Menores e mais pacíficos, atos antirracismo nos EUA tentam consolidar movimento social

Manifestações diminuem em novo dia de protestos, e grupos se concentram em honrar memória de George Floyd

Minneapolis | Reuters

O décimo dia consecutivo de protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos foi marcado por manifestações pacíficas e em menor escala, em contraste com os atos que vinham sendo registrados desde o último dia 26, um dia após o assassinato de George Floyd.

Em Minneapolis, nesta quinta (4), centenas de pessoas se juntaram apolíticos, ativistas de direitos civis e parentes de Floyd em uma cerimônia em homenagem ao homem negro que se tornou o novo rosto do movimento Black Lives Matter (vidas negras importam), após ser morto por um policial branco.

"Quando eu olhei e vi manifestações em que, em alguns casos, jovens brancos superavam em número os negros marchando, eu soube que essa é uma época diferente", disse o reverendo Al Sharpton, que conduziu o memorial. "Vá para casa, George. Descanse, George. Você mudou o mundo, George."

Manifestantes protestam com mãos levantadas diante do memorial em homenagem a George Floyd - Chandan Khanna - 4.jun.20/AFP

Cerimônia semelhante ocorreu no distrito do Brooklyn, em Nova York, onde mais de 5.000 pessoas se reuniram no parque Cadman Plaza.

Um dos irmãos de Floyd, Terrence, instou a multidão a continuar buscando justiça, mas a evitar a violência. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, também subiu ao palco e prometeu que a morte de Floyd será um fator de mudanças substanciais nas práticas policiais na cidade mais populosa do país.

Horas depois, a ação policial na cidade pareceu contradizer a promessa do prefeito. No Bronx, a polícia tentou obrigar milhares de pessoas a respeitarem o toque de recolher ainda vigente, utilizando escudos, cassetetes, granadas de atordoamento e gás lacrimogêneo.

O grupo de manifestantes, entretanto, foi cercado por fileiras de agentes, de modo que não tinha por onde evacuar a área. Dezenas foram presos.

"Este é um momento muito sísmico, e um dia vou ter um filho, e ele vai me perguntar o que eu fiz durante a revolta de 2020, durante a primavera americana", disse Nana Mensah, uma escritora de 30 anos do Brooklyn, à agência de notícias Reuters.

No protesto, Mensah segurava uma placa que dizia: "Vocês têm sorte que nós só queremos igualdade, e não vingança."

A polícia de Nova York também deteve um entregador de comida por violar o toque de recolher, embora os serviços de delivery sejam considerados essenciais e, portanto, exceções à regra.

Vídeos divulgados nas mídias sociais mostram o homem apontando sua sacola de entrega de comida e dizendo aos policiais: “Você está falando sério? Olha, eu nem estou fazendo nada".

Manifestantes ocupam a ponte do Brooklyn, em Nova York - Angela Weiss - 4.jun.20/AFP

O comissário de polícia de Nova York, Dermot Shea, pediu desculpas por casos em que houve má conduta policial nos últimos dias, mas pediu que os manifestantes parem de insultar os agentes.

"Portanto, por nossa parte no dano à civilidade, por nossa parte no viés racial, pelo uso de força excessiva, pelo comportamento inaceitável, pela linguagem inaceitável e por muitos outros erros, eu sinto muito. E quanto a vocês?"

De Blasio defendeu enfaticamente as ações da polícia e disse que os manifestantes devem seguir as instruções do departamento.

"Não é injusto dizer que, no contexto dessa crise, no contexto do toque de recolher, chega um ponto em que tudo tem um limite", disse o prefeito em entrevista coletiva.

O governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, também demonstrou apoio aos policiais, dizendo que eles fazem um "trabalho impossível", mas classificou como "completamente vergonhosa" a ação dos agentes em Buffalo, no norte do estado, que foram filmados empurrando um homem de 75 anos durante a dispersão de um protesto em frente à prefeitura da cidade.

