Países formam conselhos de especialistas para projetar vida pós-Covid

Espanha, França, Itália e Argentina buscam saídas para retomada econômica e transformações sociais

São Paulo

Pensando em como recuperar a economia e planejar o futuro após a pandemia de coronavírus, países como Espanha, Itália, França e Argentina reuniram especialistas em comitês de debates guiados por uma ambição: lançar bases para um novo mundo.

Estão na pauta temas como a redução da poluição, o fim da violência contra a mulher e o enfrentamento das desigualdades sociais. A adoção das propostas que surgirem nesses grupos, no entanto, dependerá de aprovação dos governos.

O presidente francês, Emmanuel Macron, reúne-se com representantes de sindicatos e empresas para discutir a recuperação pós-pandemia, no Palácio do Eliseu, em Paris - Yoan Valat - 4.jun.2020/Reuters

Na Itália, o governo convidou o empresário Vittorio Colao para elaborar um plano de reconstrução, entregue no início de junho. Ex-chefe da gigante de telecomunicações Vodafone, ele montou um grupo de trabalho com 17 pessoas, incluindo ex-ministros, economistas e psicólogos, e chegou a 102 ideias.

Em entrevista à midia italiana, Colao disse que ficaria contente se ao menos 40 delas fossem adotadas.

O plano inclui anistia fiscal, para estimular a formalização de empregos e de negócios, e a repatriação de recursos enviados irregularmente ao exterior, além de dar isenções fiscais em serviços prestados de forma digital, de modo a estimular seu uso.

Para conter a circulação de dinheiro vivo, sugere a retirada de circulação das notas de 200 e 500 euros, algo que depende de consenso na União Europeia.

Outras propostas buscam oferecer estímulos para que indústrias italianas tragam de volta suas fábricas ao país e recomendam a criação de um fundo para a manutenção de museus, parques e outras atividades de entretenimento.

Na França, o presidente Emmanuel Macron chamou grandes nomes da economia mundial para criar um conselho, incluindo Paul Krugman e Jean Tirole, vencedores do Nobel, e Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA.

Ao todo, são 26 nomes, divididos em três grupos: clima, desigualdades e demografia, com a missão de entregar um relatório até dezembro.

Macron usou um tom épico ao anunciar o projeto. Disse que este é um momento de reinvenção total, inclusive dele mesmo.

Uma das ideias debatidas é aumentar a taxação sobre combustíveis fósseis, e usar esse dinheiro em benefícios sociais. Trata-se de um tema polêmico no país.

O avanço de uma taxa desse tipo, no fim de 2018, foi um estopim para os protestos dos chamados "coletes amarelos", que fizeram atos contra Macron por semanas e o levaram a recuar da medida.

Na Argentina, um grupo de intelectuais elaborou uma série de artigos, com apoio da Presidência, em maio. Compilado em um livro, o material traz mais reflexões para estimular o debate do que ideias práticas. Inclui críticas ao capitalismo e a defesa do papel do Estado.

"A insegurança gerada pela mudança climática, pelo futuro do trabalho e as desigualdades de gênero crescem com a liberdade total do mercado", escreve Alejandro Grimson, antropólogo, assessor do presidente Alberto Fernández e coordenador do projeto.

A iniciativa soma 28 pessoas, incluindo algumas ligadas à atual vice-presidente Cristina Kirchner e outras que foram críticas ao kirchnerismo.

A presença de intelectuais de linhas antagônicas favorece um debate mais amplo, mas pode gerar constrangimentos aos governos.

Na Espanha, ganha força no grupo de discussão a defesa de uma reforma trabalhista apoiada pelo PP, hoje na oposição, e criticada por membros da coalizão de esquerda que comanda o país.

O país criou um conselho de planejamento com mais de cem nomes e a meta de elaborar um relatório em três meses.

Batizado de “Espanha 2050”, reúne especialistas ligados a partidos de várias frentes, com dez temas, incluindo o combate ao desemprego estrutural, ao despovoamento rural e o uso de combustíveis fósseis.

Fernando Ribeiro Leite, professor de economia do Insper, questiona o papel do Estado como um planejador central, capaz de fazer intervenções profundas na economia.

“Esse modelo foi importante no pós-Segunda Guerra, nos ajudou na industrialização, mas temos que assumir que vivemos em uma economia de mercado.”

Outro ponto é que esses comitês não foram eleitos e podem ser acusados de falta de legitimidade. “É uma ideia legal e saudável, mas gera a sensação de uma sobreposição de funções. Será que os ministérios e o Legislativo não dão conta de pensar o país?”

Para a consultora de políticas públicas Florencia Ferrer, o planejamento estatal só funciona se a sociedade toda se engajar nas propostas.

Ela cita os casos de Coreia do Sul, Chile, Colômbia e Uruguai, que tiveram avanços na educação, na economia e no combate à violência a partir de planos criados nas décadas passadas.

"Em um país federal, há mais dificuldade em ter uma direção única. Mas tivemos avanços nas últimas décadas no Brasil, com a redução da miséria, que foi fruto de direções dadas pelos governos de FHC e do PT", avalia.

Em meio à pandemia, o governo de Jair Bolsonaro criou um grupo de trabalho interministerial, liderado pela Casa Civil, que tem conversado com entidades empresariais, como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a Fiesp. Esse grupo elabora um conjunto de medidas que fará parte do pacote Pró-Brasil.

Em nota, o ministério afirma que vai priorizar ideias para o pós-pandemia que sigam diretrizes da OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico), que reúne os países mais ricos do mundo, o que contribuiria para o processo de entrada do Brasil no órgão, um dos objetivos do governo.

Para Henrique Meirelles, secretário da Fazenda de São Paulo e integrante do comitê estadual que busca saídas para a crise, o estado planeja seguir na busca de investidores para privatizações e concessões de estradas, ferrovias, hospitais e presídios do estado, especialmente no exterior.

A gestão de João Doria (PSDB) tem realizado reuniões virtuais com investidores e planeja retomar as viagens em 2021.

Júlio Serson, secretário de Relações Internacionais do estado e presidente de um comitê que reúne outros secretários da mesma pasta no Brasil, planeja começar pelo fórum de Davos, em janeiro, e depois visitar China, Singapura e Estados Unidos.

"O segredo de qualquer plano de desenvolvimento é aproveitar a vantagem competitiva do país ou estado naquele período", afirma Meirelles.

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