Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Tudo que você queria saber sobre voto por correio. E que Trump não quer que você saiba

Votação por correspondência é usada há anos nos EUA de forma segura, mas presidente diz que modalidade pode gerar fraudes na eleição

São Paulo

Com a pandemia de coronavírus, o uso do voto por correspondência deve aumentar consideravelmente nas eleições presidenciais dos EUA em 2020 —o que também deve atrasar a divulgação completa dos resultados.

O presidente Donald Trump tem repetido com frequência a acusação de que o voto por correio levará a fraudes. O republicano chegou a sugerir que eleitores da Carolina do Norte votem duas vezes, presencialmente e por correio, o que é ilegal.

As acusações têm fundamento? A resposta simples é não. De acordo com um estudo da Heritage Foundation, um think tank conservador, desde 1988 cerca de 250 milhões de cédulas foram enviadas pelo correio, e destas apenas 208 eram fraudulentas e resultaram em condenações.

Adesivos com a frase 'eu votei pelo correio' em conselho eleitoral em Charlotte, na Carolina do Norte
Adesivos com a frase 'eu votei pelo correio' em conselho eleitoral em Charlotte, na Carolina do Norte - Logan Cyrus - 4.set.20/AFP

Entretanto, a eleição presidencial de 2000 entre o republicano George W. Bush e o democrata Al Gore acabou decidida na Suprema Corte devido à denúncia de fraude em votos na Flórida, parte deles em cédulas por correspondência.

De acordo com a campanha de Gore, mesários em um condado majoritariamente republicano permitiram que membros desse partido completassem formulários de voto por correio incompletos, o que não ocorreu em outros condados.

Os democratas queriam que todos os votos por correspondência da Flórida fossem anulados, o que daria a vitória da eleição a Gore. A Suprema Corte negou a recontagem de votos, e Bush foi nomeado presidente.

Muito mais comum são votos pelo correio rejeitados por preenchimento incorreto, assinatura inválida ou por não terem sido entregues a tempo.

De acordo com o site FiveThirtyEight, votos por correspondência de eleitores negros na Carolina do Norte estão sendo rejeitados quatro vezes mais do que os de eleitores brancos.

Para pesquisadores da Universidade da Califórnia, essa discrepância se explica pelo fato de que muitos eleitores negros estão votando a distância pela primeira vez, e pessoas que nunca votaram assim antes tendem a cometer mais erros. Além disso, nem sempre o eleitor é notificado a tempo de corrigir a cédula.

Mas como funciona o voto a distância em uma das maiores democracias do mundo?

Nos EUA, todo o processo eleitoral é organizado pelos estados, e isso inclui o voto por correspondência. Cada um decide como vai organizar a votação por correio, e não há lei federal sobre a modalidade.

Assim, o governo só tem responsabilidade sobre os votos de membros das Forças Armadas no exterior. A Casa Branca é, porém, responsável pela logística, por meio do serviço postal, uma empresa estatal.

Cédula de votação por correspondência e formulários na cidade de Raleigh, na Carolina do Norte 
Cédula de votação por correspondência e formulários na cidade de Raleigh, na Carolina do Norte  - Jonathan Drake - 4.set.20/Reuters

A apuração acontece em duas etapas. Primeiro, a cédula é autenticada. Um órgão estadual verifica se a assinatura é compatível com o documento do eleitor e, caso sim, a libera para contagem.

Essa etapa pode acontecer imediatamente após o recebimento da cédula ou a partir de uma data específica. Alguns estados só permitem que a cédula seja preparada no dia da eleição, o que atrasa a divulgação do resultado.

Em seguida, o voto é contado. Assim como na primeira etapa, alguns estados realizam a contagem imediatamente, alguns dias antes da eleição, outros somente no dia do pleito ou ainda depois que as urnas fecham.

Em todos os estados, os resultados da votação postal só são anunciados junto com a apuração dos votos presenciais. Na Califórnia, em 2016, a contagem completa só terminou um mês depois da eleição.

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