Descrição de chapéu Financial Times Governo Trump

'Todos sabíamos que ele era um canalha, mas era o nosso canalha', diz sobrinha de Trump

Expulsa da família, Mary Trump lançou livro sobre o presidente que vendeu quase 1 milhão de cópias em 1 dia

Edward Luce
Financial Times

De camisa semi-abotoada cor de rosa, Mary Trump, que tem 55 anos e é lésbica –a primeira de sua família a sair do armário—, parece muito à vontade no meio do caos aparente de seu quarto, de onde fez a chamada de vídeo para esta entrevista. Desde o lançamento de seu livro de memórias, no mês passado, em que conta como foi crescer na família Trump, sua vida foi virada do avesso.

O livro em questão, “Too Much and Never Enough: How My Family Created the World’s Most Dangerous Man” (demais e nunca o bastante: como minha família criou o homem mais perigoso do mundo), é o maior sucesso editorial de não ficção do ano nos EUA.

Mary Trump, sobrinha de Donald Trump que lançou um livro sobre a história da família - Divulgação

Mary retratou a família em que foi criado o 45º presidente dos Estados Unidos como uma espécie de “Casa Soturna” (romance de Charles Dickens de 1852) moderna: poucas famílias podem ser tão gananciosas e avarentas quanto são os Trump, em sua descrição.

Naturalmente, seu tio descartou o livro como fake news, algo que quase certamente beneficiou as vendas. O livro vendeu quase 1 milhão de cópias no dia em que foi lançado.

“Há algumas coisas bizarras em relação a isso”, diz ela. “A primeira é que nada mudou. Ainda estou encurralada em minha casa [em Long Island, Nova York], sem poder sair. Não posso festejar, não posso encontrar outras pessoas. Mas o que é muito mais gratificante do que as vendas é a recepção do livro. Eu sempre quis ser escritora, desde os seis anos.”

Como Mary conseguiu emergir de sua família como fez? Como psicóloga clínica e bibliófila, ela não parece ter nenhuma característica em comum com seu tio.

“Eu não me enquadro em nenhuma das categorias que me incluiriam na família, o que é ótimo”, afirma. Gosta de golfe, pergunto, pensando no passatempo favorito do presidente. “Odeio golfe, não é um esporte –e pense no que poderíamos fazer com toda essa terra”, responde ela.

E vinho, pergunto então, lembrando que seu tio é abstêmio. “Aprecio as coisas mais finas da vida com moderação e de uma maneira que nenhum deles conseguiria.”

Foi o amor pelos livros que a diferenciou quando ela era criança e jovem. Como filha de Fred Trump Jr., o irmão mais velho do presidente, expulso da família pelo pai, Fred Trump, Mary foi criada em Queens, Nova York, em situação econômica nitidamente inferior à do resto da família.

Fred Jr., seu pai, teve um momento breve de brilho como piloto comercial da TWA, conseguindo um emprego visto na época como glamuroso.

Esse feito não chegou a impressionar o patriarca, que o comparou a ser “motorista de ônibus no céu”.

Rejeitado e ironizado pela família, Fred Jr. perdeu a autoconfiança e voltou para o negócio imobiliário da família com o rabo entre as pernas. Passou a beber cada vez mais.

Depois de uma tentativa fracassada de abrir um negócio de pesca na Flórida, passou o resto da vida trabalhando nas equipes de manutenção da Organização Trump.

Na noite em que ele morreu, nenhum membro da família o visitou no hospital. Seu irmão Donald, sempre tratado como o “principe herdeiro” apesar de ser quase oito anos mais jovem que Fred Jr., estava no cinema. O presidente dos EUA sempre cita o irmão como a razão pela qual ele rejeita o álcool.

Mary cresceu no que descreve como “um apartamento deprimente pertencente aos Trump” nos conjuntos habitacionais para famílias de baixa renda no bairro de Jamaica, em Queens, muito diferente do ar rarefeito do bairro vizinho de Jamaica Estates, onde residia o resto da família.

Isso lhe deu uma base na realidade. Ela ia à escola de metrô. E devorava livros. Em seu livro de memórias, ela conta que não havia um único livro à vista na casa de seu avô até que seu tio publicou “The Art of the Deal” ("A Arte da Negociação", na versão brasileira), escrito por um ghostwriter, no final dos anos 1980.

“Comecei a ler com 3 anos e meio. Meus horizontes já eram mais amplos que os de qualquer outra pessoa da família, simplesmente em virtude disso”, diz Mary.

