Descrição de chapéu Governo Trump

Prefeitos reagem à ameaça de Trump de enviar tropas para conter atos antirracistas

Em Chicago, há temor de que agentes federais possam caçar imigrantes em situação irregular

São Paulo, Washington e Nova York | Reuters

A ameaça do presidente Donald Trump de mandar forças federais para conter protestos em cidades como Nova York e Chicago gerou revolta de prefeitos, a maioria dos quais democratas.

No domingo (19), ao escrever, com ironia, que em Portland os políticos locais "estavam tranquilos com 50 dias de anarquia", o republicano deu a entender que enviaria mais agentes de segurança a outros locais com manifestações. "Nós mandamos ajuda. Olhe para Nova York, Chicago, Filadélfia. Não!", completou.

Em Portland, grupo se reúne em frente a centro de Justiça durante protesto do movimento Black Lives Matter; painel luminoso exibe a mensagem 'capangas federais, saiam de PDX [sigla para Portland]'
Em Portland, grupo se reúne em frente a centro de Justiça durante protesto do movimento Black Lives Matter; painel luminoso exibe a mensagem 'capangas federais, saiam de PDX [sigla para Portland]' - Nathan Howard - 20.jul.20/Getty Images/AFP

O presidente americano fazia referência à onda de protestos contra a violência policial em Portland, no estado de Oregon, oeste do país, iniciados em reação à morte de George Floyd, homem negro que foi sufocado por um policial branco em Minneapolis, no final de maio.

O assassinato gerou manifestações em diversas cidades americanas, mas a grande maioria delas arrefeceu após algumas semanas. Portland, porém, abriga atos há mais de 50 dias —e, agora, o repúdio à presença dos agentes federais se soma à pauta original dos protestos após os confrontos violentos.

À época, Trump ameaçou enviar as Forças Armadas para conter os atos, mas sofreu críticas de congressistas e da imprensa, além de resistência do próprio Departamento de Defesa.

Pesquisas recentes de intenção de voto mostram o presidente muito atrás de seu adversário, o democrata Joe Biden, na corrida presidencial. Assim, o republicano tem tentado fazer do discurso de lei e ordem um dos temas de sua campanha, tirando os holofotes da resposta da Casa Branca à pandemia de coronavírus, aspecto no qual é mal avaliado pela população.

No fim de junho, assinou um decreto para aumentar a punição contra a depredação de estátuas, que viraram alvo dos protestos antirracistas. O envio das tropas a Portland ocorreu como consequência dessa ordem executiva, uma vez que ativistas visavam o Fórum da Justiça Federal, propriedade do governo federal.

A Procuradoria-Geral da cidade entrou com uma ação contra as agências federais pedindo a retirada das forças, alegando que houve detenções sem causa justificada, e deputados democratas exigiram investigações sobre relatos de abusos dos agentes na contenção dos atos.

O prefeito de Nova York, o democrata Bill de Blasio, disse que poderá acionar a Justiça caso Trump insista em enviar tropas federais para a cidade, mas ironizou a ameaça.

"Esse presidente blefa e diz que fará coisas que nunca se materializam, então não devemos superestimar suas declarações. Elas frequentemente não são verdade."

Já Chicago deve receber 150 agentes federais do Departamento de Segurança Nacional, segundo o jornal The Washington Post. Esse setor é ligado ao combate à imigração ilegal, o que gerou a suspeita de que a operação pretenda, na verdade, buscar estrangeiros —o discurso anti-imigração é uma das bandeiras de Trump, e cidades como Nova York e Chicago dão mais proteção a estrangeiros em situação irregular do que outras partes do país.

"Não queremos agentes federais sem identificação pegando pessoas na rua e prendendo de modo ilegal", disse a prefeita de Chicago, a democrata Lori Lightfoot, na segunda (21), em referência ao que ocorreu em Portland.

Os ânimos dos manifestantes de Portland se acirraram ainda mais após a divulgação de um vídeo que registra uma agressão no sábado (18). Nele, Chris David, veterano da Marinha americana, questiona um grupo de agentes federais que vigiavam um monumento e acaba agredido com golpes de cassetete e spray de pimenta. Os policiais não carregavam identificação.

David afirmou em entrevista ao New York Times que decidiu participar dos protestos depois de ver cenas de agentes federais não identificados detendo manifestantes nas ruas e levando-os em minivans alugadas. O veterano fez questão de usar uma camisa com a palavra "Marinha".

"Identifiquei-me até não poder mais por uma razão: queria que eles parassem para que pudéssemos conversar", disse ele ao jornal americano. "Queria dizer que acreditava que eles não estavam respeitando o juramento à Constituição que prestaram. Mas eles bateram em mim como em um saco de pancadas."

David teve uma das mãos quebradas em dois pontos diferentes.

No domingo (19), cerca de 1.500 manifestantes se reuniram em frente ao Fórum de Justiça Federal para pedir que as tropas deixassem a cidade. Quando os manifestantes começaram a derrubar partes de uma cerca colocada ao redor do prédio, agentes responderam com bombas de gás lacrimogêneo.

Nesta terça (21), o secretário interino do Departamento de Segurança Nacional dos EUA, Chad Wolf, defendeu a atuação das forças federais nos protestos, afirmando que as prisões realizadas são legais e que eles estavam adequadamente identificados como agentes de segurança.

Wolf afirmou ainda que os policiais estavam enfrentando "ataques de difamação" e acusou a mídia de representar os eventos na cidade de forma incorreta. "Eles não são da Gestapo como descrito."

Trump segue irredutível e diz que as forças federais fizeram um "trabalho fantástico em um curto período de tempo". "Eles pegam um monte de pessoas e prendem os líderes. Esses são anarquistas", disse.

"Os democratas de esquerda radical, que controlam [Joe] Biden totalmente, vão destruir o país que conhecemos. Coisas más inimagináveis poderão acontecer na América", tuitou Trump no domingo.

Legalidade do envio

Especialistas consultados pela agência de notícias Reuters afirmam que Trump pode empregar agentes federais para fazer cumprir as leis federais, mas que a Casa Branca não tem carta branca para fazê-lo.

"O presidente não é o rei", disse Kent Greenfield, professor de direito do Boston College e especialista em direito constitucional americano. "O presidente não tem a capacidade de exigir que os estados apliquem as leis estaduais de uma certa maneira, ou de competir com as forças de segurança locais."

A lei federal dá, porém, poder para delegar agentes para proteger propriedades federais, como o tribunal federal de Portland, que tem sido o centro dos atos dos últimos dias.

"Os agentes não estão fazendo cumprir nenhum lei federal ao atuar nos protestos", disse Jimmy Gurule, professor de direito da Universidade de Notre Dame. "Minha preocupação é se a proteção da propriedade federal é um ardil para interferir na liberdade de expressão dos manifestantes."

Sob a Constituição dos EUA, os governadores têm autoridade para manter a ordem dentro das fronteiras de seus estados. Uma lei federal também proíbe que militares federais participem da garantia da ordem doméstica, salvo poucas exceções.

Com Reuters.

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