Descrição de chapéu Coronavírus Venezuela

Com medo de remoção, imigrantes venezuelanos se escondem no mato em Boa Vista

Homens, mulheres e crianças se aglomeram em meio a péssimas condições sanitárias

João Paulo Pires
Boa Vista

Na vizinhança, uma caixinha de som toca salsa e vallenato, dois gêneros musicais populares na América Latina. Agora frequentes no cotidiano de Boa Vista (RR), os ritmos foram escolhidos para animar os dias nos precários acampamentos urbanos que abrigam 50 imigrantes venezuelanos na cidade.

Numa região de mata dentro de um bairro pobre da capital do estado, o lugar fica próximo a um riacho e foi batizado de Clamor do Rio 2. Ele é atualmente ocupado por cerca de 40 pessoas, incluindo crianças.

O acampamento 'Clamor do Rio 2', no qual estão os venezuelanos em Boa Vista
O acampamento Clamor do Rio 2, no qual estão os venezuelanos em Boa Vista - João Paulo Pires/Folhapress

​Em outro ponto, de acesso mais difícil —é preciso cruzar três charcos com água até a cintura—, há ainda um segundo acampamento, um pouco menor.

O nome Clamor do Rio tem inspiração religiosa e homenageia um primeiro acampamento homônimo às margens do rio Branco, onde chegaram a morar 120 imigrantes.

No dia 27 de abril, eles foram removidos pela prefeitura de Boa Vista. Entidades de direitos humanos alegam que o ato foi ilegal porque não houve autorização da Justiça. A prefeitura, por outro lado, afirma que a remoção foi legal e pacífica.

Assim, para permanecerem escondidos das autoridades, tentando evitar uma nova remoção, imigrantes venezuelanos estão aglomerados, expostos a insetos e animais, em novos acampamentos com péssimas condições sanitárias.

Nesta situação, eles temem que aconteça um surto de coronavírus ou de outras doenças, mas até o momento não há registros de casos no local. “Sinceramente, isso é um milagre”, diz o ex-policial Vladimir José Acuña, 39, um dos intregrantes do acampamento.

Para ter acesso a água, os imigrantes precisam retirá-la de um tanque usando baldes. Ela depois é usada para o banho em um local improvisado com tábuas e cortinas.

Para outras necessidades básicas de higiene, a situação é ainda pior: os venezuelanos precisam ir para o meio do mato, afastados do acampamento ou, em casos mais complicados, como no meio da madrugada, têm de juntar o conteúdo em sacolas e esperar o dia seguinte para enterrá-las.

Escolhido como líder do acampamento familiar, o pedreiro Juan Guzmán, 42, afirma que o grupo também tem que lidar com a vizinhança hostil do bairro. A região ainda é conhecida pelo tráfico de drogas, e os acampados são diariamente ameaçados.

“É difícil, a gente convive todos os dias com medo, às vezes fazemos vigília à noite. Mas estamos acuados, não tem o que fazer agora. Trabalhar está impossível, não estão contratando com essa pandemia”, diz Guzmán, que vive de bicos.

Doações de alimentos, itens de higiene e roupas são divididas com os companheiros.

A cerca de 15 minutos deste acampamento maior está reunido um segundo grupo de venezuelanos.

Formado por cerca de dez pessoas, ele optou por se isolar do ramo principal por ser formado apenas por homens solteiros e sem filhos.

Para chegar, é preciso atravessar lamaçais que enchem na época de chuvas. A água é escura e em alguns pontos chega até a cintura de uma pessoa adulta. O acampamento margeia um fosso, cheio de lixo.

O pedreiro Richard Torres, que mora no acampamento no meio do mato, afirma preferir o local para evitar conflitos com traficantes e moradores que não gostam da presença dos venezuelanos.

“Aqui é mais fácil para qualquer emergência, a posição é estratégica. Infelizmente foi o que conseguimos. No outro acampamento, o espaço já foi todo utilizado, e a aglomeração seria pior. Se ficarmos em outro lugar tem vizinho que cobra um ‘pedágio’ para ficar, mas a gente não tem como pagar. Sabemos que é para expulsar, nos odeiam”, diz.

