Lutamos contra o racismo com ferramentas da nossa época, diz fundadora do Black Lives Matter

Opal Tometi relembra origem do movimento e faz conexões entre atos por George Floyd e pandemia

Patti Waldmeir
Financial Times

Opal Tometi, uma das três cofundadoras do Black Lives Matter (vidas negras importam), volta à origem de um movimento que inspirou neste ano os maiores protestos antirracismo em meio século.

Foi em 2013 e, "como todo mundo", ela acompanhava o julgamento de George Zimmerman, que acabou sendo absolvido pelo assassinato de um adolescente afro-americano, Trayvon Martin, na Flórida.

"Assistir ao caso partiu meu coração", diz Tometi. "Fiquei especialmente abalada porque meu irmão mais novo tinha 14 anos na época." Ela temia que algo parecido pudesse acontecer com ele um dia.

Opal Tometi, cofundadora do Black Lives Matter, movimento contra o racismo, fotografada em São Paulo
Opal Tometi, cofundadora do Black Lives Matter, movimento contra o racismo, fotografada em São Paulo - Karime Xavier - 24.jul.19/Folhapress

"Chorei muito... E então entrei na internet e vi que Alicia Garza [que ela havia conhecido em um programa de liderança] colocou um post no Facebook: 'Pessoas negras, eu nos amo, nossas vidas importam'."

Patrisse Cullors, a terceira cofundadora, "colocou uma hashtag nos comentários, e foi #blacklivesmatter".

Depois de entrar em contato com Garza, Tometi comprou o domínio BlackLivesMatter.com. Conseguiu uma página no Facebook e no Twitter e procurou outros ativistas negros para dizer: "Por que não usar isto como guarda-chuva?". Sete anos e uma pandemia depois, o Black Lives Matter se tornou uma causa que se estende por todo o mundo.

A ativista de 35 anos vê uma conexão entre a experiência americana com o coronavírus e a escala dos protestos que se seguiram à morte de George Floyd no final de maio?

"Há algo realmente poderoso no que a pandemia fez pela humanidade —ela criou uma sensibilidade real à nossa própria fragilidade", diz ela. "Isso deu às pessoas a oportunidade de refletir sobre suas próprias vulnerabilidades."

Tometi cresceu na comunidade nigeriano-americana, muito unida, num subúrbio de Phoenix, no Arizona, onde frequentou escolas quase totalmente brancas. Muitas vezes era a única criança negra na classe. Na primeira série, um colega a chamou por uma palavra ofensiva para negros: ela não sabia o que significava.

Será que o slogan do Black Lives Mater finalmente motivará as pessoas a erradicar o racismo sistêmico de uma vez? Ou fracassará, como o movimento pelos direitos civis dos EUA nas décadas de 1950 e 1960, que pode reivindicar grandes conquistas em termos de dessegregação e igualdade de direitos, mas deixou muitos afro-americanos mergulhados na pobreza e expostos à violência racial?

Tometi experimentou o ativismo social no colégio e na faculdade. Ela atribui ao estudo de história na graduação (Universidade do Arizona) e ao mestrado em comunicações (Universidade Estadual do Arizona) a elaboração de seu trabalho no Black Lives Matter.

"Muito do que tenho observado ao longo dos anos é a retórica dos movimentos sociais e como advogar com eficácia", diz ela, acrescentando que "é meio maluco viver minha teoria diante dos meus olhos e ajudar a contribuir para isso".

Na época daquela primeira hashtag, ela era diretora-executiva da Black Alliance for Just Immigration (aliança negra por imigração justa), um grupo de direitos dos imigrantes.

Assim que o Black Lives Matter começou, Tometi escolheu as cores amarelo e preto, que são usadas pelo movimento até hoje. "Amarelo é a minha cor preferida", diz ela.

"Eu sabia que [o caso de Trayvon Martin] seria um daqueles momentos definitivos da história", continua Tometi. Um ano após o nascimento da hashtag, um policial branco matou o adolescente negro Michael Brown em Ferguson, no Missouri, e o Black Lives Matter foi às ruas.

