Descrição de chapéu The New York Times

Policiais são suspensos após asfixiarem homem negro com capuz nos EUA

Imagens divulgadas de duas mortes causadas por agentes dão novo fôlego a protestos antirracismo

Nova York e Washington | The New York Times e Reuters

Os policiais envolvidos na detenção e morte por asfixia de Daniel Prude, um homem negro, foram suspensos depois de o vídeo do incidente ocorrido março se tornar público nesta semana, disse a prefeita de Rochester, no estado de Nova York, nesta quinta-feira (3).

A família da vítima divulgou na quarta (2) imagens da câmera acoplada ao uniforme de um dos policiais que participaram da abordagem. Elas mostram um grupo de agentes colocando um capuz sobre a cabeça de Prude, que aparece gritando ajoelhado no chão, algemado e nu. Um deles foi ouvido dizendo: "Você quer colocar isso [o capuz] nele?".

O uso desse tipo de capuz, que diminui o risco de os policiais contraírem a Covid-19, tornou-se procedimento padrão durante a pandemia do novo coronavírus —quando foi abordado, Prude disse aos policiais que estava infectado.

Imagem da gravação da abordagem policial de Daniel Prude mostra a vítima sentada no chão e encapuzada; o homem negro morreu sete dias depois de ser detido por agentes em Rochester, no estado de Nova York
Imagem da gravação da abordagem policial de Daniel Prude mostra a vítima sentada no chão e encapuzada; o homem negro morreu sete dias depois de ser detido por agentes em Rochester, no estado de Nova York - Departamento de Polícia de Rochester - 23.mar.20/AFP

No vídeo, ele grita: "Tire isso da minha cara!" e "Você está tentando me matar!" antes que sua fala fosse abafada. Os policiais pedem para ele se acalmar e parar de cuspir.

Minutos depois, a gravação mostra um oficial ajoelhado nas costas de Prude, que está em silêncio, a neve caindo ao redor deles. Alguém diz: "Comece a RCP [ressuscitação cardiopulmonar]".

O homem é então colocado dentro de uma ambulância deitado em uma maca. Ele morreu sete dias depois, no hospital.

A família de Prude obteve o vídeo da prisão por meio de um pedido baseado na lei de acesso à informação, relatou a emissora WROC-TV, afiliada da CBS.

O relatório da autópsia oficial afirma que o caso foi um homicídio causado por "complicações de asfixia em ambiente de contenção física", e que um "delírio excitado” e a intoxicação aguda por fenciclidina, uma droga alucinógena também chamada de PCP, contribuíram para a morte, relatou o New York Times.

A família de Prude afirmou que ele havia sido diagnosticado com doenças mentais. Seu irmão, Joe Prude, disse que ligou para a polícia no dia 23 de março porque estava preocupado após ele sair de casa naquela noite.

"Eu fiz uma ligação por causa de meu irmão para pedir ajuda, não para ele ser linchado", disse Joe. Os familiares pediram a prisão dos policiais envolvidos.

O reverendo Lewis Stewart, presidente do United Christian Leadership Ministry of Western New York, também criticou a ação dos agentes. "O sr. Prude precisava de intervenção terapêutica. Em vez disso, o que ele recebeu foi uma execução."

Após a divulgação do vídeo na quarta-feira, protestos eclodiram no centro de Rochester, uma cidade perto do Lago Ontário, cerca de 480 km ao norte de Nova York. A polícia lançou spray de pimenta contra os manifestantes e prendeu nove pessoas, relatou o jornal local Democrat and Chronicle.

O chefe da polícia da cidade, La'Ron Singletary, disse a repórteres na quarta-feira que investigações internas e criminais estavam em andamento.

"Eu sei que existe uma retórica que diz que há um encobrimento do caso. O que está sendo feito não é um encobrimento", disse Singletary.

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, disse em um comunicado que seu escritório está investigando a morte de Prude, conforme exige a Lei do estado de Nova York sempre que a polícia está envolvida na morte de um civil.

Na quarta-feira, a prefeita de Rochester, Lovely Warren, chamou o vídeo de muito perturbador. "O nosso departamento de polícia, nosso sistema de saúde mental, nossa sociedade, e eu própria falhamos gravemente no caso do sr. Daniel Prude", disse ela, que é negra.

