Só queria ter corpo de mulher, mas o governo foi longe demais, diz trans húngara

Ivett Ördög reclama de medida que impede transgêneros de alterar sexo em documentos

Bruxelas

A engenheira de computação Ivett Ördög , 39, só queria ter um corpo de mulher, que acabasse com a debilitante desconexão entre quem ela sentia ser o que diziam seus documentos.

Não pensava em ser ativista da causa, mas sentiu que precisava levantar a voz contra o que chama de “campanha orquestrada contra minorias” do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.

Ivett está de blusa de mangas curta preta e um óculos escuro na cabeça. Ela tem cabelo castanho escuro curto, com franja. Na foto, ele está de lado, e fecha os olhos por conta do sol
A húngara Ivett Ördög - @ivettdevill no Instagram

O ato mais recente foi uma lei aprovada na última terça (19), que na prática proíbe transgêneros de alterar seus nomes na carteira de identidade.

“É muito semelhante ao que aconteceu antes que os judeus fossem obrigados a costurar estrelas amarelas nas roupas, e os gays, triângulos rosas. A primeira coisa que os nazistas fizeram foi marcar seus documentos”, diz Ivett.

Organizações de direitos civis vão à Justiça contra a decisão, mas Ivett diz que para muitos a vitória chegará tarde: “Pode durar outros dez anos, e até lá milhares de pessoas terão sua vida arruinada, ficarão sem trabalho, sairão da escola ou acabarão se suicidando. São pessoas que só queriam viver suas vidas e estão sendo impedidas".

De Budapeste, onde mora, Ivett falou à Folha por telefone sobre seu processo de transição e suas preocupações com o momento político da Hungria.

A mudança na lei é muito grave porque, ao definir gênero como “sexo biológico”, estão dizendo: “Veja, isso é algo que não dá para mudar!”.

E, se não posso mudar meu gênero, não posso mudar meu nome, porque na Hungria não há nomes próprios que sirvam para os dois gêneros. Devem ser escolhidos em listas fixas, ou masculinos ou femininos.

Na Hungria você tem que mostrar sua identidade para alugar um par de esquis ou uma bicicleta, pegar um pacote nos correios ou se registrar num hotel. Impedir a mudança do nome oficial força os trans a se exporem de forma constrangedora, até perigosa.

A húngara Ivett Ördög - @ivettdevill no Instagram

É muito semelhante ao que aconteceu antes que os judeus fossem obrigados a costurar estrelas amarelas em suas roupas, e os gays, a usar triângulos rosas. A primeira coisa que os nazistas fizeram foi marcar seus documentos.

Em meio a essa campanha de ódio patrocinada pelo governo, a marca é o suficiente para acabar com suas chances de emprego, porque mesmo empresas que aceitam transgêneros terão medo de retaliação. O mesmo acontece com os locatários, e você passa a ter medo de ir ao médico e ele ser transfóbico.

Sem contar os casos em que acham que o documento é falso, como aconteceu comigo em um festival de música. Levou dez minutos, o guarda chamou o superior, mas consegui entrar.

Agora imagine se estou dirigindo, sou parada pela polícia e ela não acredita que o documento é meu? Vira uma questão de segurança.

Outro aspecto, não menos grave, é o emocional. Continuo obrigada a viver com meu nome oficial, que eu desprezo e odeio. Nunca o usei, mesmo antes; inventei para mim um nome que não tinha gênero.

Há décadas, lutava com a disforia de gênero, sensação debilitante de desconexão com o sexo atribuído no nascimento, até perceber o que era e que poderia ser tratado. É difícil me abrir sobre esse período, por ser muito pessoal e os meses mais difíceis da minha vida.

Pessoas diziam invejar minha coragem e eu não entendia; a transição era simplesmente a única cura conhecida para a doença de que sofria. Não era mais corajoso que passar por quimioterapia. É doloroso, vem com uma série de efeitos colaterais, mas, se você quer sobreviver, precisa encarar.

Mas de fato a transição me ensinou algo sobre coragem. Àquela altura eu tinha uma esposa, estávamos no caminho de nos tornarmos pais. Ela não via como continuar minha parceira se eu fizesse a transição, e lutei seis meses contra isso, até que tive que deixá-la ir.

