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Eleições EUA 2020

Vices ambiciosos criam desconfiança, mas Biden precisava de uma mulher que roube a cena

Prévias consolidaram imagem de Kamala como mulher de palanque que não hesita em avançar contra inimigo

Mathias Alencastro

Tal como os brasileiros, os americanos adoram debater a utilidade dos vice-presidentes em ano eleitoral.

Para alguns, o vice-presidente é uma figura irrelevante e até obsoleta, criada para suprir limitações tecnológicas que já foram superadas; para outros, um personagem-chave que pode acabar desenhando sozinho o futuro do país, como tão bem narrou Robert Caro, o superbiógrafo de Lyndon Johnson.

Todos concordam que o impacto da escolha do vice-presidente na campanha é próximo de zero.

As presidenciais são o encontro entre um homem, ou uma mulher, e a nação. Não há espaço para personagens secundários.

Joe Biden conversa com Kamala Harris em um palco de debate
Joe Biden conversa com Kamala Harris no terceiro debate pela indicação democrata em Houston, Texas - Robyn Beck - 12.set.2019/AFP

Alguns fatos inéditos tornam esta campanha um pouco diferente. Joe Biden, 77, é o mais velho candidato a um primeiro mandato da história da República.

Nas prévias, deu sinais de cansaço, a ponto de alguns comentaristas, como o consagrado Tom Friedman, sugerirem que os debates com o impiedoso Donald Trump deveriam ser contornados ou até evitados.

Qualquer tropeço será imediatamente apresentado como um sinal de confusão e senilidade, numa mera repetição dos truques usados contra Hillary Clinton em 2016.

A pandemia complica a situação de Biden. O senador do Delaware tem passado grande parte dos últimos três meses trancafiado em sua residência.

Se a obrigação do distanciamento social criou um ambiente midiático mais controlado que minimizou o risco de gafes e lapsos, o candidato não terá alternativa senão começar a bater perna depois da Convenção Nacional do partido, agendada para a próxima semana.

É nesse contexto que deve ser examinada a escolha de Kamala Harris. Susan Rice era uma solução de conforto. Sem base política, a antiga chefe do Conselho Nacional de Segurança na era Obama seria uma boa gestora sem grandes ambições políticas.

Numa eleição tradicional, Gretchen Whitmer teria sido a melhor escolha do ponto de vista puramente eleitoral. A popular governadora entregaria de bandeja Michigan, um dos estados mais competitivos.

Mas esta não é uma eleição normal, e Biden precisava de uma vice de combate. Kamala Harris ganhou dimensão nacional ao massacrar o controverso Brett Kavanaugh, indicado de Trump à Suprema Corte.

Apesar de assustadoramente amadora, sua campanha nas prévias consolidou a imagem de uma mulher de palanque que não hesita em avançar contra o inimigo —o próprio Biden sentiu seu poder de retórica na pele durante um dos primeiros debates.

Conhecida por gostar de gastar a sola dos seus tênis Converse, Kamala será pau para toda obra da campanha Biden.

Dos sonolentos debates em salas sem janela com 40 eleitores indecisos de um estado-pêndulo aos eventos televisivos multidimensionais com milhões de espectadores, a candidata a vice estará em todo lado, o tempo todo, dando margem para Biden conduzir uma campanha mais solene e cerimonial.

É o encontro de uma candidata treinada para a era digital e de um candidato acostumado ao ritmo do século passado. Vices ambiciosos costumam criar desconfiança, mas Biden precisava de uma mulher capaz de roubar a cena.

A escolha de Kamala traz os seus riscos. Em sua longa carreira política, a senadora pela Califórnia frequentou algumas figuras pouco recomendáveis, como o ex-prefeito de São Francisco Willie Brown, um personagem digno de um bom Martin Scorcese, enrolado em negócios imobiliários, acusações de corrupção e clientelismo.

No começo dos anos 2000, ele se tornou conhecido por colocar pessoas do seu círculo próximo em posições de poder, inclusive uma jovem e promissora procuradora distrital chamada Kamala Harris.

Material suficiente para a máquina do ódio dos republicanos inundar as redes sociais com todo o tipo de alegações sórdidas. Paralisada pela pandemia, a campanha presidencial acabou de ganhar velocidade e agressividade.

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