Arce toma posse na Bolívia com crítica à antecessora e chamado a reconciliação

Novo presidente indicou em discurso que prioridade de governo será recuperação da economia

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Buenos Aires

Luis Arce, 57, tomou posse como presidente da Bolívia na manhã deste domingo (8), em La Paz, com um discurso duro e crítico à gestão de sua antecessora, Jeanine Áñez —que não compareceu ao evento.

"Estivemos quase um ano sob esse governo 'de facto', que havia prometido eleições rápidas e democráticas. Não cumpriram o prometido. Lançaram-se a uma guerra interna e sistemática contra o povo. Governaram por meio do medo, disseminaram o racismo e usaram a pandemia para promover um governo ilegal e ilegítimo", disse Arce no começo de seu discurso.

Eleito no último dia 18 em primeiro turno, com mais de 55% dos votos, ele recebeu a faixa presidencial das mãos de seu vice, David Choquehuanca, na Assembleia Legislativa da Bolívia.

Luis Arce, novo presidente da Bolívia, durante cerimônia de posse, em La Paz
Luis Arce, novo presidente da Bolívia, durante cerimônia de posse, em La Paz - AFP

Arce afirmou que "em um ano houve retrocessos em todas as conquistas de quando estivemos no governo [referindo-se à gestão de Evo Morales, da qual foi ministro da Economia]. Não souberam lidar com a crise econômica e com a crise sanitária causada pelo coronavírus", completou.

"Nossa economia está no meio de uma recessão profunda, nosso país passou de líder no crescimento econômico da região a uma das maiores quedas. O governo 'de facto' colocou a culpa toda na pandemia, mas isso não é correto. Há alternativas para reativar a economia, e vamos tomá-las nos próximos meses."

Arce criticou, também, o fato de a gestão Añez ter acumulado dívidas e aumentado a emissão monetária, causando inflação. Por outro lado, ainda que tenha feito novas críticas a Añez, o novo presidente fez um chamado à reconciliação.

"Faz quase um ano que a democracia foi mutilada e que indígenas e trabalhadores foram chamados de terroristas. Além disso, queimaram nossa 'wiphala' [emblema que simboliza os povos indígenas dos Andes], que é como queimar a nós mesmos. Mas não buscaremos vingança, buscaremos reconciliar nossa amada pátria, que é plurinacional."

Compareceram à cerimônia os presidentes de Colômbia (Iván Duque), Argentina (Alberto Fernández), Paraguai (Mario Abdo Benítez), além do vice-premiê espanhol, Pablo Iglesias, e o rei Felipe 6º, também da Espanha.

Arce enviou uma mensagem à comunidade internacional, afirmando que a Bolívia "é um país soberano que não aceita a supremacia de nenhuma outra potência e que espera se relacionar com os demais vizinhos sem racismo, sem ameaças e sem pressões". Também disse que espera que "a relação sul-sul se fortaleça e que não se imponha a vontade do norte na América do Sul".

Há dois dias, Arce e Choquehuanca estiveram na cidade de Tiwanaku, importante símbolo dos povos originários da Bolívia. Desde o primeiro mandato de Evo, iniciado em 2006, tornou-se tradição no país que, antes da posse oficial, o eleito compareça a um evento simbólico no qual líderes religiosos aimaras o abençoam e entregam o mandato para chefiar os povos indígenas.

Ali, realizaram uma oferenda à Pachamama (a mãe-terra).

Ainda neste domingo, Evo viajará de Buenos Aires a Jujuy, no norte da Argentina. Na segunda (9), cruzará a fronteira para voltar à Bolívia. Durante três dias, o ex-presidente passará por várias cidades numa caravana com 800 carros, que tem como destino Chimoré, no departamento de Cochabamba. Ele deve chegar no dia 11, quando aliados de Evo farão uma festa de recepção.

No sábado (7), em Buenos Aires, o ex-presidente descartou voltar à política no momento e disse que, no futuro imediato, pretende se dedicar à agricultura e à missão de "formar jovens e compartilhar sua experiência no poder com outros líderes políticos, na Bolívia e fora dela".

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