Descrição de chapéu Coronavírus

Xenofobia contra imigrantes em pandemia é contraproducente, diz pesquisador

Professor estudou preconceito contra africanos nos EUA durante epidemia de ebola

Viçosa (MG)

Hostilizar imigrantes por causa de uma doença que começou em seus países de origem não é só falta de empatia —especialmente cruel com um grupo que já está lidando, a distância, com traumas como a perda de parentes e amigos.

É também uma atitude contraproducente, que dificulta o controle da disseminação do vírus e pode ser prejudicial inclusive aos cidadãos que estão discriminando essas pessoas.

É o que afirma o pesquisador Kevin A. J. Thomas, professor de sociologia, demografia e estudos africanos na Universidade de Pensilvânia, nos EUA.

Americano nascido em Serra Leoa, Thomas, 44, estudou o preconceito sofrido por imigrantes africanos durante a epidemia de ebola de 2014 na cidade de Dallas, onde morreu o primeiro paciente no país.

O estudo resultou no livro “Global Epidemics, Local Implications” (epidemias globais, implicações locais, em tradução livre; Johns Hopkins University Press, 2019).

Imigrantes recebem desinfetantes e outros produtos em hotel próximo a Kranidi na Grécia
Imigrantes recebem desinfetantes e outros produtos em hotel próximo a Kranidi na Grécia - Louisa Gouliamaki - 21.abr.20/AFP

Para Thomas, a discriminação desencoraja os imigrantes que estão de fato doentes a buscarem tratamento, o que não é benéfico para ninguém.

Ele aponta também o papel dessas comunidades para barrar a disseminação do vírus —no caso do ebola, as igrejas de africanos nos EUA foram fundamentais para ensinar cuidados de prevenção, mapear quem teve contato com infectados e encorajar os que chegavam de viagem a respeitar a quarentena.

O pesquisador lembra que imigrantes são culpabilizados por crises de saúde há séculos e acredita que pode haver uma nova onda de discriminação contra chineses nos EUA quando acabar o lockdown. “Espero estar errado”, afirma.

Culpar imigrantes

As pessoas tendem a culpar imigrantes em crises de saúde como essa. Tipicamente são doenças misteriosas, e as pessoas buscam respostas. Se você pensa na Covid-19, ninguém sabe qual é a cura, não há vacina. Por causa de tanta incerteza, há uma tendência a achar culpados, ao preconceito.

Definitivamente isso é algo muito antigo. No século 16, houve uma epidemia de sífilis na Europa. Na Alemanha, os imigrantes franceses levaram a culpa, na França, os italianos, e no Japão, os portugueses.

Em 1908 teve uma epidemia de febre tifóide em Nova York, e os imigrantes judeus que vieram da Rússia foram hostilizados. No início do século 20, houve uma epidemia de peste bubônica em San Francisco, e os negócios dos chineses foram destruídos, incendiados.

Do ebola ao coronavírus

Na epidemia de ebola de 2014 nos EUA a xenofobia contra os africanos foi enorme. Eles eram chamados por nomes racistas, recusados em comércios, tiveram seus negócios boicotados. Em um jogo de futebol em Dallas, jogadores do time visitante se recusaram a cumprimentar o outro time com os tradicionais apertos de mãos porque alguns deles eram africanos.

Após o jogo, eles saíram para jantar, e um restaurante se recusou a servi-los. O mesmo acontece com os chineses. As pessoas têm medo de ir aos restaurantes deles, e houve até uma família que foi esfaqueada aqui nos EUA em um ato de xenofobia.

Crueldade

A xenofobia é especialmente cruel nesse caso por ser dirigida contra pessoas que vivem seus próprios traumas decorrentes da epidemia em seus países. Pense nisso: esses imigrantes já estão preocupados porque familiares e amigos morreram, estão doentes ou sem emprego em seu país.

Eles já são pressionados por terem que enviar dinheiro para eles ou por terem que viver o luto sem poder encontrar seus entes queridos. Então, além de todo o peso psicológico que carregam, ainda precisam lidar com o preconceito no país onde moram.

Tiro no pé

Culpar os imigrantes num contexto de pandemia é contraproducente. Um dos motivos é que, se você culpar imigrantes africanos ou chineses por espalhar uma doença, será menos provável que, caso eles fiquem de fato doentes, venham a público e busquem tratamento, por medo da discriminação.

Outro motivo é que essas comunidades podem ser aliadas para prevenir a doença. Africanos fizeram muito para combater o ebola nos EUA, espalhando a mensagem na comunidade sobre a necessidade de prevenção, promovendo a lavagem de mãos.

Racismo somado à xenofobia

A xenofobia motivada por epidemias é mais forte em lugares onde os imigrantes já sofriam preconceito antes. Durante essas crises de saúde, muitas pessoas recorrem aos mesmos velhos estereótipos que já tinham no passado para atacar grupos de imigrantes —os chineses, por exemplo. Há preconceito racial nos EUA, obviamente, e essas minorias são mais suscetíveis à discriminação num momento como este.

Nomenclatura faz diferença

Não acho que vírus deveriam ser nomeados de acordo com localizações geográficas. Por exemplo, criou-se um estigma permanente em relação ao rio Ebola, na República Democrática do Congo. E tipicamente fazem isso com países pobres.

Vírus que aparecem inicialmente na Europa ou nos EUA não costumam ser nomeados pelo lugar. O departamento de agricultura dos EUA tem um site inteiro só sobre vírus que poderiam surgir aqui.

“Vírus chinês”

Quando o presidente dos EUA ou políticos de outros países chamam o Sars-Cov-2 de “vírus chinês” e culpam a China, é ruim por vários motivos. Líderes dão exemplos. Muita gente pode estar ouvindo falar da doença pela primeira vez, e vai ouvir dessa maneira.

Se cada vez que um presidente dá entrevista coletiva ou faz um pronunciamento na TV ele usar termos racistas, a população é exposta repetidamente a esses termos racistas. É claro que isso não é bom.

Depois do lockdown

O número de mortes por Covid-19 vem crescendo durante o lockdown, quando todo mundo fica em casa a maior parte do tempo, então não vemos tanta xenofobia nos espaços públicos porque há pouca interação social. Mas suspeito que, após o lockdown terminar, vai ter muita xenofobia contra os chineses, infelizmente. Espero estar errado.

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