Descrição de chapéu Coronavírus

Enquanto crianças saem às ruas em Buenos Aires, Chile se tranca em casa

Pequenos brincam em áreas verdes na Argentina após 8 semanas; Santiago tem explosão de coronavírus

Buenos Aires

Martín, 10, empurra uma bola de futebol com os pés, de mãos dadas com o pai, Rafael, 38, enquanto caminham perto dos Bosques de Palermo, em Buenos Aires.

Pela primeira vez em 60 dias, o governo autorizou a saída de crianças de casa. Apenas por uma hora, no fim de semana, acompanhados por um adulto, e com controle pelo número de documento.

"Eu queria jogar futebol com meus amigos, mas hoje vai ser só com meu pai", contou o menino à Folha, sorridente, mas de cabeça baixa. "Mais cedo, minha mulher saiu com minha filha menor, Claudia, que tem 6 anos. Ela estava muito excitada", disse o pai.

Uma vez perto do parque, ainda fechado ao público, os dois ensaiaram uns passes. Martín sorriu satisfeito ao marcar um "gol", jogando a bola por baixo das pernas do pai.

Enquanto Rafael correu para buscá-la antes que ela chegasse à rua, Martín contou como vem driblando o confinamento. "Em casa imagino jogos, escalo meu time do Barcelona e faço de conta que as pernas da mesa do escritório da minha mãe são o gol", diz o menino, levantando os ombros.

Criança corre atrás de marrecos em parque de Buenos Aires, após oito semanas sem poder sair de casa - Alejandro Pagni -16.mai.2020/AFP

Alguns timidamente, outros mal podendo conter a excitação, foi assim que as crianças voltaram a andar pelas ruas de Buenos Aires neste fim de semana.

Embora o Ministério da Saúde tenha flexibilizado a quarentena em algumas províncias do país, na capital, Buenos Aires, ela continua rígida, pois a cidade vem mostrando um aumento do número de infecções por coronavírus.

A Argentina registra 7.792 registros e 363 mortes. O que mais preocupa as autoridades agora é a cifra em Buenos Aires, que concentra mais de 60% dos infectados. Junto com a Grande Buenos Aires, esse número chega aos 80% dos casos do país.

"Há um crescimento que estávamos prevendo, nos bairros pobres e nas favelas da cidade e da província de Buenos Aires. Estamos chegando perto do pico e apelamos à cidadania para que respeite as regras", disse o secretário de Saúde da capital, Fernando Quirós.

Como as aulas estão suspensas desde 16 de março e não têm previsão de retorno, o governo cedeu à pressão de pais e liberou esse passeio semanal. Ele foi aguardado por Marina, 5, com ansiedade.

"Ela estava muito empolgada, contando os dias para a nossa saída. Colocou uma roupa de princesa, um colar e não se esqueceu da máscara", conta a mãe, Aline. A última vez que Marina saiu, fazia calor e a cidade se despedia do verão.

Na tarde fresca do sábado (16), ao voltar à rua, ela sentiu a cidade transformada. "Está tudo diferente!", disse para a mãe, notando o tapete de folhas secas no chão, típico do outono portenho, e a falta de movimento nas ruas.

Embora encarada como um alívio para pais, que reclamavam de ter de fazer home office com crianças em casa, a medida foi vista com certo resguardo pela população. "Não sei, ninguém sabe ainda muito sobre esse vírus, acho temerário sair com crianças", disse o comerciante Salcedo, 54.

Na fila de um caixa eletrônico, Marisol, 52, estava assustada com a quantidade de gente na rua. "Justo quando há mais contaminações em Buenos Aires vamos deixar as crianças saírem? Quero ver o número de contaminados daqui a duas semanas", disse, apressada.

Para Aline, acadêmica e jornalista, a medida do governo veio em boa hora, mas afirma crer que falta debater como as crianças reagem à quarentena.

Ela conta que sua filha oscilou entre ansiedade e medo da morte, chegando a ter reações cutâneas. "Não basta só trancá-las em casa, é necessário discutir os efeitos a médio e longo prazo."

De fato, até aqui, o presidente argentino, Alberto Fernández, pouco disse sobre as crianças. "Não tenho uma resposta sobre o que fazer com elas. Apenas digo que podem continuar a desenhar enquanto esperam", afirmou.

Já o ministro da Educação, Nicolás Trotta, foi além, dizendo que as aulas na Argentina só seriam permitidas depois que houvesse uma vacina contra o coronavírus.

Enquanto isso, em Santiago, capital do vizinho Chile, o fim de semana foi de silêncio nas ruas. Depois de uma "quarentena seletiva", o país vinha ensaiando uma reabertura do comércio, quando, de repente, a curva de contágios começou a subir muito rapidamente.

Ruas vazias em Santiago, que está sob "lockdown" - José Francisco Zúñiga -16.mai.2020/Xinhua/Agencia Uno

Na última semana, em 24h, foi registrado aumento de 60% nos casos, justamente quando a pandemia saiu dos bairros de classe média e alta e chegou à periferia e à região metropolitana da cidade, onde há populações mais humildes.

Aí vivem imigrantes venezuelanos e haitianos e chilenos pobres, muitos morando em casas pequenas e vivendo do comércio informal.

Desde sexta-feira (15), 8 milhões de habitantes de Santiago e arredores (42% dos chilenos) estão confinados em casa. Na quinta-feira (14), porém, foram vistas filas imensas em mercados e farmácias.

"O governo quis abrir a economia rápido demais, agora está fechando todo mundo em casa de modo atrapalhado, não estamos indo num bom caminho", diz Fernando Maturana, do Sindicato dos Trabalhadores de Saúde de Santiago.

"Se quiser remediar isso, precisa aproveitar o tempo dessa nova quarentena para equipar melhor os hospitais e centros de saúde, pois faltam insumos e ventiladores. Ainda é tempo, não estamos colapsados, mas vamos colapsar se nada for feito."

O Chile registrava, até este domingo (17), 41.428 casos e 421 mortes por coronavírus. País mais desigual entre todos os integrantes da OCDE, apresentava bom desempenho até aqui, pois a doença ainda estava restrita aos bairros urbanos mais ricos do país.

Agora que chegou à população mais pobre, a curva vem crescendo mais do que o esperado.

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