“Quando eu nasci, o homem que meu pai havia sido –o cara que tinha um círculo incrível de amigos, que alugava um hidroavião para ir pescar atum ou tubarão-martelo, que era tão inteligente— não existia mais.”

“Pior ainda, porque cresci vendo como eles o trataram ao longo do tempo –e ele não era o melhor pai do mundo, porque era alcoólatra que vivia de uma maneira tão extenuada, sendo que Donald andava por aí como se comandasse o mundo, como se ele tivesse criado sua boa fortuna com seu próprio esforço—, eu acabei acreditando na versão da família. Tampouco eu respeitava meu pai.”

Um dos trechos mais chocantes e comoventes do livro se passa no final de 1999, quando Mary telefonou à avó, Mary Anne Trump –a mãe de seu pai e de Donald Trump, nascida na Escócia—, para discutir o fato de ela ter sido deserdada da herança de Fred Trump.

Pelo fato de serem filhos de Fred Jr., que morrera muitos anos antes, aos 42 anos, como semi-recluso, Mary e seu irmão foram quase totalmente deserdados.

Mary pensou que a avó, de quem acreditava ser próxima, se solidarizaria com ela. “Você sabe quanto valia seu pai?”, perguntou Mary Anne à neta. “Um monte de nada.” E desligou. Foi a última vez que se falaram.

“Mais do que qualquer outra coisa, isso colocou tudo em perspectiva para mim”, diz Mary. “Eu não fui deserdada apenas monetariamente. Significava também que eles não me amavam, não me reconheciam e não me respeitavam, e tudo isso também se aplicava a meu pai. Eu não tenho família. Eu havia apenas projetado coisas sobre minha avó porque era tenebroso demais pensar que ela era como meu avô.”

Boa parte do livro é um relato de como o presidente dos Estados Unidos tornou-se o homem que é hoje, depois de assistir à humilhação arrasadora à qual foi sujeito seu irmão mais velho, de coração menos endurecido e levemente sonhador. Fred simplesmente “obliterou” o caráter de Fred Jr., diz Mary.

A lição que Donald Trump aprendeu com o tratamento dado a seu irmão foi ser implacável, cruel e expurgar qualquer traço de empatia, afirma ela. Os vencedores precisam amputar seu coração. Era esse o único jeito de Donald Trump fazer jus à atenção de seu pai.

O que ela teria pensado se alguém lhe tivesse dito que algum dia seu tio se tornaria presidente dos Estados Unidos? Mary dá risada.

“Uau. Eu teria pensado que tinha tomado ácido sem querer, que era um pesadelo.” Foi apenas quando passou dos 20 anos e concordou brevemente em ser ghostwriter de um livro de Donald Trump que ela pôde avaliar plenamente o caráter de seu tio.

“Eu não havia entendido até então que ele não fazia nada”, diz ela. “Basicamente, todos sabíamos que ele era um canalha, mas ele era o nosso canalha. Como eu era sua sobrinha, não sabia até então como era horroroso com mulheres. Era muito fácil não saber algumas das coisas horrendas que ele fazia com impunidade. Mesmo então, estava claro que ele não era uma pessoa competente. Simplesmente sua superficialidade, sua ausência total de curiosidade intelectual, sua imaturidade –o jeito como ele fazia anotações com caneta hidrográfica azul [sobre papeizinhos espalhados à sua volta], como chamava jornalistas de cachorras e mandava as anotações para elas...”

O primeiro diploma universitário de Mary foi de literatura inglesa pela Universidade Tufts –principalmente literatura vitoriana, mas também anterior a essa era.

Um de seus romances favoritos é “Clarissa”, uma tragédia inglesa escrita em meados do século 18 sobre uma jovem cujas ideias românticas sobre a vida vão sendo destruídas por sua família avarenta. A protagonista acaba morrendo de anorexia. “Tenho vergonha de dizer quantas vezes já li ‘Clarissa’”, admite.

Depois de se formar, ela e seu irmão foram deserdados, fato que a levou a buscar uma profissão mais financeiramente rentável do que a literatura. “Não é uma grande história, e não tem nada a ver com querer compreender minha família”, afirma Mary. “Eu estava fazendo terapia havia muito tempo. Meu desejo de ser psicóloga nasceu de minha experiência como paciente.”

Ela trabalhou num hospital psiquiátrico público por muitos anos, mas acabou deixando esse emprego para tornar-se orientadora pessoal, porque o trabalho se tornara muito estressante.

“Dois ou três de meus pacientes eram suicidas”, conta. O período que passou como "coach" –“que soa ridículo, eu sei”— não durou muito.

