Relação entre EUA e Venezuela ajudou campanha de Trump e manteve Maduro de pé

Ex-autoridades que defendiam postura mais dura agora questionam abordagem do governo americano

Caracas e Washington | The New York Times

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu-se à galeria do Capitólio durante seu discurso sobre o Estado da União em fevereiro e reconheceu o jovem líder de oposição da Venezuela Juan Guaidó, pareceu um golpe de mestre político.

A aparição de surpresa de Guaidó —o ápice dos esforços dos falcões da política externa para mudar a estratégia dos EUA na América Latina e desalojar Nicolás Maduro, homem-forte da Venezuela— provocou uma ovação por parte de republicanos e democratas.

"O poder de Maduro na tirania será esmagado e rompido", proclamou Trump.

No campo de batalha eleitoral de 2020 no sul da Flórida, lar de centenas de milhares de expatriados venezuelanos e cubano-americanos que apoiam sua causa, o abraço de Trump a Guaidó gerou uma reação extasiada.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder opositor da Venezuela, Juan Guaidó, durante encontro na Casa Branca, em fevereiro
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder opositor da Venezuela, Juan Guaidó, durante encontro na Casa Branca, em fevereiro - Doug Mills/The New York Times

Mas hoje, véspera do dia da eleição, a abordagem de Trump à Venezuela produziu ao mesmo tempo um certo êxito político e um fracasso na política externa.

Embora as pesquisas recentes mostrem que Trump corre perto de seu rival democrata, o ex-vice-presidente Joe Biden, entre os eleitores latinos da Flórida, as duras sanções de seu governo não conseguiram derrubar Maduro, deixando os interesses chineses, russos e iranianos mais firmemente enraizados na Venezuela. Maduro efetivamente venceu Guaidó, cujo apoio popular desmoronou.

A sobrevivência de Maduro é, em parte, uma parábola da política externa de Washington, na qual ideólogos, doadores e lobistas competem para chamar a atenção de um presidente inexperiente e altamente transacional, distorcendo e modificando a diplomacia dos EUA ao longo do percurso.

O cabo de guerra sobre a posição de Trump na Venezuela opôs ativistas cubano-americanos e políticos da Flórida, que viam Maduro como um representante e fornecedor de energia para o regime comunista de Cuba, contra interesses comerciais pró-Trump que defendiam um envolvimento mais estreito com Maduro.

Eles incluíam um doador bilionário da Flórida; lobistas destacados que ganharam milhões na onda de negócios por influência no primeiro mandato de Trump; e um oligarca venezuelano, hoje sob indiciamento federal, que trabalhou para intermediar os investimentos dos EUA em seu país.

Em jogo não estava apenas o bem-estar dos venezuelanos, mas também o fluxo de bilhões de dólares em petróleo bruto de seu país —e, como Trump passou a acreditar, suas perspectivas de reeleição.

Enquanto Maduro persiste, um dos principais arquitetos da política de Trump na Venezuela deixou seu posto na Casa Branca em setembro. No mesmo mês, outra autoridade se encontrou secretamente no México com um aliado de Maduro em um último esforço para convencer Maduro a renunciar, o que Trump poderia ter anunciado como uma vitória antes de novembro.

Um porta-voz da Casa Branca, John Ullyot, disse que a liderança de Trump levou a uma ampla pressão internacional contra Maduro. "O presidente continua apoiando a população venezuelana para garantir um futuro democrático e próspero", afirmou.

Mas algumas ex-autoridades que defendiam uma postura mais dura em relação à Venezuela agora questionam a abordagem do governo.

"Há uma consideração muito forte pelos doadores, pelos eleitores indecisos na Flórida e por aqueles que são ideologicamente puros quanto à maldade de Cuba", disse Fernando Cutz, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional para Trump e seu antecessor. "A nuance se foi —a diplomacia."

'Você não conhece a Venezuela'

Na primavera de 2017, Brian Ballard, lobista e importante angariador de fundos para Trump na Flórida, organizou uma reunião com duas pessoas que desempenhariam um papel importante na luta pelo futuro da Venezuela.

Uma delas era Raúl Gorrín, que acumulou uma fortuna sob o governo socialista da Venezuela enquanto construía laços estreitos com Maduro e com a oposição. Ele estava no meio de uma onda de interesses estrangeiros que procuraram Ballard, que havia recentemente aberto um escritório em Washington para atender à demanda de lobistas junto ao novo governo.

O outro convidado era Mauricio Claver-Carone, lobista de longa data sobre a política para Cuba e feroz defensor do embargo. Ele havia ficado no Departamento do Tesouro depois de trabalhar na campanha de Trump, mas ambicionava um papel na política externa. Claver-Carone não quis fazer comentários.

Quando os dois conversavam sozinhos, o diálogo ficava acalorado, de acordo com Gorrín, 51. Claver-Carone insistia que o regime estava à beira do colapso; Gorrín argumentava que Maduro estava firme no controle e que os Estados Unidos e a Venezuela se beneficiariam de um degelo.

"Você não conhece a Venezuela", ele se lembra de ter dito.

Trump, um objeto de interesse mútuo, tinha opiniões amorfas, mas estava curioso sobre a Venezuela, aguçado por sua vasta riqueza em petróleo e pelo domínio do país no concurso de Miss Universo, que já havia sido dele, segundo dois ex-assessores da Casa Branca.

Trump também estava focado na reeleição.

"Trump via a Venezuela 110% pelo prisma dos votos eleitorais da Flórida", disse uma ex-autoridade graduada dos EUA, que pediu o anonimato para citar conversas privadas.

