Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Trump inverteu lógica da Casa Branca e dobra aposta para repetir virada de 2016

Presidente usa governo a serviço de seus interesses públicos e privados enquanto mantém valores conservadores

Washington

Donald Trump atropelou previsões e chegou à Casa Branca como o presidente mais controverso da história dos EUA.

Após uma campanha agressiva e preconceituosa contra Hillary Clinton, houve quem acreditasse que o peso do cargo mais alto do Executivo modularia seu estilo e personalidade, mas foi Trump quem redesenhou a Presidência americana.

O republicano inverteu a lógica da Casa Branca e agora se mostra disposto a dobrar a aposta para tentar repetir a virada de 2016 e conquistar a reeleição.

Trump usou o governo a serviço de seus interesses públicos e privados, com apoio de uma base que, em troca, demanda a manutenção dos valores conservadores do país.

Trump, sentado, fala
Trump fala na Casa Branca em vídeo passado durante a convenção do partido republicano - Republican National Convention - 24.ago.2020/Reuters

A ideia de que os democratas mergulharão os EUA no socialismo foi o grande alicerce do presidente para manter essa dinâmica e, como se viu na convenção republicana nesta semana, será mais uma vez o principal argumento do presidente para garantir o segundo mandato.

Desde a abertura, na segunda-feira (24), o evento que oficializou Trump candidato à reeleição tem sido a alegoria perfeita do cruzamento da linha entre governo e campanha, que deve ter seu ápice nesta quinta (27), quando o presidente fará o discurso para formalizar sua candidatura de dentro da Casa Branca.

Em razão da pandemia que já matou quase 180 mil pessoas no país, parte da convenção republicana tem sido feita de maneira remota, e os discursos são transmitidos por vídeo.

Aos 74 anos, o republicano precisa renovar a energia dos que votaram nele em 2016. E mais: tenta ao menos amedrontar eleitores moderados que o apoiaram há quatro anos, mas, desta vez, cansados de sua retórica belicosa, têm flertado com o democrata Joe Biden.

O discurso desta quinta servirá para Trump cristalizar a mensagem de que o ex-vice de Barack Obama é um radical de esquerda que vai assolar o país em um caos sem precedentes —Biden, por sua vez, é um líder do establishment de seu partido e tem conduzido uma campanha centrista.

A ideia de que os democratas são anarquistas que vão abolir os subúrbios e prejudicar a classe trabalhadora é mais um elemento que deve ser repetido por Trump e remete a seus ataques à oposição durante os protestos antirracismo e contra a violência policial, apoiados por Biden.

As manifestações, porém, eram quase sempre pacíficas, com casos pontuais de violência e depredação.

Do lado da narrativa, Trump aposta que a ofensiva que deu certo contra Hillary em 2016 pode funcionar neste ano contra Biden, enquanto no campo da mobilização, acha que é possível fazer com que mais gente decida votar nele em novembro, principalmente eleitores da classe trabalhadora das áreas rurais do país.

Em desvantagem nas pesquisas nacionais e na maior parte dos estados-chave, o presidente sabe que pode perder no voto popular, como há quatro anos, e faz sua investida sobre grupos específicos —pessoas brancas e conservadoras— em estados que podem garantir sua vitória no Colégio Eleitoral, sistema de voto indireto que escolhe o chefe da Casa Branca.

De acordo com analistas, a sensação é que o país vive um momento parecido com agosto de 2016, quando as pesquisas também indicavam Trump atrás de sua adversária e grande parte da imprensa americana não acreditava que o republicano pudesse vencer.

Naquele ano, porém, havia outros fatores em jogo, como o cansaço de parte dos eleitores com a política tradicional e Trump se apresentando como um outsider, um homem de negócios que nada tinha a ver com o status quo.

Apesar das diferenças, o presidente parece acreditar que é possível repetir a receita.

Nas três primeiras noites da convenção, em meio a um leque de oradores que defendeu seu legado ignorando ou minimizando a pandemia, o racismo e a crise econômica —hoje os grandes temas do país—, uma de suas filhas, Tiffany Trump, ficou responsável pela máquina do tempo.

Em discurso na terça (25), ela reforçou a ideia de que a eleição deste ano é "um luta da liberdade contra a repressão" e disse que seu pai é o único capaz de desafiar o establishment americano.

"Se você crê em viver sua vida sem restrições, então a escolha nessa eleição é clara, pelo valores americanos", disse Tiffany.

Um dos presidentes mais populares nas fileiras do Partido Republicano, Trump monopolizou a convenção e fez aparições em todos os dias do evento, guardando para esta quinta sua fala mais importante.

Na abertura, fez um discurso de quase uma hora, em que repetiu habituais ataques e disse que os democratas "estão usando a Covid-19 para roubar as eleições".

Sem provas, o presidente repete que o voto por correio é passível de fraude, em uma tentativa de contestar a lisura do pleito. O discurso, no entanto, parece uma vacina produzida por quem sabe que está em difícil situação eleitoral e não encontra base na avaliação de especialistas ou no histórico de eleições, com índices baixíssimos de irregularidade —o voto por correio é uma das formas tradicionais de ir às urnas nos EUA.

Ao lado da cruzada contra o voto à distância, as menções à nomeação de juízes conservadores na Suprema Corte, políticas protecionistas e anti-imigração, posição contra o aborto, discurso da lei e da ordem e o direito dos cidadãos americanos de possuírem armas —estabelecido na Constituição— terminam de formar o arco de bandeiras que se repetiu durante a semana na convenção.

Trump começou o ano como favorito para novembro, surfando nos bons índices econômicos, mas sua popularidade despencou dez pontos percentuais à medida que a pandemia avançava e ficava claro que sua resposta como líder era errática e ineficaz —os EUA são hoje o primeiro país no mundo em número de infecções (5,8 milhões) e mortos (179 mil) por Covid-19.

Mas sua aprovação continua na casa dos 40%, e a vantagem de Biden, apesar de ainda ser significativa, caiu um pouco desde julho. Até agora, Trump só acenou à sua base, sem espaço para conciliação. Resta saber se isso será suficiente, como em 2016, ou se o sentimento anti-Trump, que uniu boa parte da centro esquerda à centro-direita americana vai ser capaz de mudar a rota desta vez.

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