Depois disso, ela se voltou ao marketing na internet. Agora pretende tornar-se escritora em tempo integral. Mary já escreveu a maior parte de seu próximo livro. “É o livro que sempre quis escrever”, revela. “É sobre meu pai.”

O que ela pensa da chamada “regra de Goldwater”? Trata-se de uma convenção adotada pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) e que deve seu nome a Barry Goldwater, o candidato presidencial republicano derrotado em 1964.

Muitos psiquiátras entrevistados pela revista Fact haviam descrito Goldwater como mentalmente instável, entre outras razões, por falar tão despreocupadamente sobre a ideia de usar armas nucleares contra os soviéticos. O artigo causou tanta controvérsia que a APA declarou antiético que psiquiatras falassem sobre figuras públicas que não haviam examinado.

Mary reage vivamente à minha pergunta. “A regra de Goldwater é absurda”, diz ela. “Quer dizer que podemos falar da saúde física de um candidato, mas não de sua saúde mental? O que é mais importante? Afinal, Franklin Delano Roosevelt teve pólio e andava de cadeira de rodas, mas foi perfeitamente capaz de ser presidente e de nos conduzir à vitória na Segunda Guerra Mundial. Isso começa com o absurdo de se separar saúde mental e física, sendo que são a mesma coisa. Não existe um dever de avisar o público?”

Na mesma manhã da entrevista, o tio de Mary especulou no Twitter sobre a possibilidade de adiar a eleição de novembro. Ele já declarou diversas vezes que vai ser a eleição mais fraudulenta da história americana. Existe algo que Donald Trump não faria para se conservar no poder, na opinião dela?

“Não”, responde Mary. “A única coisa que interessa a ele é salvar a própria pele. Ele é o tipo de homem que, se sente que está afundando, quer arrastar todo o mundo para baixo com ele.”

Ela se lança num longo discurso sobre como os verdadeiros culpados da América são aqueles que criam condições para seu tio fazer o que ele faz –pessoas como William Barr, o secretário de Justiça, Mike Pompeo, o secretário de Estado, e Mitch McConnell, o líder republicano no Senado.

“Não é que gostem dele ou que se importem se ele vai para a prisão”, afirma. “É que estão conquistando tanto poder com isso, e não querem ver isso acabar.”

O que Donald Trump vê quando se olha no espelho? “Sempre tive na cabeça a ideia de que o que Donald enxerga quando se olha no espelho é alguém que parece Adônis”, responde. “Mas, por trás desse reflexo, ele se enxerga como um garotinho ao lado de meu avô.”

Ela acrescenta que Fred Jr. está deitado no chão diante deles.

E o que dizer de seus primos, Donald Jr., Ivanka, Eric e Tiffany? Ela menciona fotos infames de Donald Jr. e Eric em pose triunfal ao lado de vários grandes animais selvagens mortos na África, incluindo um leopardo, um elefante, um búfalo e um antílope.

“Um elefante?”, diz ela. “Isso é ainda pior que um leopardo ou um rinoceronte, porque que mal um elefante faz na vida? É grotesco. É como um esforço grotesco para provar que são fortões, e, afinal, é difícil matar um elefante? Acho que não é tão difícil assim se você tem uma bazuca.”

A família tentou impedir a publicação de seu livro, alegando que infringe um acordo de não divulgação de fatos que ela assinou para resolver um processo depois de ter sido deserdada.

A última vez que Mary viu seu tio foi numa reunião da família na Casa Branca pouco depois da posse dele.

Quando seu livro foi lançado, Donald Trump postou no Twitter que a “sobrinha raramente vista” é um “caos” que “sabe pouco a meu respeito, fala coisas falsas sobre meus pais maravilhosos (que não a suportavam!) e sobre mim e que violou seu acordo de não divulgação”.

Eles vão se reencontrar algum dia? “Não”, diz Mary. E, depois de uma pausa: “Honestamente, acho que se eu estivesse disposta a fazer alguma coisa com ele na TV, para melhorar sua audiência, penso que ele toparia. Mas acho justo que nenhum dos outros da família queiram me ver de novo, nunca mais.”

Parece um clima lúgubre para encerrar a entrevista. Sua vida inteira provavelmente passará a ser definida por esse míssil literário de véspera eleitoral atirado contra o tio. Não são muitas pessoas que podem dizer que sobreviveram aos Trump. Mary dá risada ao ouvir a afirmação.

“Alguém certa vez comparou os Trump aos Bórgias [a família espanhola-aragonesa corrupta que conquistou o Vaticano]”, diz. “Mas os Bórgias, pelo menos, patrocinavam as artes.”

Tradução de Clara Allain

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