Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Discurso contra voto por correio pode prejudicar Trump em estados-chave

Democratas têm superado republicanos na solicitação das cédulas para escolher candidato a distância

Washington

Donald Trump já votou por correio neste ano. O presidente escolheu a si mesmo como candidato republicano à Casa Branca durante as primárias de seu partido na Flórida, onde tem registro eleitoral.

Era começo de março, e o coronavírus não havia atingido em cheio os EUA, assim como Trump ainda não investia de forma tão agressiva contra a opção de voto a distância que se tornou determinante na pandemia.

O presidente tem repetido que votar por correio pode gerar fraude no resultado e, há duas semanas, negou-se a responder se aceitaria uma derrota para Joe Biden, seu adversário democrata e atual líder nas pesquisas.

Voluntárias contam cédulas enviadas por correio no Departamento Eleitoral do Condado de Clark, no norte de Las Vegas, em Nevada, durante apuração das primárias no estado
Voluntárias contam cédulas enviadas por correio no Departamento Eleitoral do Condado de Clark, no norte de Las Vegas, em Nevada, durante apuração das primárias no estado - Ethan Miller - 9.jun.20/Getty Images/AFP

A retórica de Trump soa como vacina produzida por quem sabe que está em uma situação eleitoral difícil, mas pode agravar ainda mais o cenário ao prejudicar sua campanha em estados considerados chave na disputa, como Flórida, Carolina do Norte e Pensilvânia.

Nessas regiões, democratas têm superado republicanos na solicitação das cédulas por correio e podem sair em vantagem frente às regras de distanciamento social —e o medo do coronavírus— no dia da eleição.

Aliados do presidente temem que a pandemia impeça um número alto de eleitores de irem pessoalmente às urnas em 3 de novembro, principalmente os que têm mais de 65 anos ou os que vivem em áreas rurais, importante parcela da base de Trump.

Os EUA registram hoje mais de 4,3 milhões de casos e 150 mil mortes por Covid-19, mas os surtos aumentam descontroladamente em diversos estados, sem sinais de que a crise deve arrefecer em breve.

Na Flórida, por exemplo, um dos novos epicentros da pandemia, republicanos costumavam dominar a eleição por correio, mas, desde que o presidente começou a dizer que a alternativa não é confiável, o quadro mudou.

Democratas já dobraram o número de solicitações desse tipo de voto em comparação a 2016 no estado, enquanto correligionários de Trump expandiram seus índices em apenas 20%.

Na Carolina do Norte, por sua vez, os pedidos de voto por correio dos republicanos foram 50% a mais do que na última eleição presidencial, mas os democratas já escalaram o número em sete vezes.

Na Pensilvânia, mais de 1 milhão de democratas votaram pelo correio nas primárias do estado, em junho, ante cerca de 400 mil republicanos.

Os três são estados-pêndulo —que ora votam em democratas, ora em republicanos—, determinantes na corrida à Casa Branca. Em 2016, Trump venceu Hillary Clinton em todos eles, porém, neste ano aparece atrás de Biden nos levantamentos.

Nos EUA, o voto não é obrigatório, e o eleitor pode escolher seu candidato de três maneiras: a mais tradicional é ir à urna no dia da eleição, mas há também como votar pessoalmente de forma antecipada ou fazer o voto por correio, que precisa ser solicitado com antecedência.

As regras variam de estado para estado, mas a pandemia fez com que muitos deles deixassem de exigir justificativa para o voto a distância e abrissem prazos até o fim de outubro para pedir as cédulas.

De acordo com pesquisa da CNN, 40% dos eleitores de Flórida, Arizona e Michigan —também determinantes neste ano— dizem que votarão por correio, enquanto números da Fox News mostram que, nacionalmente, 35% dos eleitores dizem que vão fazer essa opção. Em 2016, eram apenas 24%.

Trump coloca dúvida sobre a integridade da votação por correio e tenta bloquear a alternativa na Justiça.

Ele afirma acreditar que a maior participação de eleitores pode favorecer a campanha democrata —Trump perdeu no voto popular em 2016 para Hillary, mas venceu no Colégio Eleitoral, sistema indireto que define o presidente.

Especialistas, porém, afirmam que o republicano está errado nas duas concepções: o voto por correio não é passível de fraudes significativas e não beneficia nenhum partido político.

Professora da Universidade de Michigan, Edie Goldenberg diz que há um eficiente sistema de conferência de assinaturas nas cédulas e que, historicamente, a ocorrência de fraude nas eleições dos EUA é muito baixa.

"Quando acontece, as pessoas são condenadas e vão para a cadeia. Não altera os resultados. Esse não é um problema real, é um problema inventado."

Goldenberg tem pesquisado alternativas seguras de votação durante a pandemia e diz que, apesar de não haver vantagens partidárias no voto por correio até agora, o vírus pode ter mudado as projeções.

"Trump tem forte apoio entre a população mais velha e não entre jovens, e isso pode ter consequências. Os republicanos têm muitas razões para estimular o voto por correio, mas o presidente não está fazendo isso."

Segundo a pesquisa da CNN, pessoas com menos de 45 anos têm hoje a mesma probabilidade de votar pelo correio do que os mais velhos, que eram os mais propensos a escolher seus candidatos a distância.

Geralmente eleitores democratas, os jovens podem querer registrar sua desaprovação à postura de Trump ao optar pelo sistema. Da mesma forma, diz Goldenberg, republicanos podem dizer que votarão pessoalmente para mostrar que seguem a orientação do presidente.

Mas a tática parece arriscada em meio à imprevisibilidade da pandemia. "Por que dar aos democratas 10 ou 11 dias para votar e esperar que os republicanos votem em um só?", afirma Rohn Bishop, presidente do Partido Republicano em um dos condados de Wisconsin, outro estado fundamental para a disputa.

"Isso nos coloca em desvantagem", completou ele, em entrevista à Associated Press.

Para serem beneficiados, os democratas precisam mobilizar mais pessoas do que em 2016 —principalmente eleitores jovens e negros— em todas as frentes, e não apenas trocar o voto na urna pelo feito à distância.

Principal cabo eleitoral de Biden, Barack Obama sabe disso.

Nesta quarta (29), para promover o "dia nacional do voto por correio", o ex-presidente postou em suas redes sociais os prazos para pedir as cédulas em cada estado e estimulou que eleitores votem a distância.

"Votar por correio é fácil e seguro", escreveu Obama.

A três meses da eleição, ainda é difícil prever o impacto da pandemia nos estados em novembro e como o voto por correio pode influenciar na participação de eleitores dos dois partidos.

A certeza por enquanto é que, em razão da logística, o sistema pode atrasar a apuração, o que significa que, na noite de 3 de novembro, não seja possível saber quem foi eleito presidente dos EUA.

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