Fox News publica imagens alteradas de zona autônoma de Seattle

Site de emissora simpática a Trump admite montagem após questionamento de jornal

São Paulo

O site da Fox News publicou imagens alteradas digitalmente em reportagens sobre a zona autônoma estabelecida por manifestantes antirracismo no bairro de Capitol Hill, em Seattle.

A revelação foi feita pelo jornal local Seattle Times neste sábado (13). As fotos falsas, que ficaram no ar durante várias horas na sexta (12), são uma violação dos padrões éticos de organizações jornalísticas, segundo especialistas consultados pelo diário.

Em uma série de reportagens sobre a zona autônoma estabelecida por ativistas antirracismo nos arredores de uma delegacia de polícia abandonada pelos policiais em um bairro central de Seattle, o site da Fox News —emissora simpática ao presidente Donald Trump— exibiu uma fotografia falsa de um homem segurando um rifle de estilo militar em frente ao que parece ser uma vitrine destruída.

A imagem misturava fotos de dias diferentes, tiradas por fotógrafos diferentes: usava o retrato de um homem armado do dia 10 de junho, retirada do banco de imagens da agência Getty, com fotos de 30 de maio de janelas quebradas do centro da cidade.

Havia ainda uma outra imagem, também enganosa, que combinava a foto do atirador com outra da entrada da zona autônoma, dando a entender que o homem armado estava parado em frente a uma placa em que se lê "você está agora entrando na Cap Hill livre".

O site da emissora não informava que se tratavam de imagens fraudulentas. Ambas foram removidas após questionamento do jornal.

Em um comunicado enviado por e-mail à reportagem, uma porta-voz da Fox News disse: "Substituímos nossa ilustração fotográfica pelas imagens claramente delineadas de um atirador e uma loja destruída, que foram registradas nesta semana na zona autônoma de Seattle".

Mas a resposta está errada, pois a foto do atirador foi feita em 10 de junho, e as imagens das vitrines em 30 de maio. O site não se desculpou.

A zona autônoma foi estabelecida por manifestantes antirracismo em um bairro que é o coração da arte e da cultura da cidade —e que está em risco hoje em dia diante da gentrificação trazida pela riqueza crescente do setor de tecnologia. Seattle é a sede da Microsoft e da Amazon.

Os manifestantes reverteram as barricadas da polícia para proteger as ruas liberadas e tomaram posse de vários quarteirões, numa área que agora é conhecida como “Zona Autônoma de Capitol Hill”.

“Este espaço agora é propriedade do povo de Seattle”, diz uma faixa estendida na entrada da delegacia de polícia, agora vazia.

O que emergiu disso é um experimento de vida sem polícia, algo que é em parte festival de rua, em parte comunidade. Centenas de pesso as vêm se reunindo para ouvir discursos, recitais de poesia e música.

Imagem da ativista Angela Davis na entrada do Departamento de Polícia de Seattle, agora tomado por manifestantes antirracismo
Imagem da ativista Angela Davis na entrada do Departamento de Polícia de Seattle, agora tomado por manifestantes antirracismo - Jason Redmond - 12.jun.20/AFP
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