Em setembro de 2014, ativistas antirracismo de todo o país convergiram para Ferguson para uma Marcha da Liberdade, lembra ela, com algo que soa como nostalgia em sua voz. "Foi um ponto de virada e tanto para o desenvolvimento do Black Lives Matter como plataforma... Mas também como um movimento mais amplo."

Após os protestos da Marcha da Liberdade e do Outubro em Ferguson, no mês seguinte, que atraíram uma coalizão multirracial de ativistas de todos os Estados Unidos, o slogan foi divulgado pela mídia e se tornou uma história global.

O Black Lives Matter não era apenas uma plataforma online, "tratava-se de agir offline", diz ela. "Ser capaz de comparecer fisicamente e trabalhar ao lado de ativistas liderando o caminho em Ferguson foi um momento realmente poderoso e transformador para todos nós."

Ela continuou protestando e construindo a presença online do que equivale a uma marca, e ramificações do movimento cresceram em torno de questões locais nos Estados Unidos, sem muita organização ou liderança nacional.

Então veio a morte de George Floyd. Isso, diz Tometi, "foi filmado de forma que o mundo inteiro pudesse ver, e acho que precipitou um momento de reflexão: é esse o tipo de mundo onde eu quero viver?".

Parece que muitos americanos ouviram: em uma notável pesquisa Gallup publicada no início de junho, no auge dos protestos antirracismo, 19% dos americanos entrevistados disseram que "relações raciais ou racismo" era o problema mais importante que os EUA enfrentam, contra apenas 4% no mês anterior e o nível mais alto desde 1968, o pico dos protestos pelos direitos civis.

Na década de 1960, houve os tumultos mortais em Detroit em 1967 e o exame de consciência nacional que se seguiu, culminando no relatório da Comissão Kerner de 1968, que advertia que "nossa nação está se movendo em direção a duas sociedades, uma negra, uma branca —separadas e desiguais".

Martin Luther King Jr. declarou isso uma "advertência médica de que a morte se aproxima, com uma prescrição para toda a vida" —mas ele foi assassinado logo depois, antes que pudesse trabalhar para ajudar os Estados Unidos a cumprirem a prescrição da Comissão Kerner para a igualdade racial.

Diferentemente de alguns jovens ativistas antirracistas que negam que essa geração anterior de líderes dos direitos civis tenha alcançado alguma coisa, Tometi se insere firmemente na tradição.

"O nosso movimento é parte de uma longa busca por justiça... Não há um novo grande plano mestre. Mas sabemos que a justiça pela qual pedimos há gerações ainda não foi alcançada. Pegamos o bastão e estamos usando as ferramentas da nossa época", diz ela.

"Tenho certeza de que em algum momento teremos uma praça Black Lives Matter em todas as grandes cidades", acrescenta ela. Essas três palavras já podem ser vistas do espaço sideral, pintadas em uma rua diante da Casa Branca.

"Mas não é disso que estamos falando. Precisamos de um investimento real em nossas comunidades, em nossa segurança e nossa capacidade de acesso a empregos e a educação e moradia de boa qualidade, e não sermos discriminados em todos os aspectos da sociedade."

Uma coisa que mudou desde os anos 1960 é a porcentagem de autoridades eleitas que são afro-americanas. Muitas grandes cidades americanas têm prefeitos negros há décadas.

Por que a representação negra não se traduziu em um declínio nas desigualdades raciais? As famílias negras que vivem na pobreza nos Estados Unidos caíram de cerca de um terço na década de 1960 para 21% em 2018, mas isso ainda é mais do que o dobro dos 8% de famílias brancas não hispânicas.

"Adoro ter uma conversa mais complexa porque", ela faz uma pausa para dar efeito dramático, "temos que lembrar que o Black Lives Matter começou sob um presidente negro".

