Descrição de chapéu China

Em meio a crise diplomática, jornalistas australianos fogem da China para evitar prisões

Dois últimos correspondentes da Austrália deixam o país; apresentadora é acusada de ameaça à segurança nacional

Pequim e Sydney | AFP e Reuters

A deterioração das relações entre China e Austrália ganhou um novo capítulo depois que dois jornalistas australianos, os últimos correspondentes do país em território chinês, decidiram fugir por questões de segurança, antes que fossem presos.

Bill Birtles, da Australian Broadcasting Corporation (ABC), e Michael Smith, da Australian Financial Review (AFR), trabalhavam em Xangai e Pequim e deixaram a China na madrugada desta terça-feira (8).

Segundo Smith, sete policiais chineses entraram em sua casa na semana passada e o cercaram enquanto liam uma declaração que o designava como parte envolvida em uma investigação de segurança nacional.

"Eles colocaram um holofote no meu rosto. Foi intimidador, eu estava ficando com muito medo", contou Smith à agência de notícias Reuters.

"Estávamos preocupados que fosse um movimento coordenado. Isso indica que era político. Éramos os únicos dois jornalistas que restaram na China trabalhando para a mídia australiana", acrescentou, referindo-se a Birtles, para quem a ação pareceu "muito, muito política".

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, durante entrevista coletiva em Pequim - Carlos Garcia Rawlins - 8.abr.20/Reuters

Os dois buscaram abrigo na embaixada em Pequim e no consulado em Xangai, enquanto diplomatas negociavam com autoridades chinesas para que eles recebessem permissão para deixar o país.

A negociação só avançou quando os dois jornalistas aceitaram ser interrogados sobre suas relações com a australiana Cheng Lei, apresentadora da TV estatal chinesa detida em agosto.

Após o interrogatório, eles foram escoltados por agentes de segurança até o aeroporto de Xangai e embarcaram em um voo para a Austrália. As saídas deixam as organizações de mídia australianas sem correspondente na China pela primeira vez desde os anos 1970.

"Este incidente visando dois jornalistas, que cumpriam suas obrigações normais de reportagem, é lamentável e perturbador", disse a AFR, em um comunicado.

"É decepcionante que, depois de muitos anos, a Austrália não tenha uma organização de mídia presente na China", disse a chanceler australiana, Marise Payne.

Nesta terça, o Ministério das Relações Exteriores da China disse que o interrogatório dos dois homens era uma aplicação normal da lei. "Enquanto os jornalistas respeitarem a lei, não há razões para preocupação", afirmou o porta-voz da diplomacia chinesa, Zhao Lijian.

Embora não tenha apresentado evidências ou qualquer detalhe sobre o caso de Cheng, detida por quase um mês sem uma acusação formal, Zhao afirmou que a jornalista foi presa por colocar em risco a segurança da China.

Cidadã australiana, Cheng trabalhava em Pequim desde 2012 como jornalista especializada em economia e era uma das principais apresentadoras da emissora CGTN, uma afiliada internacional da TV estatal chinesa CCTV.

Segundo Zhao, a primeira autoridade de Pequim a comentar publicamente o caso da jornalista, "os direitos e os interesses legítimos de Cheng estão totalmente garantidos". Ele também disse que a China espera que o lado australiano possa trabalhar para aumentar a confiança mútua e expandir a cooperação.

Cheng Lei, jornalista australiana detida em Pequim, em vídeo divulgado pelo governo da Austrália - Departamento de Relações Exteriores e Comércio da Austrália/Divulgação/AFP

A detenção de Cheng e a saída dos dois jornalistas, entretanto, tornaram-se novos tópicos no histórico recente de tensões entre os dois países, que aumentaram quando o governo australiano pediu, em abril, uma investigação internacional sobre as origens do coronavírus e a resposta inicial de Pequim à pandemia.

Desde então, o regime chinês tem reagido com medidas diplomáticas e econômicas que afetam diretamente os interesses australianos, como a suspensão das importações de carne bovina e de cevada e a aplicação de tarifas mais pesadas a outros produtos.

Em julho, a Austrália também irritou o regime de Pequim ao anunciar a suspensão do tratado de extradição com Hong Kong e a ampliação do tempo de vistos em resposta à lei de segurança nacional aprovada pela China.

No mesmo mês, Camberra emitiu um alerta para viajantes de que os cidadãos australianos correm risco de detenção arbitrária na China. Segundo a chanceler do país, a advertência permanece apropriada e inalterada.​

Tensões diplomáticas envolvendo jornalistas de outras nacionalidades em território chinês não são novidade. O Clube de Correspondentes Estrangeiros da China disse, nesta segunda-feira (7), que 17 profissionais foram expulsos do país no primeiro semestre de 2020.

Em fevereiro, a China revogou as credenciais de imprensa de três jornalistas do Wall Street Journal depois de o jornal se recusar a pedir desculpas por uma coluna de opinião que chamava a China de "o verdadeiro louco da Ásia".

Os jornalistas eram os americanos Josh Chin e Chao Deng e o australiano Philip Wen. A decisão de Pequim veio depois de Washington dizer que começaria a tratar cinco entidades de mídia estatais chinesas com operações nos EUA da mesma forma que trata as embaixadas estrangeiras.

Em março, Pequim também retirou as credenciais de cerca de uma dúzia de jornalistas do New York Times, do Wall Street Journal e do Washington Post.

As expulsões se seguiram à iniciativa de Washington de reduzir de 160 para 100 o número de jornalistas autorizados a trabalhar nos EUA em quatro veículos da mídia estatal chinesa.

Nesta segunda, a China não renovou credenciais de imprensa expiradas de profissionais de veículos americanos como The Wall Street Journal, Bloomberg e CNN. Os jornalistas receberam cartas que lhes dão autorização para trabalhar por mais dois meses com os documentos expirados.

A decisão foi vista como mais uma resposta de Pequim aos EUA, onde jornalistas chineses aguardam a renovação de seus vistos de trabalho e foram autorizados a permanecer em solo americano até o início de novembro.

Nesta terça-feira, a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, fez um discurso anti-China durante um fórum de segurança com a participação de países asiáticos e do Pacífico.

Sem mencionar diretamente o regime liderado por Xi Jinping, que considera Taiwan uma província rebelde, ela pediu que países democráticos se unam para combater o expansionismo regional da China e suas "ações agressivas unilaterais".

"Esta aliança garantirá os valores que mais prezamos: liberdade, segurança, direitos humanos e democracia."

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior desta reportagem afirmava incorretamente que os jornalistas australianos foram expulsos da China. Na verdade, eles fugiram do país para evitar que fossem presos pelo regime chinês. O texto foi corrigido.

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