Com a reposição hormonal, também perdi a capacidade de conceber naturalmente meu futuro filho. Há decisões difíceis, em que nenhuma das opções é claramente melhor, e nessas horas é preciso definir quem você é como pessoa e seguir esse caminho.

Quando completei minha transição e estava pronta para mudar meu nome, em 2018, eles já barravam os pedidos, dizendo que mudariam a legislação para tornar as regras mais claras. Entrei para o grupo cujas requisições ficaram no limbo e acabarão rejeitadas.

Meu corpo não é perfeito, mas finalmente é um corpo feminino, e isso me faz feliz. Nunca quis ser uma ativista, não escolhi os problemas dessa vida.

Mas num país como a Hungria, em que a transfobia está disparando, as pessoas estão com medo de falar. Alguns meses atrás pensei "não posso ficar esperando para sempre". Já tinha conseguido algum sucesso antes e posso ter um emprego mesmo deixando claro que sou trans, então achei que deveria levantar a voz em nome das pessoas transgênero no país.

As estimativas vão de 3.000 a 30 mil, e só um punhado de nós está falando, menos de 30. Hoje passo boa parte do meu tempo livre ensinando as pessoas sobre questões trans e ajudando os transgêneros em suas jornadas.

Ao mesmo tempo, não quero ser ativista no escritório. Lá, quero me concentrar no meu trabalho. Minorias são apenas pessoas... ficamos exaustas. Ser trans não é fácil, não é divertido.

Quando você é membro de uma minoria, sempre passa por momentos em que alguém diz algo ofensivo e, na maioria das vezes, suas experiências são postas em dúvida: você é chamada de emocional ou chorona.

No final, as pessoas se calam.

Não sinto pessoalmente uma piora na situação, mas sou privilegiada. Para meus amigos e amigas que não estão em boas empresas ou não moram em Budapeste, está virando um inferno. A cada dia há mais discriminação, e eles estão sendo mais atacados verbalmente, e até fisicamente.

Não é preciso um exército de nazistas na sua empresa para torná-la hostil a minorias. Basta uma, que desgaste lentamente as pessoas ao seu redor.

A Hungria tem hoje a pior situação para as minorias na União Europeia, o único país em que a mudança de gênero nos documentos foi banida legalmente. E vai ficando pior a cada ano. No momento ainda podemos fazer a transição médica, mas eles podem proibir. Acabar com as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo.

Casais gays não podem adotar crianças, mas um deles ainda pode hoje; isso também pode ser banido, podem levar seu filho embora, se você já o tiver adotado. Estão escalando a violência dia após dia.

É sempre o mesmo processo: encontram um grupo fácil de derrotar, transformam-no em inimigo público e derrotam. Fizeram isso com migrantes, com ciganos, e agora com os transgêneros.

​Começam com uma campanha de difamação, para influenciar psicologicamente a população, e quando as pessoas estão realmente com raiva eles aparecem como os salvadores, golpeando a minoria.

Mas desta vez eles foram longe demais, agiram diretamente contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos, um documento que foi assinado explicitamente para impedir que qualquer coisa como o Holocausto acontecesse de novo.

Se um governo na Europa pode dar esse passo sem nenhuma reação, então tudo pode acontecer. É preciso traçar uma linha clara que os detenha de forma inequívoca, porque senão sairá do controle.

Iremos à Justiça contra isso, na Suprema Corte da Hungria e no Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Perdemos uma batalha muito importante, mas não toda a guerra, e acredito que ela tenha só um final possível, que é a nossa vitória.

O problema é que pode durar outros dez anos, e até lá milhares de pessoas terão sua vida arruinada, ficarão na miséria sem trabalho, deixarão de ir ao médico ou acabarão se suicidando.

Gerações vão perder sua oportunidade. Jovens vão deixar a escola porque não suportam ser chamados por um nome que não corresponde a seu gênero.

Quando finalmente ganharmos essa guerra, não será mais útil para os que já tiveram que sustentar suas famílias. São pessoas que só queriam viver suas vidas, só queriam ser médicas, engenheiras, tornar-se uma parte útil da sociedade e estão sendo impedidas.

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