Adiamento das eleições na Bolívia é ilegal e arbitrário, diz ex-presidente do Senado

Terceira na linha de sucessão à época da renúncia de Evo, Adriana Salvatierra diz que foi pressionada a deixar cargo

Buenos Aires

A senadora Adriana Salvatierra, 31, era a terceira na linha de sucessão na Bolívia quando o presidente Evo Morales renunciou, pressionado pelas Forças Armadas e por protestos populares, em novembro de 2019.

O vice-presente à época, Álvaro García Linera, conta que, ao deixar o país com Evo rumo ao México, eles ainda acreditavam que Salvatierra poderia assumir o comando da Bolívia.

Ela, no entanto, também foi pressionada a renunciar à Presidência do Senado, cargo que ocupava, deixando espaço para a manobra que levou a atual presidente interina, Jeanine Añez, ao poder.

Como senadora, Salvatierra se opõe a mais um adiamento da data das eleições. O pleito passou de 6 de setembro para 18 de outubro, numa decisão do Tribunal Eleitoral que ela chama de "ilegal e arbitrária".

Na política desde os 16 anos e membro do Movimento para o Socialismo (MAS), partido comandado por Evo, hoje refugiado em Buenos Aires, assim como García Linera, a parlamentar vive em La Paz e continua participando das sessões do Senado, com uma posição crítica ao governo.

A senadora boliviana Adriana Salvatierra durante debate
A senadora boliviana Adriana Salvatierra durante debate - Ryan Brown - 13.mar.19/ONU Mulheres/Divulgação

Como a sra. avalia o novo adiamento das eleições na Bolívia? Trata-se de uma decisão arbitrária e baseada numa avaliação científica feita de modo precário para atender ao interesse do grupo que está no poder. Arbitrária porque não foi por consenso e não seguiu a lei. Não houve consulta ao Parlamento, que é o que manda a Constituição. Além disso, levou-se em conta apenas um relatório do Ministério de Saúde, muito mal feito, que avaliou que o suposto pico do coronavírus seria em setembro.

Mas a situação da pandemia na Bolívia está bem grave, não? Sim, está. Não digo que não, mas tampouco temos um esforço por parte do governo para medir o tamanho do problema e muito menos para combatê-lo. Não estamos realizando testes suficientes, não estamos avaliando as condições dos hospitais e respondendo às necessidades de compra de insumos e de remédios. Se o governo não está realizando esforços para medir nem para conter o coronavírus, como pode saber quando será o pico e, com base nisso, alterar o calendário eleitoral? Há infectologistas, por exemplo, que não concordam, que acham que o pico pode ser em setembro em alguns lugares, mas em outros, não. O certo é que não temos base científica confiável para tomar uma decisão eleitoral tão importante.

Com isso, o governo de transição chega próximo de completar um ano no poder. Claro, e essa é outra coisa ilegal. A transitoriedade do governo de Jeanine Añez já está vencida faz tempo. As eleições tinham de ser realizadas no primeiro semestre. Quando entramos em acordo com outros partidos e com o tribunal para mudar de maio para setembro, levamos em conta a situação da pandemia e o que diz a lei, que o pleito deveria ocorrer até no máximo 120 dias depois do pleito adiado. Em outubro, já estaremos além desse prazo. Por isso que insisto que esse assunto ainda precisa ser tratado na Assembleia Nacional, ou então essa data não tem validez legal. O que o MAS pede, neste momento, é que se leve o debate sobre a data eleitoral ao Parlamento.

Como avalia a gestão da pandemia pelo governo de Añez? Terrível, é uma péssima gestão sanitária e cheia de casos de corrupção, como se pôde ver com a compra irregular de respiradores [pelo triplo do preço, o que acabou levando o então ministro Marcelo Navajas à cadeia]. E esses respiradores sequer serviam. Faltam também reagentes para realizar testes, faltam remédios, há um mercado ilegal e clandestino de receitas para medicamentos cuja eficácia não é comprovada. Ou seja, o Estado não está presente nesta pandemia. E as imagens dos corpos recolhidos nas ruas são o retrato disso.