Mulheres venezuelanas do acampamento são assediadas por homens, que gritam palavrões e ofensas a elas nas ruas quando transitam na região. “Se acontecer algo, para quem podemos denunciar?”, questiona a secretária Carina Chacoa, 42.

O agravamento da crise social, política e econômica da Venezuela provocou um grande êxodo de imigrantes. O Brasil é o quinto país que mais recebe refugiados venezuelanos, atrás de Colômbia, Peru, Chile e Equador.

Vizinho à Venezuela, Roraima faz parte desse movimento inédito em termos regionais e recebe a maior quantidade de imigrantes do país caribenho.

Antes do fechamento da fronteira de Pacaraima (RR), em março deste ano, o estado recebia diariamente cerca de 500 venezuelanos. Mesmo com a diminuição do fluxo, a estimativa é de que 60 mil deles morem em Roraima. Destes, quase 32 mil estão em Boa Vista.

De acordo com a Operação Acolhida, pouco mais de 6.000 vivem nos 13 abrigos oficiais no estado. Ainda segundo projeções de autoridades locais e agências humanitárias, 1.500 estão em situação de rua e mais de 3.000 imigrantes vivem em ocupações de prédios públicos e privados da capital.

Organizações religiosas e civis assinaram uma ação civil pública no final de abril em parceria com a Defensoria Pública da União contra a remoção realizada pela prefeitura de Boa Vista sem ordem judicial.

Na ação, pedem que os governos municipal, estadual e federal viabilizem um abrigo adequado para as famílias venezuelanas removidas do primeiro acampamento e que seja concedido o auxílio emergencial de R$ 600 a elas.

Depois de terem sido removidos do primeiro acampamento, a maior parte dos imigrantes foi levada a uma estrutura da Operação Acolhida, na rodoviária da cidade, lugar feito para servir de abrigo temporário e pior do que o acampamento improvisado, no julgamento dos venezuelanos.

Ali, afirmam, teriam de lidar inclusive com tentativas de furto por outros abrigados. Outra parte ficou dispersa pela cidade, sem os pertences e sem ter como se alimentar.

Segundo Guzmán, não houve cuidado, planejamento ou acolhimento adequado das autoridades para os ocupantes além de terem sido levados para o abrigo temporário. “Como já nos conhecíamos, preferimos ficar em um lugar da região juntos, senão ficaríamos mais expostos na rua.”

A irmã Telma Cristina Lage, coordenadora de Migrações e Direitos Humanos da Diocese de Roraima, afirma que a situação dos venezuelanos é grave e que houve violência por parte da prefeitura.

“São famílias de pessoas honestas sendo tratadas como criminosas. Não é só uma questão sanitária, essas pessoas estão correndo um sério risco de serem agredidas”, diz.

“A remoção foi ilegal e desumana, porque não houve um destino pré-acordado para essas pessoas. Existem protocolos do poder público para encaminhar essas pessoas para um lugar, ainda mais durante uma pandemia”, reforça Camila Asano, diretora de programas da Conectas Direitos Humanos, entidade que também faz parte da ação.

Procurada, a prefeitura de Boa Vista afirmou que a remoção do primeiro acampamento foi legal e pacífica, acompanhada pela Secretaria de Gestão Social e pelo Exército, que teria transportado os venezuelanos até um abrigo da Operação Acolhida.

A prefeitura afirma que a área invadida é vulnerável, sofre com enchentes no período de chuvas e não tem infraestrutura para receber os imigrantes.

Além disso, segundo a prefeitura, o acampamento antigo estava ainda em área de preservação ambiental, o que configura crime previsto em lei federal, e a aglomeração de pessoas em locais inapropriados pode disseminar a Covid-19.

A Justiça Federal não viu urgência no caso e, até agora, todas as liminares e pedidos de reconsideração foram negados.

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