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Mundo leu Venezuela

Bela narrativa sobre crise na Venezuela mostra que é impossível separar político do humano

'Mãe Pátria', de Paula Ramón, conta drama no qual país se afundou a partir da experiência de sua própria família

Mãe Pátria

  • Preço R$ 69,90 (240 págs.)
  • Autor Paula Ramón
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Ari Roitman

Os idosos não são o foco do noticiário sobre a crise da Venezuela.

Em geral, quando se fala da tragédia no país sob a ditadura de Nicolás Maduro, as vítimas retratadas são jovens: crianças famintas, recém-adultos com as mãos na lama para encontrar ouro em minas insalubres, adolescentes que se expõem em protestos e famílias de classe média em busca de comida no lixo.

Entre os exilados, jovens tentam se reinventar em outros países. Alguns saem a pé ou de carona, por vias legais ou ilegais, movidos pelo desespero. Em todos esses cenários, porém, é raro ver idosos. Por quê?

Trata-se de uma parte da população que está mais vinculada emocionalmente ao lugar em que passou a vida inteira e que, em geral, tem limitações de saúde.

Imigrantes venezuelanos mostram documentos em Cúcuta, na fronteira com a Colômbia
Imigrantes venezuelanos mostram documentos em Cúcuta, na fronteira com a Colômbia - Schneyder Mendoza - 12.mar.20/AFP

"Mãe Pátria", livro da jornalista venezuelana radicada no Brasil Paula Ramón, parte da experiência de sua própria família, principalmente da trajetória de sua mãe, que permaneceu na Venezuela enquanto ela e seus irmãos imigraram, para contar o drama no qual o país se afundou.

A mãe de Ramón, que deixou uma região mais pobre da Venezuela para viver na então rica Maracaibo —um pólo petrolífero—, havia se entusiasmado com o chavismo quando o projeto político teve início, apenas para ver sua vida ser tomada pelas preocupações logísticas que o regime trouxe à rotina da população.

A "mãe pátria" do título da obra é, então, o relato de como a autora teve seu destino e sua relação com a família determinados pela trajetória recente do país. Entre o tom memorialístico e o jornalístico, Ramón constrói uma bela narrativa em que é impossível separar o político do humano.

Além de revelar os bastidores da vida cotidiana no país, o livro é uma mostra de como um lugar em que a verdade se perde entre disputas ideológicas exigiu dos jornalistas criatividade para seguir informando.

Ramón é filha de um espanhol que veio à América Latina depois de viver em um campo de prisioneiros na Segunda Guerra. Na Venezuela, conheceu a mãe dela, uma professora pragmática que adaptava a casa da família às necessidades de segurança, como quem arma um barco para enfrentar uma tempestade.

Seus dois irmãos, pilares importantes da narrativa, mostram outras maneiras de se relacionar com o drama venezuelano. O mais velho não vê outra saída além de partir do país, enquanto o mais novo acredita até certo ponto no regime e vira um policial e defensor do governo.

A Ramón cabe investigar o entorno no qual cresceu e sua própria condição de mulher e jornalista fora do país. "Mãe Pátria" é uma colaboração importante na compreensão do drama venezuelano.

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