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Crise política na Belarus desafia Putin, mas país não é a Ucrânia

Vizinho, cuja elite é pró-Kremlin, é vital para planos energéticos e de defesa da Rússia

São Paulo

O desafio político da oposição ao autocrata Aleksandr Lukachenko, que previsivelmente foi eleito para um sexto mandato à frente da Belarus, tem animado governos e especialistas no Ocidente.

Aqui e ali surgem comparações com as ditas revoluções coloridas do começo do século, nas quais antigos países soviéticos viram a população apoiar a derrubada de governos subordinados aos desígnios da antiga matriz, Moscou.

Policiais passam por manifestante durante repressão a ato contra Lukachenko em Minsk
Policiais passam por manifestante durante repressão a ato contra Lukachenko em Minsk - Serguei Gapon/AFP

É um evidente exagero, quando não torcida, já que usualmente políticos e comentaristas são de países adversários do governo de Vladimir Putin. Apesar de toda a energia que está sendo liberada na Belarus, é importante notar que o país não é uma Ucrânia.

Cabe aqui o parêntese: mesmo Kiev, que viu derrubado um presidente pró-Kremlin em 2014, nunca conseguiu a integração com a Europa que os líderes da chamada revolução de Maidan sonhavam.

Primeiro, porque Putin não permitiria transformar o grande território que o separa de tropas da Otan e um membro da aliança militar ocidental ou da União Europeia. Geopoliticamente, é inaceitável para a Rússia.

Tanto foi assim que ele promoveu a excisão da Crimeia e fomentou uma guerra civil no leste ucraniano, deixando o país na corda bamba entre o Ocidente e o grande vizinho.

Segundo, ainda que sejam majoritariamente refratárias a Moscou, partes da população e da elite ucranianas querem estar em bons termos com os russos, por questões econômicas e culturais.

O caso bielorrusso é ainda mais dramático para aqueles que ressentem o peso de Moscou sobre a outra república ex-soviética que serve de tampão estratégico ante os agressivos membros da Otan no Leste Europeu, Polônia à frente.

Embora Lukachenko sempre tenha feito um jogo de vender dificuldades para colher facilidades, a mão de Putin é muito mais visível na Belarus.

O país depende totalmente da energia do vizinho para sobreviver. O petróleo e o gás natural que recebem são subsidiados, e mesmo a primeira central nuclear, que será inaugurada no ano que vem para diversificar a matriz do país, é financiada e operada pela russa Rosatom.

Cerca de 80% das receitas de exportação de Minsk vêm de derivados de petróleo que refina em duas usinas da época soviética. Vizinhos europeus no Báltico são seus grandes clientes.

Para complicar as aspirações de autonomia, Moscou vê a Belarus como um entreposto de sua gigantesca indústria de hidrocarbonetos. Oleodutos e gasodutos herdados do império comunista transformaram o país numa escala vital para a exportação russa a seu maior mercado, a Europa.

Passam por dutos na Belarus um quinto do gás que a Rússia fornece à Europa e um quarto do petróleo que vai pelo mesmo caminho.

Putin não se dará ao luxo de reprisar os problemas que teve ao longo dos anos na Ucrânia, onde o megaduto Irmandade por anos transportou metade do gás natural enviado à Europa.

Para se livrar daquela dependência, o russo promoveu um caminho alternativo ao norte, fazendo parceria com os alemães no mar do Norte com o gasoduto Nord Stream, e ao sul, com os turcos sob o mar Negro (sistemas Turkstream e Blue Stream).

A jogada não passou despercebida, claro: os EUA ameaçam investidores aliados nos dois projetos com sanções similares às que aplicam à Rússia desde 2014.

Mas essas alternativas não permitem a Moscou prescindir de sua rede na Belarus. Os europeus, por sua vez, também sempre fizeram vista grossa ao regime de Lukachenko: 40% do gás e 30% do petróleo que a UE consome saíam da Rússia antes da pandemia, segundo o órgão de estatísticas do bloco, a Eurostats.

Esse vetor energético, aliado à profundidade estratégica que dá à defesa de seu território contra a Otan, explica o interesse de Putin em manter a Belarus sob controle.

Desde 1999, quando Putin já era premiê e Lukachenko contava cinco anos no poder, os dois países formam o chamado Estado da União —embrião de uma fusão política e econômica, após quase 30 anos de independência entre os países.

Putin chegou a namorar a ideia de se tornar presidente dessa amálgama, mas Lukachenko não topou.

Não por acaso, agora que o aliado rebelde está sob pressão, o russo lembrou que espera "maior ampliação da cooperação dentro do Estado da União" ao parabenizar rapidamente o bielorrusso por sua contestada reeleição.

Outro fator que diferencia o caso da Belarus de outros é o fato de que a elite do país é bastante pró-Moscou. É o caso dos candidatos barrados Viktor Babariko, preso, e Valeri Tsepkalo, que fugiu para a Rússia.

Svetlana Tikhanovskaia, que fez campanha em nome da oposição e do marido Serguei, também preso, foi clara ao dizer no dia do pleito que não defendia "uma nova Maidan", e sim eleições livres.

Com a repressão que já mostra os dentes no país, Lukachenko irá se isolar ainda mais no cenário internacional e potencializar o estímulo ao dissenso interno. As diversas prisões de mercenários e jornalistas russos não facilitam nada sua posição ante o Kremlin.

Isso traz uma oportunidade e um risco a Putin. O russo poderia promover algum candidato a sucessor de Lukachenko mais dócil com a Rússia se a situação do autocrata ficar insustentável.

Por outro lado, fazer isso sob pressão das ruas seria premiar um método que ele mesmo combate em casa. Assim, neste primeiro momento, Putin endossou a farsa eleitoral apontada por observadores no domingo.

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