O vídeo, feito por um repórter da rádio americana WBFO, mostra um idoso caminhando em direção aos policiais. Ao ser empurrado pelos agentes, ele cai e bate a cabeça, que imediatamente começa a sangrar.

O idoso sofreu uma concussão e está internado. Sua condição é grave, porém estável, de acordo com a imprensa local. Dois policiais foram suspensos.

A reação violenta aos protestos tem sido incentivada pelo presidente Donald Trump, que ameaçou enviar "milhares e milhares" de homens do Exército fortemente armados para as ruas caso prefeitos e governadores não conseguissem conter as manifestações.

A retórica de Trump, no entanto, gerou um efeito rebote que alimentou as marchas e provocou críticas até entre aliados. O secretário de Defesa, Mark Esper, disse discordar do uso de militares para conter os ativistas.

Na quinta-feira (4), Esper ordenou o retorno às bases a 700 dos 1.600 homens das Forças Armadas deslocados para auxiliar no controle dos protestos. Nesta sexta (5), os outros 900 devem começar a se retirar, de acordo com um oficial do Pentágono ouvido em anonimato pelo jornal The New York Times.

Mais de 2.000 homens da Guarda Nacional, entretanto, permanecem em Washington. O número deve subir para 4.500. Centenas deles estão reforçando a segurança da Casa Branca, residência oficial do presidente dos EUA.

"Washington está em ótima forma", disse Trump, na quarta-feira (3), em uma entrevista à Fox News. "Eu disse brincando que talvez [Washington] seja um dos lugares mais seguros do mundo. Temos que ter uma força dominante. Talvez não pareça bom dizer isso, mas você precisa ter uma força dominante. Precisamos de lei e ordem."

Nesta quinta, centenas de manifestantes se reuniram no Lincoln Memorial, na capital americana, e ao redor do monumento dedicado a Martin Luther King, líder histórico na luta por direitos civis nos EUA, assassinado em 1968. Seu filho, Martin Luther King 3º, esteve no memorial de George Floyd, em Minneapolis.

Manifestantes fizeram ato pacífico no monumento dedicado à memória de Martin Luther King, em Washington - Oliver Douliery - 4.jun.20/AFP

Em Atlanta, na Geórgia, onde viaturas policiais e lojas foram incendiadas nos últimos dias, a maioria dos manifestantes respeitou o toque de recolher e foi para casa às 21h.

A mudança de humor refletiu uma determinação expressa por muitos manifestantes e organizadores nos últimos dias em transformar a indignação pela morte de Floyd em um movimento renovado de direitos civis, buscando reformas no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos.

Algumas personalidades do entrenimento americano também têm demonstrado apoio à causa. Segundo a rede americana CNN, o cantor Kanye West fez uma doação de US$ 2 milhões (R$ 9 milhões) para as famílias de Floyd e de Ahmaud Arbery, um garoto negro de 25 anos que foi morto em fevereiro deste ano enquanto praticava corrida na cidade de Brunswick, no estado da Geórgia.

Um representante do cantor disse ainda que Kanye vai pagar as mensalidades da faculdade de Gianna, a filha de seis anos de Floyd.

Derek Chauvin, policial que aparece no vídeo com o joelho sobre o pescoço de Floyd, está sendo acusado de homicídio de segundo grau, o equivalente a homicídio doloso (com intenção de matar) na lei brasileira. Sua pena pode chegar a 40 anos de prisão.

Nesta quinta, os três policiais que estiveram com Chauvin na abordagem a Floyd apareceram em público pela primeira vez desde o início dos protestos. Eles estiveram em um tribunal, para uma audiência de fiança, que foi estipulada em US$ 750 mil (cerca de R$ 3,8 milhões).

Thomas Lane, J. Alexander Kueng e Tou Thao, indiciados como cúmplices do homicídio, usavam uniformes de presidiários laranja diante do juiz e não puderam falar.

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