Afeganistão confirma libertação de 400 prisioneiros e se prepara para diálogo com Taleban

Negociações de paz devem começar em Doha nesta semana

Cabul | Reuters

O Afeganistão concordou neste domingo (9) com a libertação de 400 prisioneiros membros do Taleban, abrindo caminho para negociações de paz para encerrar quase duas décadas de guerra civil.

Sob a pressão de um acordo de paz assinado com os EUA em fevereiro —segundo o qual o Taleban reduziria seus níveis de violência e os americanos começariam a retirada de suas tropas do país—, a grande assembleia do Afeganistão, conhecida como Loya Jirga, aprovou a proposta.

A soltura foi uma condição imposta pelo grupo fundamentalista islâmico para se juntar aos diálogos de paz. O presidente afegão, Ashraf Ghani, confirmou a decisão.

Afegãos durante o último dia da grande assembleia, conhecida Loya Jirga, em Cabul
Afegãos durante o último dia da grande assembleia, conhecida Loya Jirga, em Cabul - Presidência do Afeganistão - 9.ago.20/AFP

Na semana passada, Ghani convidou cerca de 3.200 líderes comunitários e políticos afegãos para irem a Cabul, em meio ao temor de disseminação do coronavírus, para aconselhar o governo se os prisioneiros deveriam ser libertados ou não.

Entre os 400 detidos estavam membros do Taleban acusados ​​de ataques contra civis e estrangeiros, incluindo a explosão de um caminhão-bomba em 2017, perto da embaixada alemã em Cabul, que matou mais de 150 pessoas. O grupo também inclui membros da rede Haqqani, que tem ligações com o Taleban.

Com a libertação, o governo afegão cumpre sua promessa de libertar 5.000 prisioneiros talebans.

Segundo diplomatas ocidentais, as negociações entre o Taleban e o governo afegão começarão em Doha nesta semana. Antes das negociações, Ghani apelou ao grupo islâmico fundamentalista que se comprometesse com um cessar-fogo.

A deliberação sobre a libertação do último grupo de prisioneiros do Taleban gerou indignação entre civis e organizações de direitos humanos, que questionaram a moralidade do processo de paz.

A decisão também se mostrou dolorosa para as famílias dos mais de 100 mil civis, que, estima-se, foram mortos ou feridos na última década —10 mil só no ano passado. A Loya Jirga exortou o governo a pedir perdão às famílias, algo importante sob muitas interpretações da lei islâmica.

Nos últimos dias, as autoridades americanas encorajaram a assembleia do país a apoiar a libertação dos prisioneiros, a fim de colocar o processo de paz em marcha.

O vizinho Paquistão, considerado chave para pavimentar o caminho às negociações, saudou a decisão.

"Esperamos que, com a implementação desta etapa, as negociações intra-afegãs comecem o mais cedo possível", disse o Ministério das Relações Exteriores do Paquistão em um comunicado.

Antes da Loya Jirga, a Human Rights Watch advertiu que muitos dos prisioneiros haviam sido presos sob "leis de terrorismo excessivamente amplas que prevêem detenção preventiva por tempo indeterminado".

Com as eleições americanas de novembro se aproximando, Donald Trump, atrás nas pesquisas, está ansioso para cumprir sua promessa de campanha de encerrar a guerra mais longa dos EUA.

As tropas americanas já começaram a sair do país. Até o final de novembro, a previsão é que haja menos de 5.000 soldados dos EUA em território afegão, bem abaixo dos cerca de 8.000 atuais, informou o secretário de Defesa, Mark Esper, no sábado (8).

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