Duas semanas após votação, Equador define 2º turno entre banqueiro e aliado de Correa

Guillermo Lasso supera líder indígena e enfrentará o economista Andrés Arauz na etapa marcada para 11 de abril

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Buenos Aires

Duas semanas após irem às urnas e depois de uma série de recontagens e controvérsias, os equatorianos enfim souberam neste domingo (21) quem serão os candidatos que vão disputar o segundo turno da eleição presidencial no dia 11 de abril.

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) do país anunciou ainda na madrugada que o banqueiro Guillermo Lasso terminou o primeiro turno na segunda colocação e, portanto, será o adversário do esquerdista Andrés Arauz —que ficou na liderança.

Após a conclusão da apuração de 100% das urnas, os números apontaram que Arauz, candidato apadrinhado pelo ex-presidente Rafael Correa, teve 32,7% dos votos. Já Lasso, de centro-direita, garantiu o segundo lugar ao receber 19,74%.

Em terceiro, e portanto fora da disputa, ficou o líder indígena de esquerda Yaku Pérez, com 19,38%.

Enquanto a liderança de Arauz já estava clara desde o domingo da eleição, no último dia 7, a disputa por uma vaga no segundo turno foi decidida na contagem voto a voto. O país ficou em compasso de espera por duas semanas, diante de manifestações, acusações de fraude e pedidos de recontagem.

Guillermo Lasso, candidato à Presidência do Equador, durante discurso em Guayaquil - Jose Sanchez Lindao - 7.fev.21/AFP

Assim como outros países da região, o Equador usa dois sistemas paralelos de apuração. Um é o escrutínio rápido, baseado nas fotos das atas das mesas de votação, e que costumam dar um resultado na mesma noite. Outro, com o qual o primeiro é comparado depois, é a contagem voto a voto.

No dia da eleição, o CNE decidiu interromper a contagem rápida com quase 90% das atas contabilizadas porque verificou um empate técnico entre Lasso e Pérez. Na ocasião, o líder indígena aparecia uma com ligeira vantagem sobre o banqueiro.

Como consequência, os equatorianos tiveram que esperar a contagem voto a voto. Além disso, os dois rivais pediram mais de uma recontagem das atas em várias províncias do país.

Lasso reclamou do CNE, por ter este divulgado uma projeção ainda com 20% da contagem rápida realizada, afirmando que Pérez estava mais próximo de ir ao segundo turno.

Pérez, por sua vez, desde o primeiro dia convocou vigílias, em que apoiadores se manifestavam diante das sedes dos órgãos eleitorais. Segundo o esquerdista, seu adversário poderia recorrer a métodos fraudulentos para garantir sua continuidade na disputa e, por ser um candidato milionário, teria recursos para subornar juízes eleitorais e fiscais.

Na tarde deste domingo, após o anúncio oficial, Pérez declarou que "houve uma fraude" e que não aceitará o resultado oficial.

"Anunciamos que a resistência pacífica continua no campo legal e no político. Essa luta não é de um dia ou de uma semana", afirmou ele. "A vitória que Lasso está comemorando é uma vitória pírrica, porque não há legitimidade nem respaldo popular, e a população mostrará que não aceita isso", concluiu.

O partido de Pérez, o Pachacutik, disse ainda que o anúncio do CNE foi feito antes que fossem finalizadas as recontagens em diversas províncias e prometeu realizar "marchas pacíficas, sem violência, para exigir transparência na votação".

A sigla já convocou sindicatos e comunidades indígenas para participarem da primeira manifestação, que está marcada para a capital, Quito, nesta terça-feira (23).

Pérez também registrou um pedido para que a Procuradoria do país faça uma perícia no sistema usado para a votação.

O embate entre os dois candidatos agora contrasta com as eleições de 2017. Na ocasião, quando Lasso passou ao segundo turno contra o atual presidente Lenín Moreno —que, com baixa popularidade, não quis tentar a reeleição— ele recebeu o apoio de Pérez.

Isso ocorreu porque, apesar de estarem em pontos diferentes do espectro político, tanto o banqueiro quanto o líder indígena são críticos de Correa (que comandou o país entre 2007 e 2017).

Nos protestos contra Moreno, em 2019, por exemplo, Pérez ambém não se aliou aos sindicatos indígenas ligados ao ex-presidente e preferiu trilhar um caminho independente. É por conta disso que Correa o chama de "indígena fake" e o acusa de ser financiado pelos Estados Unidos.

Desta vez, porém, as fricções entre Pérez e Lasso ficaram mais evidentes, e será mais difícil que o indígena apoie o banqueiro, como ocorreu no passado. Correa havia sinalizado que, como adversário de Arauz, seu apadrinhado, também prefere Lasso porque este não costuma ter presença em todo o país e, portanto, poderia ser mais facilmente derrotado.

Além de se posicionarem como candidatos anti-Correa, porém, não há muito em comum entre o banqueiro e o indígena.

Os seguidores de Pérez, em sua maioria, jovens progressistas, são contra a pauta neoliberal e extrativista de Lasso. Por outro lado, os eleitores do banqueiro só apoiariam Pérez para afastar a influência de Correa, mas temem sua distância dos mercados e desconfiam de sua capacidade para lidar com a crise econômica.

O Equador herdado pelo próximo presidente, que deve assumir em maio, será um país em dificuldades. Em 2020, teve uma queda do PIB de nove pontos percentuais. Há uma dívida de US$ 6,5 bilhões (R$ 35 bilhões) com o FMI (Fundo Monetário Internacional), e uma taxa de informalidade que cresceu durante a pandemia e chegou a quase 70%.

A Covid-19, por sua vez, que já tinha castigado o país a ponto de ser o segundo com mais mortes por habitantes na América do Sul, atrás apenas do Peru, entra agora numa segunda onda, voltando a lotar os hospitais das principais cidades. O programa de vacinação anda lento, e há várias denúncias de desvios de vacinas para familiares de políticos.


Quem são os candidatos à Presidência do Equador?

Andrés Arauz, 36

Nascido em Quito, é filho de um dirigente de uma companhia petrolífera e de uma agente de turismo. Graduou-se em economia na Universidade de Michigan, nos EUA, com mestrado na Flacso (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais) e doutorado em andamento na Unam (Universidade Nacional Autônoma do México).

Apadrinhado por Correa, trabalhou no Banco Central do Equador e foi ministro nas pastas de Cultura e de Conhecimento e Talento Humano. Candidato pela coalizão União Nacional para a Esperança (UNES), de esquerda, obteve 32,7% dos votos no primeiro turno.

Guillermo Lasso, 65

Nascido em Guayaquil, é o mais novo de 11 irmãos em uma família de classe alta. Fundou sua primeira em empresa, uma construtora, aos 23 anos, e construiu carreira no setor financeiro, chegando ao posto de presidente-executivo do Banco Guayaquil.

Na política, foi governador da província de Guayas, ministro da Economia e Energia no governo do presidente Jamil Mahuad e embaixador itinerante do Equador. Candidato pelo CREO (Movimento Criando Oportunidades), de centro-direita, obteve 19,74% dos votos no primeiro turno.

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