O episódio em Rochester ocorreu dois meses antes do assassinato de George Floyd por policiais de Minneapolis, incidente que gerou protestos internacionais contra a brutalidade policial e a injustiça racial nos Estados Unidos.

Mais recentemente, o tratamento violento de Jacob Blake pela polícia de Kenosha, no Wisconsin, deu novo fôlego aos protestos antirracismo nos EUA. Em vídeo gravado por testemunhas, é possível ver Blake, 29, afastar-se dos policiais que o abordaram e caminhar em direção a seu carro, onde estavam seu três filhos. Os agentes, então, abrem fogo e atingem o homem negro sete vezes.

Blake está internado em um hospital e ficou paralisado da cintura para baixo.

Os vídeos das mortes de Prude, Blake e Floyd não foram os únicos a gerar indignação nos EUA neste ano.

A polícia de Washington D.C divulgou nesta quinta imagens da morte de Deon Kay, 18, baleado no peito na tarde de quarta durante uma perseguição a pé.

A gravação, também feita por uma câmera acoplada ao uniforme de um dos policiais, mostra uma cena breve e caótica. Quando um carro da polícia para no estacionamento de um complexo de apartamentos, um oficial salta e começa a perseguir alguém. O agente se vira, vê Kay correndo alguns metros atrás dele e dispara um único tiro no peito dele.

A polícia identificou o policial como Alexander Alvarez, que ingressou no departamento em 2018. Ele está em licença administrativa.

Momentos depois, o vídeo da polícia congela o quadro e circula o que parece ser uma pistola na mão de Kay. Mas não está claro se a vítima, cercada de policiais, pretendia usar a arma ou jogá-la fora.

Imediatamente após o tiro, enquanto outros policiais cuidam de Kay, o agente que disparou começa a procurar freneticamente pela arma do suspeito na grama ao redor. Ela foi encontrada a cerca de 30 metros do local, uma distância que o chefe do Departamento de Polícia Metropolitana, Peter Newsham, disse que "parece grande demais para uma arma que foi arremessada".

Kay foi levado a um hospital, onde foi declarado morto. A polícia prendeu dois suspeitos e um terceiro escapou, afirmou Newsham.

“Todos podem assistir ao vídeo por si próprios”, disse ele. “Você pode pausar a gravação quadro por quadro e tirar suas conclusões. Faremos o mesmo quando conduzirmos nossa investigação.”

A prefeita de Washington, Muriel Bowser, que também é negra, disse que seu governo se apressou em divulgar o vídeo “para ajudar o público a responder a algumas perguntas. O que eu sei é que nosso oficial estava tentando tirar armas da rua e o que eu sei é que ele encontrou alguém com uma arma”.

As autoridades não divulgaram as imagens feitas pelos demais policiais que participaram da abordagem.

Uma legislação aprovada em regime de emergência pelo Legislativo local em junho, após a morte de Floyd, exige que a polícia divulgue qualquer filmagem de tiroteios ou incidentes de uso da força que tenham vítimas dentro de cinco dias. Newsham disse que seu departamento trabalhou durante a noite para tornar as imagens públicas bem antes desse prazo.

“Um dos motivos pelos quais o divulgamos tão rapidamente é porque há muita desinformação no clima atual, não apenas em Washington D.C., mas em todo o país. A desinformação pode levar a alguns distúrbios em nossa cidade, e essa é a última coisa que queremos”, disse.

Newsham descreveu Kay como um membro de gangue já conhecido pela polícia, mas não entrou em detalhes. Segundo ele, os policiais se dirigiram ao local por causa de um vídeo postado em redes sociais que mostrava dois jovens negros, um deles usando uma máscara, exibindo armas dentro de um carro.

“Eles reconheceram o sr. Kay quando viram a transmissão ao vivo. Eles o conheciam pelo nome", disse o oficial. "Eu sei que ele é um membro de gangue da área e sei que ele teve várias passagens no sistema de justiça criminal. Tenho certeza de que Deon Kay passou despercebido por várias redes de assistência social antes da tarde de ontem.”

O escritório do procurador dos Estados Unidos conduzirá uma investigação independente do episódio.

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