Rússia testa míssil em região disputada com os EUA no Pacífico

Disparo ocorre na região onde um navio de Moscou quase atingiu um americano na véspera

São Paulo

Um dia após um navio de guerra russo quase atingir um destróier americano no Pacífico, Moscou testou um poderoso míssil de cruzeiro destinado a operações navais na região em que o incidente ocorreu.

O míssil Kh-35 foi lançado da mais recente corveta russa, a Aldar Tsindenjapov, que está em testes para entrar em operação na Frota do Pacífico no fim do ano.

Corveta Sovercheni, da mesma classe da que realizou teste nesta quarta (25), navega perto de Vladivostok
Corveta Sovercheni, da mesma classe da que realizou teste nesta quarta (25), navega perto de Vladivostok - Serguei Karpukhin - 6.set.2017/Reuters

Ele atingiu um alvo a 40 km do ponto de disparo na baía de Pedro, o Grande, que banha o território Litorâneo, região do extremo oriente russo em que fica a cidade de Vladivostok —que sedia a frota.

Na terça, o destróier americano USS John S. McCain entrou nas águas da baía durante uma patrulha no mar do Japão. Segundo o Comando do Pacífico dos EUA disse em nota, ele desenvolvia uma operação de liberdade de navegação contra "as excessivas demandas territoriais russas".

Usual na disputa entre China e EUA pelas águas em torno do país asiático, essa é uma ação na qual um navio de guerra transita por águas que seu país considera internacionais, e o adversário, territoriais suas.

Esse tipo de intrusão envolvendo áreas russas, no entanto, é raro. Segundo sites de monitoramento de navegação, o destróier avançou cerca de 2 km dentro da baía, sendo aí interceptado pelo russo Almirante Vinogradov, um navio da mesma classe.

O que ocorreu então foi uma cinematográfica ameaça de abalroamento por parte do capitão russo, que manobrou seu navio para cima do adversário, obrigando-o a mudar de rota e deixar a baía.

Incidentes semelhantes já haviam acontecido, inclusive um envolvendo o próprio destróier russo em 2019, mas não em águas consideras russas pelo Kremlin. A região foi reclamada por Moscou ainda nos tempos soviéticos, em 1984, quando Vladivostok era uma cidade militarizada e de acesso restrito.

Hoje, é uma vibrante cidade com um cosmopolitismo asiático marcado, com mais restaurantes coreanos ou japoneses do que russos, e ainda guarda grande importância militar.

Ao disparar o míssil logo após o incidente, a Rússia busca estabelecer um limite com menos sutileza do que as manobras militares chinesas nas águas próximas.

O "timing", com a chegada de Joe Biden à Casa Branca, também importa: o democrata é visto como mais duro do que Donald Trump com os russos, que têm rixas abertas com os EUA em temas como a Ucrânia e negociações como a do tratado de controle de armas nucleares pendentes.

O míssil Uran, de desenho soviético mas que só entrou em serviço em 2003, é uma das principais armas antinavio das Forças Armadas russas. Ele carrega uma ogiva de 145 kg por até 300 km, voando com auxílio de radar a meros 10 metros da água.

Já a corveta que o lançou é considerada uma das mais modernas do arsenal do Kremlin e irá operar exatamente na área contestada. Ela é a terceira da classe Steregushchi a ser entregue à Frota do Pacífico. Corvetas são navios menores do que fragatas, que por sua vez são menores que destróieres.

O John S. McCain segue no mar do Japão, antes de voltar à sua base japonesa em Yokosuka.

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