O governo argumenta que a pandemia revelou que o sistema hospitalar construído durante a gestão de Evo é que não estava preparado. Não é verdade. O sistema de saúde boliviano foi fortalecido e expandido nos anos de Evo. Com o crescimento sustentado da economia que tivemos, toda essa estrutura foi melhorada. Obviamente que, para essa pandemia, poderia estar mais preparado, mas se trata de uma pandemia que está fazendo colapsar sistemas de saúde em todo o mundo. Nenhum país estava preparado de fato para o coronavírus e teve de incrementar suas UTIs, comprar insumos, fazer gastos.

A gestão Añez acertou no começo, ao decretar a quarentena cedo. Mas deveria ter feito o que outros países fizeram: aproveitar a quarentena para preparar o sistema de saúde. Isso não foi feito. Ao contrário, hospitais não foram construídos, o número de leitos não cresceu, testes não foram comprados. Mais: dinheiro destinado a isso foi para a corrupção. Tampouco existe, até hoje, um protocolo estabelecido para tratar a doença.

A que atribui esse descaso com a pandemia? A pandemia serve para que Añez leve seu governo adiante. Interessa a ela, interessa ao grupo que a apoia, pois sabem que as eleições favorecem o MAS [segundo as pesquisas mais recentes, o candidato do partido, Luis Arce, lidera a corrida eleitoral, seguido de Carlos Mesa, e, em terceiro lugar, Añez].

A sra. renunciou à liderança do Senado quando poderia ter assumido a Presidência. Arrepende-se de ter renunciado? Não pense que teriam deixado eu assumir. O golpe não foi contra o presidente Evo Morales, foi contra o nosso projeto político, contra o processo de mudança que estávamos promovendo na Bolívia, foi para se apropriar de nosso lítio, além de outras riquezas. O tuíte de Elon Musk foi uma prova disso [em resposta a uma mensagem que acusava os EUA de terem participado do processo que resultou na renúncia de Evo, o diretor-executivo da Tesla afirmou: "daremos golpe em quem quisermos, lidem com isso"]. Nós sempre soubemos que estávamos lidando com interesses internacionais poderosos. Agora isso veio à tona. Foi essa pressão interna e externa que causou o golpe. Nós fomos pressionados a renunciar, Evo foi tirado do poder. Nunca deixariam que eu assumisse. Não houve condição para uma sucessão constitucional. Não houve diálogo sobre isso. As Forças Armadas e a polícia estavam do lado do grupo interessado no golpe.

O Brasil teve papel nesse processo? Sem dúvida, houve movimento de dinheiro e de aviões, apoio logístico, do governo e de privados, algo que precisa ser investigado mais a fundo. O governo de Jair Bolsonaro é um suporte importante desses grandes interesses que tomaram o poder na Bolívia. Não é por menos que foi um dos primeiros países a reconhecer Añez no cargo, assim como os EUA.

Como avalia o papel do Mercosul nesta pandemia? Não aprovo o Mercosul como é nos dias de hoje. Houve uma redução do Mercosul para um acordo de intercâmbio de mercadorias, quando deveria ser também um mecanismo de integração cultural e de cooperação. Não vimos nada dessa cooperação ocorrer com a pandemia do coronavírus.


Adriana Salvatierra, 31
Militante do partido MAS desde 2005, formou-se em ciências políticas e administração pública na Universidade Autônoma Gabriel René Moreno, em 2013. Em 2014, foi eleita senadora suplente de Carlos Romero pelo departamento de Santa Cruz. Assumiu em maio de 2015, após o titular deixar o cargo para tomar posse como ministro, e se tornou presidente da Casa em janeiro de 2019, aos 29 anos.

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