EUA reabrem, enquanto americanos se perguntam se pior da pandemia já passou

Avanço da vacinação e queda nos novos casos de Covid-19 motivam reabertura, apesar da incerteza sobre futuro

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The New York Times

Restaurantes, escolas, cinemas e bares de algumas das maiores cidades e dos estados mais populosos dos Estados Unidos estão reabrindo as portas e eliminando medidas restritivas, levando mais americanos a emergirem após meses de isolamento e aproximando o país de algo que se assemelha a como era a vida antes da pandemia de coronavírus.

Em Chicago, dezenas de milhares de crianças voltaram às aulas presenciais nas escolas públicas nesta semana. Parques em toda a cidade, fechados desde março do ano passado, foram reabertos. O Texas revogou a obrigação do uso de máscara e cancelou as restrições ao funcionamento de empresas e do comércio ligadas à pandemia. Restaurantes de Manhattan foram autorizados a operar sem limites à sua capacidade, e a Carolina do Sul revogou as limitações aos encontros em massa.

As reaberturas são vistas tanto como um incentivo oficial ao retorno à vida pública quanto como reflexo da esperança que o país está começando a sentir devido à vacinação e à queda nos casos do vírus.

Clientes fazem fila para entrar em supermercado em Houston, no Texas - Thomas Shea - 17.fev.21/AFP

Mas muitos americanos se veem diante de um dilema: não sabem se devem render-se ao otimismo, como estão fazendo governadores e prefeitos na Califórnia, Carolina do Norte e Michigan, que endossaram a reabertura ampla de empresas e escolas —ou se se deixam guiar por seus próprios receios ainda presentes sobre o vírus e pelos avisos das autoridades sanitárias federais, para as quais ainda é cedo revogar muitas das restrições.

Nesta semana, pela primeira vez em quase um ano, Kitty Sherry, 36, mandou seu filho Jude à sua escola primária em Chicago. Estava dividida entre entusiasmo e preocupação.

“Em parte, estou realmente empolgada por ele estar de volta à escola”, disse Sherry. Mas ela se preocupa com o risco à saúde dos professores e disse que sua família ainda evita ir a restaurantes e outros espaços fechados, devido à pandemia. “O problema não acabou”, ela disse. “Então não estamos festejando muito.”

Representantes do governo vêm enviando mensagens ambíguas e cautelosas ao público. Anthony Fauci, o principal conselheiro do presidente Joe Biden para a Covid-19, disse nesta semana que para grupos pequenos de pessoas totalmente vacinadas o risco de se reunirem em casa é baixo. Outras atividades, segundo ele, dependem de dados, modelos e de “bom senso clínico”. Fauci acrescentou que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) em breve publicará diretrizes sobre o que as pessoas vacinadas podem fazer com segurança.

A diretora do CDC, Rochelle Walensky, disse durante uma entrevista coletiva que está realmente preocupada com a revogação das restrições em alguns estados. Avisou que, como o número de casos está deixando de cair e se mantendo igual e como variantes do coronavírus estão se propagando em cidades como Nova York, “corremos o risco de perder completamente a vantagem que conquistamos a tão duras penas”.

“Sei que as pessoas estão cansadas; elas querem voltar à vida, à normalidade”, disse Walensky. “Mas ainda não chegamos lá.”

A mensagem que muitos americanos estão ouvindo de seus líderes eleitos é mais otimista.

Há muitos motivos para otimismo: a vacinação aumentou muito nas últimas semanas, e as notificações diárias de novos casos do coronavírus vêm diminuindo em todo o país em relação ao pico alcançado em janeiro.

Mas os sinais positivos são acompanhados de ressalvas. Embora as estatísticas nacionais tenham melhorado dramaticamente desde janeiro, na última semana, mais ou menos, estacionaram em um platô.

Os Estados Unidos ainda têm mais de 65 mil novos casos de Covid por dia, em média —um número comparável ao pico do verão passado [entre junho e agosto], segundo banco de dados do New York Times. O país vem tendo mais de 2.000 mortes diárias por Covid, em média, embora as mortes sejam um indicador que não corresponde à situação atual, já que as pessoas podem levar semanas entre serem infectadas pelo coronavírus e morrerem em decorrência dele.

Cepas novas e mais contagiosas estão circulando no país e têm o potencial de fazer o número de casos subir novamente. O número de testes realizados caiu 30% nas últimas semanas, gerando preocupação entre especialistas com a rapidez com que novos surtos serão informados. E milhões de americanos ainda esperam para ser vacinados –entre eles, funcionários de restaurantes, que agora voltaram a operar em grande número em todo o país.

Jennifer Nuzzo, epidemiologista do Centro Johns Hopkins de Segurança Sanitária, disse que há sinais de que o país pode ter superado o pior da pandemia. Mas ela ainda receia que os estados estejam reabrindo suas economias muito rápido, repetindo os mesmos erros cometidos em períodos anteriores da pandemia, quando o relaxamento de restrições foi seguido por novos aumentos nos casos.

“Em vez de abrirem apenas alguns locais de risco mais baixo e verificar se isso não muda os números, parece que estão abrindo as comportas totalmente”, disse Nuzzo.

A maioria das escolas no país está aberta para alunos, com aulas pelo menos em parte presenciais, e as evidências sugerem que isso vem sendo feito com relativa segurança. Mas a reabertura de escolas em alguns distritos foi prorrogada diversas vezes por surtos em comunidades onde outros tipos de restrições continuam revogadas.

“Nesta semana meu filho vai voltar às aulas em parte presenciais, em parte à distância, pela primeira vez”, disse Nuzzo, que vive em Maryland. “Enquanto isso as restrições aos restaurantes foram revogadas, os cinemas estão voltando a funcionar. O que eu penso é ‘deixem meu filho voltar à sala de aula antes de tudo isso’.”

O retorno a escritórios e escolas lotados deixa outros americanos tanto empolgados quanto ansiosos.

Amanda Sewell, professora em uma escola de ensino médio em Lexington, no estado de Kentucky, vai receber alunos na sala de aula na próxima segunda-feira pela primeira vez em um ano. A sala ainda ostenta os enfeites do Mardi Gras [o carnaval americano] do ano passado. A data escrita na lousa ainda é 13 de março de 2020 —o dia em que a escola fechou a ela foi para casa, pensando que em apenas duas ou três semanas ela e seus alunos estariam de volta.

Sewell já está vacinada contra o vírus e disse que está empolgada por rever seus alunos pessoalmente, depois de ensinar "quadradinhos que não respondem" no Zoom. Mas ela sabe que as coisas não serão como antes.

“Ainda estou com um pé atrás. Acho que algumas pessoas pensam que, só porque temos a vacina, a pandemia já acabou, e ela realmente não acabou”, disse Sewell. “Acho que ainda faltam alguns meses para chegarmos perto do que antes era o normal.”

Tradução de Clara Allain

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