aumentava. Ter uma pessoa doente em casa, e ao mesmo tempo ver as imagens do que ocorria na rua, com as famílias sem poder enterrar seus mortos, guardando-os em casa. Foi desesperador.

Com os dias, por sorte, ela foi melhorando. Até que surgiu uma vaga num hospital, e fomos voando.

Chegando lá, confirmamos por meio de um teste que ela tinha o vírus, mas por sorte o pico da doença já havia passado. Hoje ela está em casa, recuperando-se. Não sei se fui infectado, provavelmente sim, mas não apresentei sintomas.

Desde então, tive que parar tudo. Durante esse tempo, cuidei dela e fiz as compras para a minha casa e para a casa da minha mãe, que está em isolamento porque é idosa.

Mas, como há toque de recolher e os supermercados estão cheios, é muito difícil.

Se você chega às 7h, e o mercado abre às 8h, já há fila. Geralmente, consigo entrar no local às 11h, e aí é correr para levar as compras às duas casas.

De duas semanas para cá, a cidade está completamente militarizada. Violar as restrições pode render multa ou até prisão.

Uma das coisas que mais têm me irritado é que, no resto do país, e mesmo do mundo, as pessoas não têm ideia do que está ocorrendo aqui.

Ou, se têm, é uma ideia muito confusa, pensam que a situação é assim só para a população pobre. Todos estamos vivendo isso, o vírus não escolhe entre ricos e pobres.

Tenho muitos amigos em Quito e vejo, nos grupos de WhatsApp, reclamações da quarentena, de terem de ficar em casa o dia todo, trocando dicas de filmes para ver na Netflix.

Fico muito irritado, porque sei que, para boa parte da população, e não só do Equador, essa doença ainda não mostrou sua verdadeira cara, e por isso as pessoas não têm empatia com quem está sofrendo na pele.

As cifras oficiais de infectados e mortos por coronavírus no Equador não servem para medir o drama. Há muita subnotificação dos casos.

Não temos capacidade de identificar todos os casos no país. As pessoas estão sendo enterradas sem que façam exames de detecção do vírus. Não há como saber.

Muitas nem chegam a ver um médico desde que adoecem até morrer. Agora começaram a fazer mais testes, mas ainda assim o alcance é limitado.

Os primeiros tiveram de ser mandados para Atlanta (EUA), porque aqui não tínhamos como fazê-los.

O sistema de saúde daqui é parecido com o de muitas metrópoles latino-americanas, não pense que os de Quito ou de Bogotá sejam muito melhores.

Como guayaquilenho, eu sinto uma tristeza enorme por minha cidade. E, enquanto tem gente entediada com a quarentena, seria bom que se lembrasse que, em alguns lugares, isso sequer é uma questão.

Em Guayaquil, hoje não se pensa em outra coisa a não ser sobreviver.

Carlos Jijón, 55, é diretor do jornal La Republica e professor da Faculdade de Comunicação da Universidad de las Américas. Depoimento a Sylvia Colombo, de Buenos Aires

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