Em discurso de despedida, Trump projeta avanço do 'movimento que iniciamos'

Republicano pediu orações pelo sucesso da nova gestão em 'manter a América segura e próspera'

Washington | AFP e Reuters

A poucas horas de deixar oficialmente a Casa Branca, o presidente Donald Trump pediu orações em seu discurso de despedida. Mas se engana quem pensa que o republicano pediu as preces a si mesmo.

"Nesta semana, começa uma nova gestão, e rezamos pelo seu sucesso em manter a América segura e próspera. Estendemos nossos melhores votos e também queremos que eles tenham sorte —uma palavra muito importante", afirmou o líder americano em vídeo divulgado pelo governo nesta terça (19).

Sem citar o nome de seu sucessor, Joe Biden, Trump contradiz o comportamento adotado até então.

Ele, que tentou mudar o resultado da votação ao longo de dois meses e só parou depois que seus apoiadores invadiram o Congresso dos EUA, não cumprimentou o democrata pela vitória. Ficou semanas afirmando não reconhecer a derrota nas urnas e demorou a admitir que teria de deixar o cargo.

O presidente Donald Trump acena durante visita a trecho de muro na fronteira com o México - Mandel Ngan - 12.jan.21/AFP

Nesta terça, no entanto, ele foi claro ao dizer que se prepara para deixar o poder. Por outro lado, deixou acesa a esperança de que siga relevante politicamente ao afirmar que "o movimento que iniciamos está apenas começando". Numa das últimas vezes em que se dirigiu a apoiadores, no último dia 6, durante comício em Washington, Trump insuflou uma turba a atacar o Congresso, e suas declarações viraram o motivo de um segundo processo de impeachment, já aprovado na Câmara e a caminho do Senado.

Ainda assim, é possível enxergar nas palavras ditas no vídeo o mesmo espírito que guiou a invasão do Capitólio, já que o presidente nega que o país "seja uma nação tímida de almas domesticadas que precisam ser abrigadas e protegidas daqueles de quem discordamos". "O maior perigo é a perda de confiança em nós mesmos, uma perda de confiança em nossa grandeza nacional."

Em outro trecho da declaração, o presidente disse estar "orgulhoso de ser o primeiro presidente em décadas a não se envolver em novas guerras". Durante seu governo, ele anunciou a diminuição do número de militares no Iraque e no Afeganistão, um cumprimento parcial de uma promessa da campanha de 2016, segundo a qual faria a retirada completa das tropas desses países antes do fim de seu mandato.

A afirmação esconde o fato de que Trump, em janeiro de 2020, comandou a morte do general iraniano Qassim Suleimani, um dos homens mais poderosos do país persa, episódio que quase detonou uma guerra com Teerã e com desdobramentos no Iraque, onde bases usadas pelos EUA foram atacadas.

Ironicamente, foi o esforço para combater o Irã que promoveu um dos legados de paz dessa gestão. Na tentativa de criar uma aliança anti-Teerã, Trump costurou acordos para reatar laços diplomáticos entre Israel e diversos países árabes, como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Sudão. No vídeo divulgado nesta terça, o republicano celebrou os tratos e lembrou que seu governo se opôs ferozmente à China.

A fala foi divulgada pelo governo americano porque Trump foi banido do Twitter, até então seu megafone virtual favorito, e está com os perfis em diversas redes sociais suspensos até ao menos a cerimônia de inauguração do novo governo. Nesta terça, o Google anunciou que manterá o bloqueio ao presidente no YouTube por mais sete dias. Assim, ele está impedido de fazer transmissões ao vivo ou publicar vídeos na plataforma —comentários no canal continuarão desativados por um período indefinido.

De acordo com a empresa, a decisão foi tomada com base nas preocupações sobre "o potencial contínuo de violência", algo que também foi tema do discurso de despedida da primeira-dama Melania Trump, para quem "a violência nunca é a solução e nunca será justificada".

Também em vídeo, ela afirmou que "os últimos quatro anos foram inesquecíveis" e, na única menção ao marido —"quando Donald e eu concluímos nossa estada na Casa Branca"—, prometeu lembrar de "todas as pessoas que mantive em meu coração e suas incríveis histórias de amor, patriotismo e determinação".

Trump já anunciou que não participará da cerimônia de posse de Biden, quebrando uma tradição centenária que simboliza a troca pacífica de poder. ​Nesta quarta (20), em vez de ir à cerimônia, ele voará ainda pela manhã ao estado da Flórida, onde pretende morar após os quatro anos na Casa Branca.

"Saio deste lugar majestoso com um coração leal e alegre e um espírito otimista, e uma confiança suprema de que, para nosso país e nossos filhos, o melhor ainda está por vir."

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