Trump ouviu muitas vezes Marco Rubio, o senador cubano-americano da Flórida, que aconselhava sanções mais duras. Sob a liderança de Maduro, a economia do país outrora rico entrou em colapso, seu sistema de saúde faliu e a oposição muitas vezes foi atacada com violência.

Mas Trump oscilava entre a beligerância que irritava até seus assessores agressivos e a suprema confiança em sua habilidade de negociador. No verão de 2017, enquanto refletia publicamente sobre a invasão da Venezuela, ele também perguntou aos assessores se deveria se encontrar com Maduro, segundo um dos assessores.

"Sempre tivemos medo de que ele quisesse exercer essa opção", disse o ex-assessor, sob a condição do anonimato. "Você não pode dizer não. Dissemos: 'Vai ser ruim para sua imagem e ele vai manipulá-lo'."

Em Washington, a linha-dura ganhava terreno. Trump demitiu Rex Tillerson, seu secretário de Estado, no início de 2018 e instalou John Bolton, um falcão veterano, como conselheiro de Segurança Nacional. Na Casa Branca, a visão de Rubio —pressão máxima sobre Maduro— prevaleceu, com o Departamento de Estado desempenhando um papel cada vez menor.

Depois que Maduro ganhou um segundo mandato em uma eleição amplamente denunciada como farsa, o governo Trump impôs novas sanções.

No início de 2019, a Casa Branca reuniu uma coalizão internacional para reconhecer Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, como o legítimo presidente do país. Falando para uma multidão em Miami em fevereiro daquele ano, Trump exortou os militares venezuelanos a apoiar Guaidó ou "perder tudo".

Naquela época, de acordo com dois líderes da oposição venezuelana e um ex-membro do governo Trump, Claver-Carone e outros estavam pressionando a elite militar e política da Venezuela para se voltarem contra Maduro.

"Ele precisava entregar uma vitória", disse a ex-autoridade. "Ele vendeu para o presidente como, 'se você se livrar de Maduro, você ganha'" na Flórida.

Entre os contatados por Claver-Carone, segundo os dirigentes da oposição, estava Gorrín.

Na época, ele era tecnicamente um fugitivo da Justiça dos Estados Unidos. No verão anterior, promotores dos EUA o acusaram de um suposto esquema de lavagem de dinheiro. Ele considerou a acusação como perseguição política, mas Ballard o abandonou como cliente, e Gorrín foi adicionado à lista de sanções.

Agora, as autoridades americanas e a oposição venezuelana precisavam de seus próprios canais de informação. De acordo com os líderes da oposição, Gorrín e outros intermediários foram convidados a transmitir as ofertas de leniência dos Estados Unidos a figuras cooperantes do regime.

Gorrín havia frequentado a universidade com o presidente da Suprema Corte da Venezuela; os americanos acreditavam ter um acordo com Gorrín para ajudar a levar o juiz e outros para o lado de Guaidó. Em março daquele ano, o governo Trump discretamente retirou a mulher de Gorrín da lista de sanções.

Gorrín, cujas discussões com figuras do regime foram relatadas por The Wall Street Journal no ano passado, negou ter desempenhado qualquer papel no esforço e disse que não teve contato com Claver-Carone após o encontro de 2017.

Uma tentativa de rebelião falhou. A prometida decisão da Suprema Corte nunca se materializou. As manifestações em massa lideradas por Guaidó fracassaram e Maduro enviou paramilitares para torturar e matar os manifestantes.

Harry Sargeant III, 62, um doador bilionário da Flórida que trabalhou na Venezuela na década de 1990 e cujo negócio de petróleo havia sido prejudicado pelas novas sanções, viu uma abertura.

Naquele verão, ele se juntou a Robert Stryk, um lobista que ganhou milhões representando líderes estrangeiros em Washington. Os contatos de Stryk na Casa Branca lhe disseram que o presidente se sentiu enganado por seus assessores na Venezuela.

Ansioso por fechar acordos de política externa aos quais os falcões do governo se opunham, Trump estava se chocando com Bolton. Em setembro, ele tinha partido.

No mês seguinte, Sargeant e Stryk voaram para Caracas para se encontrar com Maduro. Quando chegaram ao palácio presidencial, lá estava outro convidado: Gorrín.

Maduro pareceu ignorar relatos sobre o papel de Gorrín na fracassada insurreição de abril.

"Ele é meu cara", comentou Maduro, segundo outra pessoa presente na reunião.

Maduro falou sobre o beisebol americano e disse que estava disposto a permitir que os agentes antidrogas dos EUA voltassem a seu país.

Stryk propôs um plano para garantir representação jurídica formal para Maduro em Washington —um canal diplomático revivido. Maduro pegou uma estatueta de Trump feita de chocolate e fingiu apertar sua mão em cumprimento. "Estamos todos tendo uma reunião agora", disse ele.

Um impasse e uma invasão

Nada resultou dessa tentativa. Depois que Stryk e um escritório de advocacia enviaram documentos revelando sua proposta de trabalho para o regime, a reação foi severa. O senador republicano Rick Scott, da Flórida, comprometeu-se a vetar todos os clientes da empresa, a menos que ela recuasse. Ela o fez.

O esforço da administração Trump para derrubar Maduro vacilou. Ele rejeitou uma proposta da Casa Branca em março para que ele e Guaidó se afastassem em favor de um governo de transição.

"É uma vergonha estarmos nesse ponto hoje", disse Steve Goldstein, ex-assessor do Departamento de Estado com Tillerson. "Maduro não deveria ser o presidente da Venezuela."

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