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Governo Biden

Governo Biden pode dar golpe de misericórdia no discurso da austeridade

Mulher que deve ditar rumos da economia americana no próximo governo não acredita no Consenso de Washington em tempo de recessão

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Lucas de Abreu Maia

Cientista político, foi pesquisador visitante no Massachussets Institute of Technology (MIT) e é doutorando na Universidade da Califórnia San Diego.

Um consenso está prestes a cair por terra: o de que governo bom é governo que gasta pouco. E a administração Biden pode dar o golpe de misericórdia nesse paradigma moribundo. Ao menos no mundo rico, em que juros e inflação seguem baixíssimos desde a grande crise de 2008, o mais prudente para os países parece ser endividar-se.

Não sou eu quem diz. São o Nobel de economia Paul Krugman, o professor de Harvard e ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers, o professor de Princeton e ex-presidente do Fed (o Banco Central dos Estados Unidos) Ben Bernanke e o ex-economista chefe do FMI Olivier Blanchard. Sim, o FMI, outrora o maior defensor de austeridade fiscal.

Hoje mais importante que todos esses homens, Janet Yellen, professora de Berkeley, outra ex-presidente do Fed e recém-nomeada secretária do Tesouro do futuro governo Biden, concorda. A partir de 2021, será ela a responsável pela política econômica do maior PIB do planeta.

Janet Yellen, escolhida para Secretaria do Tesouro americano, em discurso após o presidente eleito, Joe Biden, anunciar sua equipe econômica - Chandan Khanna/AFP

O paradigma de que estou falando é o famoso (ou infame, de acordo com o gosto do freguês) Consenso de Washington. Ele emergiu na década de 1980, fruto da estagflação dos anos 1970 na Europa e nos EUA e das respostas que os governos de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos EUA, deram a ela: corte de gastos públicos, redução de impostos e inflação controlada com mão de ferro, se necessário, com aumento dos juros.

Os resultados são ambíguos. De um lado, essa receita acabou com a estagflação e parece ter ajudado com o crescimento robusto global nos anos 1990. De outro, aumentaram o desemprego no curto prazo, enfraqueceram os sindicatos —e, consequentemente, tornaram as relações de trabalho mais precárias— e foram responsáveis por um crescimento brutal da desigualdade no mundo rico.

Quando bateu a crise de 2008, o mundo seguiu o mesmo paradigma: um estímulo econômico tímido nos EUA, acompanhado por austeridade já a partir de 2011, e corte profundo de gastos na Europa.

O resultado foi um desastre: uma recuperação econômica lentíssima dos dois lados do Atlântico, com um preço social atroz. Não é de se espantar que o populismo de direita tenha se fortalecido em resposta à ausência de Estado.

Desde então, o tal consenso parou de existir. Macroeconomistas notaram que não fazia sentido apregoar austeridade quando os juros se aproximam de zero. Os governos podem pegar dinheiro emprestado quase que de graça —e com inflação sem sinal de que vai acelerar.

Nesse caso, aumentar o endividamento público é a coisa fiscalmente responsável a ser feita. O país pega dinheiro pagando muito pouco por isso e pode investir, por exemplo, em infraestrutura ou no combate às mudanças climáticas. É um gasto com retorno financeiro e social.

Yellen é uma das propositoras dessa nova visão. Resta saber se conseguirá torná-la realidade. Os republicanos no Congresso americano farão de tudo para que não consiga.

E o que isso significa para o Brasil? Nossa situação é muito diferente. A inflação está em alta e nossos gastos, fora de controle há mais de meia década. Não há estabilidade macroeconômica para que nos endividemos ainda mais. Mas, se o paradigma internacional mudar, é uma questão de tempo até que um novo Consenso de Washington chegue também à periferia do capitalismo.

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