Após golpe, junta do Mali propõe transição de três anos liderada por militar

Presidente deposto, Ibrahim Boubacar Keita, teve saída da prisão autorizada por militares

Bamaco (Mali) | AFP

A junta militar no poder no Mali e integrantes da delegação da África Ocidental anunciaram neste domingo (23) que buscam estabelecer um órgão de transição liderado por um militar e que negociaram a libertação do presidente deposto, Ibrahim Boubacar Keita, preso desde que renunciou.

"O conselho afirmou que quer fazer uma transição de três anos para rever os fundamentos do Estado do Mali. Essa transição será dirigida por um órgão presidido por um militar, que, ao mesmo tempo, será o chefe de Estado", disse um integrante da delegação da Comunidade Econômica da África Ocidental (Ecowas, na sigla em inglês), presente em Bamaco.

Ex-presidente da Nigéria Goodluck Jonathan, segundo da esquerda para a direita, no aeroporto de Bamaco, parte da delegação de líderes da África Ocidental para negociar crise no Mali
Ex-presidente da Nigéria Goodluck Jonathan, segundo da esquerda para a direita, no aeroporto de Bamaco, parte da delegação de líderes da África Ocidental para negociar crise no Mali - Annie Risemberg/AFP

As discussões entre a Ecowas e a junta militar, que assumiu o poder por meio de um golpe, prosseguiram neste domingo (23) na capital, tendo como tema central o futuro do presidente deposto.

"As conversas estão indo muito bem", disse o ex-presidente nigeriano Goodluck Jonathan. Ele chefia a delegação da Ecowas, que quer "garantir o retorno imediato à ordem constitucional" no país africano.

Vários membros do órgão puderam visitar o presidente, que renunciou na terça-feira (18), sob pressão dos militares. Jonathan afirmou que "ele estava bem".

A delegação da Ecowas já havia se reunido meia hora antes com membros do Comitê Nacional de Salvação do Povo (CNSP), órgão criado pelos golpistas, entre os quais o coronel Assimi Goita, o novo homem forte do Mali.

Militares aclamados pelas ruas

O presidente da Comissão da Ecowas, Jean-Claude Kassi Brou, ressaltou "a vontade dos militares de realmente avançar" e expressou o desejo dos países da África Ocidental de encontrar "uma solução que satisfaça primeiro os malianos e que seja benéfica para todos os países da região".

"Esperamos poder terminar tudo isso até segunda-feira", acrescentou.

Um integrante da delegação explicou que as negociações devem avançar rapidamente. "Precisamos de resultados, já que no dia 26 de agosto os chefes de Estado da Ecowas se reunirão para decidir se reforçam ou afrouxam as sanções contra a junta militar", disse ele.

Os países vizinhos do Mali, reunidos numa cúpula extraordinária, exigiram na quinta-feira (20) a reintegração do presidente e decidiram enviar uma delegação a Bamaco para apoiar um "retorno imediato à ordem constitucional".

Keita, que se tornou presidente em 2013 e foi reeleito em 2018, enfrentava uma forte onda de protestos nas ruas, liderados pela heterogênea coalizão M5-RFP, que exigia sua renúncia.

O golpe, condenado pela comunidade internacional, não despertou oposição significativa em Bamaco, cujas ruas se encheram de milhares de pessoas para comemorar a queda de Keita e aclamar os militares.

A junta prometeu caminhar rapidamente para uma "transição política". Enquanto as discussões continuam, quatro soldados foram mortos no sábado (22) em uma explosão no centro do país, que tem sido marcado nos últimos anos pela instabilidade e pela presença de grupos jihadistas.

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