"Então, isso nos diz que não é suficiente ter uma representação negra ou negros em cargos de poder; isso não equivale a justiça. Acho que agora temos mais autoridades eleitas negras do que em qualquer época na história. É importante lembrarmos que você pode ter representação pelo valor de face, mas se não mudarmos os sistemas reais..."

O Black Lives Matter não é como um partido político, com organização e liderança centrais, e a própria Tometi não reivindica nenhum papel de liderança: pólos individuais têm ampla autonomia para escolher as questões que são mais importantes para eles localmente.

"Nós nos estruturamos dessa forma descentralizada para que pudéssemos ter mais segurança, para ser bem honesta. Houve assassinatos que realmente desestabilizaram os movimentos", aponta Tometi.

"É também para celebrar a liderança orgânica de pessoas comuns em suas comunidades. Queremos que elas sejam celebradas e elevadas. Elas têm soluções locais que serão mais eficazes do que qualquer coisa [vinda de] alguma grande figura de fora."

Pois o que começou como uma hashtag agora se transformou em um movimento que apoia amplamente, entre outras coisas, propostas para cortar verbas ou abolir as forças policiais em todo o país.

Tometi explica que o verdadeiro objetivo da campanha é transferir as verbas das forças policiais excessivamente militarizadas para pagar assistentes sociais e profissionais de saúde mental para cuidar dos problemas que a polícia não está equipada para lidar.

Por que não dizer "redirecionar" em vez de "retirar fundos", nesse caso?

"Pode parecer polarizador, mas o que está por trás de tudo isso é um convite a examinar como está a segurança. Faz as pessoas pensarem com mais rigor sobre o que está acontecendo."

Uma pesquisa de opinião no auge dos protestos, feita pelo Centro de Pesquisas Pew, descobriu que apenas 25% dos americanos apoiam a redução dos gastos com a polícia, e apenas 12% disseram que deveria haver grandes cortes.

Duas vezes mais afro-americanos apoiam a redução de gastos com a polícia do que brancos, revelou o levantamento, mas menos da metade dos adultos negros (42%) aprova o corte.

Qual é a opinião dela sobre algumas outras posições ativistas que são sinais de alerta para Trump e seus apoiadores, como o boicote ao Quatro de Julho?

Tometi diz que não comemora o feriado nacional da mesma forma que alguns americanos (brancos). "Mas não me importo com um dia de folga", acrescenta, com uma gargalhada desarmante.

Durante a pandemia, muitos americanos tiraram tempo do trabalho para fazer coisas como protestar.

Agora que muitos voltaram a trabalhar, ela teme que os protestos acabem? "Tenho minhas preocupações sobre a longevidade", admite. "Mas estou tentando encorajar as pessoas a se conectarem de uma maneira mais profunda para não permitirmos que a apatia volte."

A América corporativa e branca pode ficar tentada apenas a jogar dinheiro em organizações ativistas negras, em vez de trabalhar por uma mudança real, mas essa não é a solução, diz Tometi.

"A melhor coisa que qualquer um pode fazer", explica, dando peso à palavra "melhor", "é olhar para onde eles têm poder, olhar para onde eles têm privilégios e estar profundamente comprometido em transformar esse espaço", diz ela.

Tometi espera que, no futuro, os Estados Unidos estejam se movendo em direção ao tipo de mudança que os anos 1960 prometeram, mas não cumpriram.

Ela é cautelosamente otimista de que quando fizer 40 anos "as comunidades negras estarão em um lugar fundamentalmente diferente de onde estamos hoje".

"Acho que o que a pandemia nos mostrou é que as coisas podem mudar rapidamente, para melhor ou para pior", afirma. Martin Luther King disse a famosa frase "o arco do universo moral é longo, mas se curva em direção à justiça".

Tometi espera que, a partir deste verão (no hemisfério norte, inverno no Brasil), haja a oportunidade de curvar esse arco um pouco mais rapidamente que antes.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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